segunda-feira, 13 de abril de 2026

Irã, dez lições de um desastre estratégico, por Demétrio Magnoli

O Globo

Estados Unidos perderam a guerra, independentemente dos resultados das negociações

1. Os Estados Unidos perderam a guerra, independentemente dos resultados das negociações com o Irã. Apesar da devastação infligida às capacidades militares iranianas, não atingiram os variados e mutáveis objetivos políticos declarados por Trump. O Irã não renunciou a seus programas nuclear e de mísseis ou ao patrocínio das milícias regionais subordinadas. E, ainda, assumiu o controle efetivo do Estreito de Ormuz.

2. A decapitação do Líder Supremo e do círculo principal de dirigentes não provocou a implosão do regime iraniano, que é uma ditadura institucionalizada. O regime resistiu, com um deslizamento do núcleo de poder do clero xiita para a Guarda Revolucionária. O ataque brutal dos Estados Unidos e de Israel esvaziou o levante popular que abalava o regime e reconstituiu parcialmente sua base social interna.

3. O Irã inclina-se a substituir a política de enriquecimento de urânio sem a produção de bombas atômicas pela busca da construção de um arsenal nuclear. Depois de implodir o acordo nuclear negociado por Obama, Trump lançou as sementes do surgimento de uma Coreia do Norte no Oriente Médio.

Narcisos malignos, por Dorrit Harazim

O Globo

O mundo está exausto de Donald Trump, e sobram poucos líderes nacionais adultos comprometidos com o Direito Internacional

‘É a desgraça destes tempos que os loucos guiem os cegos’, lamenta o Conde de Gloucester na trama shakespeariana “Rei Lear”. No enredo da peça, a frase resume a inversão moral e política que se descortina ao longo de cinco atos. Os incapazes ou corruptos passam a conduzir os já vulneráveis, e a autoridade deixa de estar ligada à lucidez. A imagem de “loucos” governando, “cegos” manipulados e a ordem moral definhando refere-se tanto ao reino da trama como ao próprio Lear, que só percebe a verdade depois de ter entregado o poder e perdido o discernimento.

O sentido da frase de Gloucester, além de político, é moral, por marcar um mundo em que a autoridade foi tragicamente separada da sabedoria. E é, sobretudo, imortal, por atravessar 420 anos de existência e conseguir retratar com acuidade nossos miseráveis tempos atuais.

Hungria encerra era Orbán entre desafio da mudança e risco de revanche

Por Renáta Uitz e Thiago Amparo* / Folha de S. Paulo

Vitória do Tisza de Péter Magyar rompe ciclo de concentração de poder do premiê, mas herda máquina ainda ativa

Com maioria ampla, novo governo deve enfrentar dilema entre reformar sistema cooptado e punir adversários

Na noite deste domingo (12), a era Viktor Orbán chegou ao fim. Após 16 anos no poder, o premiê reconheceu a derrota de seu partido, o Fidesz, nas eleições da Hungria. Não se trata de um feito menor: ao longo de quatro mandatos parlamentares, o sistema eleitoral foi inteiramente remodelado para favorecê-lo.

Depois da vitória esmagadora de 2010, que deu ao Fidesz uma maioria de dois terços no Parlamento, Orbán anunciou a construção de uma democracia iliberal, com o desmonte sistemático das instituições encarregadas de limitar o poder. O que se seguiu foi uma profunda transformação política, social e cultural, cuidadosamente inscrita no texto constitucional de uma nova Constituição, promulgada em 2012.

O regime de Orbán sempre foi pragmático na maximização do poder e jamais escondeu suas inspirações. Seu projeto constitucional se inspirou em exemplos russos e foi moldado em meio a relações tensas com as instituições europeias, ao mesmo tempo em que mantinha o premiê como aliado próximo da Rússia.

Johannes Brahms -- Hungarian Dance No.5 - Hungarian Symphony Orchestra Budapest

 

Investigadores principais do V-Dem criticam relatório da instituição sobre a democracia, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

A ideia de uma autocratização global generalizada não se sustenta empiricamente

Um dos críticos é o próprio arquiteto intelectual do projeto V-Dem

"Democracy Report 2026" do V-Dem tem gerado grande controvérsia —não apenas externa, mas também interna. Quatro dos cinco investigadores principais —inclusive o idealizador do projeto, Michael Coppedge— afirmam "não endossar parte das análises sobre a extensão do recente declínio global da democracia", consideradas "exageradas, pouco nuançadas" e marcadas por "linguagem inflada".

Universidade com a cara do povo brasileiro - parte 2, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Cotas nas instituições federais mudam radicalmente perfil dos estudantes

Estudo mostra crescimento de 279% no ingresso de pessoas pretas, pardas e indígenas

Volto ao tema da coluna anterior para apresentar alguns dados que sustentam minha convicção de que as cotas são a mais eficiente e eficaz política pública já adotada pelo Estado para fazer frente ao fosso de desigualdades que nos caracteriza enquanto sociedade.

Como se sabe, até o fim dos anos 1990 o perfil acadêmico dos alunos das nossas universidades federais era composto majoritariamente por jovens brancos, filhos das classes média e alta.

A mãe de Sua Senhoria, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Graças à TV e à leitura labial, sabe-se agora o que os jogadores dizem ao brigar em campo

Muitos são mais velhos do que os juízes e não hesitam em mandá-los fazer certas coisas

Foi-se o tempo no futebol em que os arranca-rabos entre os jogadores eram abafados pelos espasmos das torcidas ou inaudíveis pela distância do gramado. Hoje, com a TV e a leitura labial, o que eles vociferam uns para os outros já não fica inédito. Graças ao dublador Gustavo Machado, pudemos acompanhar, por exemplo, a destreza de Neymar no castelhano ao se dirigir ao uruguaio Hernández no recente (2/4) Santos X Remo. Ao levar uma entrada do gringo, Neymar, descontrolado, pespegou-lhe uma penca de "Hijos de puta!" seguidos de "Cagón!" e "Pelotudo!". O último epíteto causou espécie —o que seria "pelotudo"? Fui ao dicionário: "idiota, imbecil, babaca". Enriqueci meu vocabulário.

Poesia | Evocação do Recife, de Manuel Bandeira

 

Música | Paulinho da Viola = Eu canto samba