sexta-feira, 17 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Para surpresa de ninguém, rombo dos Correios continua

Por Folha de S. Paulo

Empresa puxa novo déficit recorde de estatais sob Lula, de R$ 4,2 bilhões no primeiro bimestre

Após plano de reestruturação, programa de demissões voluntárias fracassa; gestão petista insiste tolamente em rejeitar a privatização

Sob Luiz Inácio Lula da Silva (PT), as empresas estatais federais consideradas na apuração do resultado das contas públicas acumulam déficits históricos, agravando a pressão sobre o Tesouro Nacional. Em apenas dois meses deste 2026, o rombo já se aproxima do apurado em todo o ano anterior.

Dados do Banco Central mostram o descalabro. As estatais federais —excluídas as financeiras, como Banco do BrasilCaixa Econômica Federal e BNDES, e a Petrobras— registraram saldo negativo (excluindo gastos com juros) de R$ 4,2 bilhões no primeiro bimestre —o pior resultado para o período desde o início da série histórica, em 2002.

O Brasil oculto da polarização, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

Não é direita ou esquerda. É o nosso extremismo: somos radicalmente de extremo centro

Parece que todos são contra a polarização política. À medida que o cenário das eleições se define, em particular a de presidente da República, vai ficando claro que, mais uma vez, o dilema é apenas o de optar por qual polarização. O Brasil tem mudado. Vai se ver, ficou no mesmo lugar. Os penduricalhos do oportunismo não o deixam mover-se.

Há muita coisa por trás disso. Muita história, muitas acomodações, muitos interesses. Não é direita ou esquerda. É o nosso extremismo: somos radicalmente de extremo centro, que, na verdade, é o município e o regionalismo dele decorrente. Sobretudo, óbvios e conhecidos resíduos dos imensos e acumulados impasses a que o país se torne algo diferente do que sempre foi. Mesmo nossas revoluções são golpes, como em 1889, 1930 e 1964.

Propostas para conter alta no custo de vida dividem o governo

Novo chefe da articulação política, Guimarães defende subvenção à gasolina e revisão da ‘taxa das blusinhas’, Alckmin diverge

Por Sofia Aguiar e Mariana Andrade / Valor Econômico

Os pacotes em elaboração pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva para tentar reverter a queda de popularidade da gestão federal têm sido marcados por divergências entre integrantes da Esplanada. A possível revogação da chamada “taxa das blusinhas”, como é popularmente conhecida a sobretaxa de importações abaixo de US$ 50 no Brasil, e propostas para mitigar os efeitos do conflito no Oriente Médio são exemplos de propostas que ainda não têm consenso na gestão.

Na quinta-feira (16), o recém-empossado ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, disse que as medidas anunciadas até agora pelo governo para reduzir o impacto da guerra no Irã nos combustíveis são “insuficientes”. Por conta disso, segundo ele, o Executivo deve anunciar novas ações “logo, logo”.

Dentre as medidas, ele citou a possibilidade de se oferecer subvenção à gasolina, como já foi aplicado a óleo diesel e gás de cozinha. Mais tarde, no entanto, o presidente em exercício, Geraldo Alckmin, negou tal estudo.

“Neste momento, [o governo] não [estuda subvenção para a gasolina]. Até porque a Petrobras não aumentou o [preço] gasolina, não teve nenhum reajuste”, comentou Alckmin.

Boulos e Guimarães, duas táticas de Lula na cozinha do Planalto, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Ambos protagonizam uma velha encruzilhada dos governos de esquerda: avançar rapidamente em pautas populares ou calibrar o passo para preservar alianças e estabilidade

Com a saída do ministro da Casa Civil, Rui Costa, e da ministra de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, que disputarão as eleições como candidatos ao Senado, os principais operadores políticos do Palácio do Planalto passaram a ser Guilherme Boulos, na Secretária-Geral da Presidência, e José Guimarães, que substituiu Gleisi. Miriam Belchior assumiu a Casa Civil com foco na gestão administrativa do governo. Boulos e Guimarães têm perfis completamente diferentes.

