quinta-feira, 12 de março de 2026

STF na rinha política, por Merval Pereira

O Globo

Os próprios supremos deram razões para ser criticados e submetidos a uma ação de impeachment

A pesquisa Quaest divulgada ontem confirma o empate técnico no segundo turno das eleições presidenciais entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro, reafirmando a polarização ou calcificação da disputa, como define a própria Quaest. Com uma diferença importante: a calcificação se dá entre o representante do antipetismo e o lulismo, com a vantagem para os oposicionistas. Eles se unem em torno de qualquer dos nomes que vá para o segundo turno em desfavor do presidente Lula, que não tem, como demonstrado em 2018, representante que absorva integralmente seus votos.

Uma eventual derrota de Lula na eleição de outubro significará a potencial decadência do PT, que, assim como o brizolismo, não deixa sucessor. O partido, a exemplo do PDT, poderá continuar existindo, mas não será mais o mesmo. Também aconteceu com o PSDB, embora de maneira distinta. Depois de oito anos governando com Fernando Henrique Cardoso e o Plano Real, os tucanos se perderam sem uma liderança política que se impusesse. A última foi o ex-governador de Minas Aécio Neves, que por pouco não ganhou a eleição de Dilma. Depois da própria derrocada, Aécio hoje mantém controle do partido e trabalhou para impedir a fusão com o PSD de Kassab. Estava tudo acertado, o PSD daria o nome ao partido, e o tucano seria seu símbolo.

Apesar de estar no governo, como o Congresso tem tendência crescentemente conservadora, o PT tem procurado no STF apoio institucional, movimento que o colocou indiretamente na crise que atinge a Corte. A percepção de que o governo Lula e o STF são a mesma coisa, mesmo que também a direita seja atingida pelos destroços do caso Master, se reflete nas pesquisas e comandará a eleição presidencial. Um Código de Ética não resolverá a crise do STF, mas poderia impor um constrangimento a mais para conter o comportamento dos ministros.

Hoje, estão protegidos por uma interpretação das leis que lhes permite ter atividades privadas, participar de viagens, fazer palestras. Um Código de Ética rigoroso, que exija declarar quem pagou as palestras e quanto receberam, já limitaria muito o campo para mal-entendidos. Não é à toa que a maioria dos ministros não aceita a obrigatoriedade de revelar o pagamento, porque alegam ser perigoso — uma desculpa esfarrapada. Um documento assinado por todos seria um obstáculo à farra que acontece. A importância do Código pode ser constatada de forma bastante simples: se ele não tivesse nenhuma serventia, todos assinariam.

Não querem assinar porque é um documento firmado pessoalmente; não é uma lei, que pode ser interpretada. O Código atenuaria o ambiente promíscuo que existe hoje, mas não acredito que saia. Eles não estão interessados em ser contidos por leis objetivas. O que existe hoje são leis interpretadas a favor deles. E, quando não dá para interpretar, como a participação em julgamentos em que escritórios de parentes estejam envolvidos, refazem a lei de acordo com os próprios interesses. O STF será claramente um dos pontos importantes na campanha eleitoral e, na sequência disso, é possível haver um governo de direita disposto a se vingar do STF promovendo um impeachment no Senado. E uma vingança cujos motivos foram dados pelos próprios ministros.

Enquanto a motivação era retaliação política pela prisão do ex-presidente Bolsonaro e dos envolvidos na intentona de janeiro de 2023, havia uma reação natural da sociedade a favor dos ministros. Agora, que os próprios supremos deram razões para ser criticados e submetidos a uma ação de impeachment, não há como evitar a exigência de uma investigação adequada ao escândalo que representam. Se, de um lado, os bolsonaristas tratam o ex-presidente como intocável, de outro, os supremacistas também se consideram da mesma estirpe, ou superiores. A sociedade que durma com um barulho desses.

 

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