Correio Braziliense
A roda da história parece
girar para trás: Trump no poder, governos de direita nas vizinhanças e o caso
Master desgasta as instituições políticas, inclusive o Supremo
Contra os prognósticos iniciais de que seria
o único candidato incapaz de derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
nas eleições — ao contrário, por exemplo, do governador de São Paulo, Tarcísio
Freitas (Republicanos), que era o “pule de dez” da Faria Lima e do agronegócio
—, a pesquisa Genial Quaest, divulgada ontem, mostra o senador Flávio Bolsonaro
(PL-RJ) em empate numérico com o petista no segundo turno: 41% de intenções de
votos para cada um.
Meses atrás, isso era impensável. Flávio era considerado, pelo Palácio do Planalto e mesmo pela maioria da oposição, o adversário mais fácil de derrotar. Agora, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro é o mais difícil. Com isso, a polarização entre lulismo e bolsonarismo volta a ocupar o centro do cenário político, como em 2022, e reduz o espaço para alternativas de terceira via. As razões principais são a mudança de conjuntura política e o comportamento recente de cada candidato. Ou seja, a velha dialética entre a Fortuna e a Virtú.
Uma das lições de Maquiavel é sobre os
príncipes que têm dificuldade para se manter no poder quando as circunstâncias
mudam. Em 2022, foi o caso de Bolsonaro. Em 2018, um episódio imprevisto havia
desequilibrado a campanha eleitoral: a facada que levou em Juiz de Fora (MG). O
atentado reduziu a rejeição que sofria em certos segmentos, que o demonizavam,
e reforçou o sebastianismo salvacionista de quem já era considerado um “mito”.
Havia, também, um cenário internacional
favorável, com Donald Trump na Presidência dos Estados Unidos e outros líderes
de direita no poder em países importantes da América Latina e da Europa. Todos
surfavam a crise das democracias representativas e o aprofundamento das
desigualdades provocadas pela globalização. A situação em 2022, quando Lula se
elegeu, já era completamente diferente, ainda mais por causa do democrata Joe
Biden na Presidência dos EUA e do negacionismo de Bolsonaro na pandemia.
Linhas divisórias
Entretanto, agora, a roda da história parece
girar para trás: Trump voltou ao poder, governos de direita emergem nas
vizinhanças e o caso Master impõe um enorme desgaste das instituições
políticas, inclusive o Supremo Tribunal Federal (STF). No caso de Lula, na
campanha eleitoral, a principal vantagem continua sendo sua posição
institucional. Como presidente da República, dispõe da visibilidade do cargo,
capacidade de mobilização do Estado e uma base social historicamente
consolidada. Mesmo com desgaste recente, Lula mantém uma base eleitoral sólida
— especialmente entre eleitores de menor renda, no Nordeste e entre os
beneficiários de políticas sociais. O fato de 42% dos entrevistados
considerarem o presidente mais moderado que seu próprio partido mostra que, se
quiser, tem capacidade de ampliação política. Mas pode ser que não dê mais
tempo.
A desaprovação do governo chegou a 51%,
enquanto a aprovação caiu para 44%, o pior índice desde julho de 2025. A queda
de cinco pontos nas intenções de voto desde dezembro também aponta um elemento
simbólico importante: pela primeira vez, o medo da continuidade de Lula no
poder (43%) supera, ainda que por margem mínima, o receio da volta do
bolsonarismo (42%). A narrativa do “risco autoritário” pode deixar de ser o
principal divisor de águas eleitoral em 2022.
Outro ponto crítico para Lula é o eleitorado
independente, segmento que costuma decidir eleições competitivas, no qual
Flávio aparece à frente, com 32% contra 27%. Essa diferença sinaliza
dificuldade em dialogar com setores mais voláteis do eleitorado, especialmente
no Sudeste e entre a classe média urbana. Lula estava até agora como aquele
príncipe prudente que pensava jogar parado contra o príncipe desafiante.
Já o senador apresenta uma trajetória
inversa. Sua principal força reside na reunificação do campo bolsonarista. O
crescimento de cinco pontos percentuais desde dezembro indica que o eleitorado
conservador voltou a se mobilizar. Mesmo inelegível e preso após condenação
relacionada à trama golpista, o ex-presidente permanece como referência
simbólica com densidade eleitoral.
Flávio se beneficia diretamente desse capital
político, mas procura se apresentar como mais moderado do que o pai: o
Bolsonaro que tomou a vacina. Seu avanço entre eleitores independentes é
relevante. O crescimento de seis pontos nesse segmento indica que parte do
eleitorado que rejeita Lula começa a enxergar nele uma possibilidade de
derrotar o petista. O senador deixa de ser um fenômeno de base ideológica para
se tornar uma candidatura competitiva nacionalmente.
Por outro lado, Flávio também enfrenta
fragilidades estruturais. A principal delas é a alta rejeição do bolsonarismo.
O fato de 48% dos entrevistados afirmarem que ele não é mais moderado que seu
partido indica que sua imagem ainda está fortemente associada ao núcleo duro do
bolsonarismo. Isso limita sua capacidade de ampliar alianças políticas para
conquistar setores moderados do eleitorado, bem como ressalta a dependência em
relação à imagem de Bolsonaro, cuja agenda passa pela anistia dos golpistas do
8 de janeiro e o alinhamento automático com Trump.

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