Ex-candidato a prefeito de São Paulo, Boulos construiu sua trajetória política a partir dos movimentos sociais, especialmente no campo da luta por moradia, o que lhe confere forte conexão com a militância de esquerda e com pautas de mobilização popular. Sua atuação no governo reflete essa origem: é um articulador de base social, voltado para sindicatos, movimentos organizados e partidos progressistas, com discurso mais ideológico e mobilizador. Já Guimarães representa a face pragmática do governo. Deputado experiente, com trânsito consolidado no Congresso, atua como operador político clássico, interlocutor do presidente junto ao Centrão e ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), para construir maiorias e viabilizar votações. Seu perfil é moderado, negociador capaz de fazer muitas concessões para colher resultados.

A Sabesp no palanque em SP, por Vera Magalhães

O Globo

Oposição a Tarcísio já deixou claro que a privatização será um dos principais focos da tentativa de desconstruir a imagem de eficácia

A privatização da Sabesp entrou definitivamente na pauta da campanha eleitoral em São Paulo. Isso porque começam a aparecer efeitos mensuráveis da venda, e muitos deles não são bons.

Concluída em julho de 2024, a operação marcou a venda do controle da companhia pelo governo de Tarcísio de Freitas, com a transferência de participação relevante ao setor privado e a entrada de um investidor de referência. Foram vendidos cerca de 32% das ações por R$ 14,7 bilhões, com a Equatorial Energia adquirindo 15% e assumindo posição estratégica. O governo manteve participação minoritária e estruturou o modelo, com metas de universalização até o fim da década e promessa de até R$ 66 bilhões em investimentos.

A verdade de Eduardo Cunha, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ex-deputado afirma que abriu caminho para ascensão do bolsonarismo

Eduardo Cunha disse uma verdade. O fato, por si só, já mereceria registro. Neste caso, ajuda a pensar os rumos do país na última década.

Em entrevista ao jornal mineiro O Tempo, o ex-deputado afirmou que a derrubada de Dilma Rousseff abriu caminho para a ascensão do bolsonarismo. “Se eu não tivesse feito o impeachment, não teria existido Bolsonaro presidente da República”, sentenciou.

Cunha perdeu o poder, mas não perdeu a pose. Imodesto, apresentou-se como precursor de “todos os expoentes da direita que aí estão”. Em provocação a Nikolas Ferreira, disse que muitos ainda usavam fraldas quando ele comandou a cassação da ex-presidente. “Tudo é fruto do meu ato. Sem o meu ato, nada teria ocorrido”, jactou-se.

Oposição às bets superou a polarização? Por Pablo Ortellado

O Globo

Lula e Flávio Bolsonaro têm criticado as apostas on-line, apontando — corretamente — a proliferação do vício e o alto nível de endividamento das famílias.

Nesta semana, em publicação nas redes sociais, Flávio atribuiu a regulação das apostas ao governo Lula e observou que tem “um monte de gente se iludindo e achando que vai ganhar dinheiro apostando até o que não tem, perde tudo e ainda fica endividado”. Na semana anterior, em entrevista ao portal ICL Notícias, Lula disse que “não é possível continuar com a jogatina desenfreada” e que, se depender dele, “a gente fecha as bets”.

Apesar de tudo, PIB vai levando, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

No Brasil, elemento adicional complica os prognósticos: o País entrou no modo eleições

Saiu mais um indicador do comportamento da economia neste ano tão cheio de incertezas. Trata-se do Índice da Atividade Econômica do Banco Central, o IBC-Br. Em fevereiro, veio +0,60%, dentro do esperado, mas abaixo do obtido em janeiro, que foi de +0,78%. No período de doze meses terminado em fevereiro, o crescimento ficou em 1,88%.

O IBC-Br funciona como prévia do PIB, esta, sim, uma avaliação mais precisa da evolução da renda do brasileiro. Mas o número do PIB, aferido pelas Contas Nacionais, exige uma apuração complicada e leva mais tempo para conclusão. Sai apenas trimestralmente, com um atraso de mais de dois meses depois de fechado o trimestre. O IBC-Br é um cálculo mais ligeiro, que dá uma boa ideia de como está evoluindo a economia.

O faro de Vorcaro, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Nem todo mundo ‘tem seu preço’, mas Vorcaro sabia farejar quem tem e vende a própria honra

Quando se olha a foto de Paulo Henrique Costa, a pergunta que vem à cabeça é imediata: como um homem de 49 anos, com mulher e filhos, bem-sucedido, que chegou a presidente do BRB, o banco estatal de Brasília, joga fora tudo isso, honra, biografia, liberdade, a própria vida e o futuro da família, por dinheiro?

O onipresente Daniel Vorcaro, que agiu desde o início do Master comprando poderosos, sabia que “nem todo mundo tem seu preço” e farejava quem era mais suscetível a vender a própria honra. A de Costa, por exemplo, custou a ele seis imóveis, no valor extraordinário de R$ 146,6 milhões, mas é bem provável que já estivesse à venda quando assumiu o BRB, em janeiro de 2019, por escolha pessoal do então governador Ibaneis Rocha.

Prejuízo de bilhões, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Ibaneis Rocha diz que nada sabe. Celina Leão tenta vender ativos, mas encontra dificuldades

O ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa foi pego pelos investigadores da Polícia Federal em conversas para lá de comprometedoras com o exbanqueiro Daniel Vorcaro.

Poucas vezes em investigações de corrupção encontraram-se provas tão robustas.

“Conversei com a minha esposa e estaremos em SP na próxima semana. Seria legal mostrar o apartamento para ela. Assim, ela também vai se ambientando”, escreveu Paulo Henrique Costa.

“Vou te passar uma pessoa que te mostrará o apartamento”, responde Vorcaro.

Lula é visto como favorito em eleição presidencial por 48% dos brasileiros, aponta Quaest, por Mônica Bergamo

Folha de S. Paulo

Segundo pesquisa, 32% acreditam que o vitorioso seria Flávio Bolsonaro

Petista é apontado como provável vencedor em quase todas as regiões do país, exceto o Sul

Apesar da queda contínua em sua popularidade desde o fim do ano passado, e de sondagens que mostram que está empatado com Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no segundo turno, o presidente Lula (PT) segue sendo visto como o mais competitivo candidato a Presidente da República pelo eleitorado brasileiro.

É o que mostra a pesquisa Quaest realizada entre 10 e 13 de abril, e registrada sob o número BR-09285/2026.

Questionados sobre "quem ganharia as eleições para presidente deste ano" se o pleito estivesse sendo realizado agora, 48% apostaram no petista, contra 32% que acreditam que o vitorioso seria Flávio Bolsonaro e 2% que dizem acreditar nas chances de Ronaldo Caiado (PSD-GO).

Vorcaro e Costa, ex-BRB, devem fazer concurso de quem dá mais na delação de outros bandidos, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Ex-presidente de banco do DF negociava propina como quem fala de linguiça no churrasco

Governadora do DF ainda quer ajuda federal para tapar buraco criminoso do banco

A governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP) ainda quer que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva arrume dinheiro para tapar o rombo da roubança do BRB, o banco estatal de Brasília. Como o banco não tem publicado balanços, não se sabe o tamanho do buraco —o Banco Central sabe. Se não interveio na coisa ou não liquidou o banco, deve imaginar que o buraco ainda possa ser coberto.

Leão diz que arrumou dinheiro de uma gestora de fundos, uma solução que parece espantosamente criativa, ao menos pelo pouco que se sabe dela, mas não o quanto realista ou suficiente, para dizer o menos. Não deve bastar, pois o banco adia sine die o balanço e pede dinheiro a Lula. Seria um escândalo que recebesse, ainda mais agora que se sabe mais sobre o propinaço do BRB. O governo Lula tem dito nas internas e em público que não vai fazer parte da operação tapa-buraco, nem por meio de bancos federais.

Injustiça eleitoral, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Lula e o PT buscam culpados por maus resultados em pesquisas de intenção de voto

Eleitorado não costuma ser consistente na responsabilização de governantes

Se há um viés cognitivo de ampla penetração, é a falácia do mundo justo —a ideia de que, no final, as pessoas receberão o que merecem. Somos condicionados desde criancinhas a crer nessa lorota. Ela está presente nas histórias infantis (vilões são sempre punidos), nas religiões (papai do céu recompensa os bons e castiga os maus) e até em justificações ideológicas (discurso da meritocracia). Aparece também em eleições.

Quem abusou da autoridade: o ministro ou o senador? Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Gilmar Mendes talvez tenha dado um tiro de efeito bumerangue na reação ao relatório de Alessandro Vieira

Senador pode ter errado o cálculo ao provocar o Supremo, mas o ministro extrapolou ao recorrer à PGR

Se as coisas funcionarem como manda o figurino da institucionalidade, o ministro Gilmar Mendes pode ter dado um tiro de efeito bumerangue ao pedir que a Procuradoria-Geral da República investigue o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) por abuso de autoridade.

Na concepção do magistrado do Supremo Tribunal Federal, o então relator da CPI do Crime Organizado teria abusado de suas prerrogativas ao incluir no seu relatório pedido de indiciamento dele, dos colegas Dias Toffoli e Alexandre de Moraes e do procurador-geral, Paulo Gonet.

Táxi Aéreo Vorcaro, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Daniel Vorcaro deu carona a tanta gente pesada em seus jatinhos que eles tinham de cair

Neste momento, ele está consultando suas listas de passageiros e quanto cobrou de cada um

De tanto ler que o juiz Fulano, o senador Beltrano e o deputado Cicrano voaram "nas asas de Daniel Vorcaro", apelei para a IA a fim de saber mais. Recebi como resposta: "Daniel Vorcaro não tem asas. Seus membros posteriores, como os de qualquer ser humano, são braços. Talvez a pergunta se refira à sua frota de aviões particulares, entre os quais jatinhos dos quais se serviram diversas autoridades. Mesmo nesse caso, elas não voaram nas asas dos jatinhos, mas dentro das aeronaves. ‘Voaram’ é uma metáfora. Na verdade, viajaram confortavelmente sentadas e presas aos assentos por cintos de segurança".

Zuenir Ventura é tema de documentário

‘Mestre Zu’, dirigido pelo cineasta Zelito Viana, tem sessão hoje em São Paulo, parte da programação do Festival É Tudo Verdade

Gabriel Zorzetto / O Estado de S. Paulo

Muitos colegas se referem a Zuenir Ventura como uma “unanimidade”. De fato, o jornalista de 94 anos, um dos mais relevantes do País, parece não ter defeitos, conforme mostra o novo documentário Mestre Zu. “É complicado fazer um filme sem antagonista”, diz o diretor Zelito Viana (de Avaeté – Semente da Vingança e Villa-Lobos: Uma Vida de Paixão), de 87 anos, que é irmão de Chico Anysio e pai do ator Marcos Palmeira. “Mas eu não quis que fosse algo chapa-branca.”

A película, com 70 minutos de duração, tem sessões de pré-estreia nesta semana em São Paulo, no É Tudo Verdade – o principal festival dedicado ao gênero na América Latina – e estreia comercial prevista para novembro. A obra retrata um homem ao mesmo tempo generoso e exigente, profundamente comprometido em interpretar e explicar o Brasil.

Revistas culturais, a falta que faz, por Ivan Alves Filho

As revistas culturais são, por vezes, a voz de um país. Nisso, se assemelham a algumas cantoras – e eu poderia citar aqui Cesária Évora, Dalva de Oliveira, Edith Piaf, Oum Kalthoum, Mercedes Sosa, Bessie Smith, Violeta Parra e Amália Rodrigues, que encarnam suas respectivas nações. A saber, pela ordem: Cabo Verde, Brasil, França, Egito, Argentina, Estados Unidos, Chile e Portugal.

Assim, como imaginar a França, por exemplo, sem a publicação L´Homme, fundada pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss? Ou a revista La Pensée, voltada para o racionalismo moderno? Mais: como pensar essa mesma França sem Les Temps Modernes, revista dirigida durante anos pelo casal Jean-Paul Sartre – Simone de Beauvoir? La Nouvelle Critique é outra estupenda publicação francesa, assim como Europe. A Magazine Littéraire, por seu turno, era de leitura obrigatória, com riquíssimas edições temáticas. E a Revue des Deux Mondes, fundada em 1829 e cuja versão eletrônica acompanho sempre, ainda cumpre uma bela função. E o como imaginar a Itália sem Rinascità, fundada por Palmiro Togliatti e que circulou entre 1944 e 1991? Ou Portugal sem a Revista Camões?

Poesia | Se os tubarões fossem homens, de Bertold Brecht

 

Música | João Gilberto - Saudosa Maloca (1982), de Adoniran Barbosa