segunda-feira, 6 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

EUA completarão 250 anos com democracia em crise

Por O Globo

Estudos comparativos demonstram que, sob Trump, liberdades e direitos civis estão em recuo flagrante

No fim do século XVIII, as nações bem-sucedidas no mundo eram basicamente monarquias. O experimento democrático inaugurado nos Estados Unidos com a independência em 1776 e a Constituição em 1789 foi, sob qualquer aspecto, revolucionário. De lá para cá, a ideia de uma república democrática se espalhou pelo mundo. É irônico, diante disso, que os americanos estejam prestes a comemorar os 250 anos de sua independência justamente numa época em que a democracia sofre forte erosão. Os efeitos negativos do primeiro ano do segundo governo de Donald Trump têm sido constatados nas principais avaliações objetivas de democracia e liberdade publicadas nos últimos dias.

Sem propostas por ora, Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado se apoiam em anistia aos golpistas, por Vinícius Nunes

CartaCapital

Promessa de perdão a Jair Bolsonaro domina discurso de pré-candidatos que disputam os mesmos votos e ainda carecem de agenda concreta para o País

primeira declaração de Ronaldo Caiado (PSD), ex-governador de Goiás, como pré-candidato à Presidência da República foi prometer uma anistia “ampla, geral e irrestrita” aos condenados pelos atos de 8 de Janeiro, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Condenado a 27 anos e três meses por participação na trama golpista, Bolsonaro cumpre prisão domiciliar temporária.

O movimento de Caiado atinge diretamente a estratégia de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em pré-campanha pelo País, o senador tem reiterado que seu principal compromisso é com o pai e que pretende “repetir” o governo findado em 2022. A anistia, até então uma das principais bandeiras do senador, passa a ser compartilhada e disputada por outro nome do mesmo campo político.

Além da convergência no discurso, Caiado tem adotado uma linha de oposição frontal ao governo Lula (PT), reforçando o posicionamento à direita e afastando qualquer tentativa de “terceira via”. Ao lançar sua pré-candidatura, o ex-governador também intensificou críticas ao Planalto e buscou se apresentar como alternativa mais experiente, em contraste com Flávio, que nunca ocupou cargos no Executivo.

Conspiração Condor, por Miguel de Almeida

O Globo

'Conspiração Condor' reconta, quase em sequência, o fim dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e Jango Goulart e do ex-governador Carlos Lacerda

Em 1961, Jango Goulart estava em visita oficial à China quando Jânio Quadros renunciou à Presidência. Os protobolsonaristas usam esse episódio para tentar pespegar em Jango a pecha de comunista. Mais de dez anos depois, em 1972, Richard Nixon, um direitista corrupto, foi à China atrás de relações e negócios. Nixon pulou do cargo para não ser cassado (era desonesto). Jango, um latifundiário gaúcho, típico reformista social, se viu obrigado a fugir do país por um golpe militar. Por trás de sua (e nossa) desgraça, estava o governo dos Estados Unidos, que manietou e financiou políticos brasileiros.

E se Vorcaro não for o cabeça da organização criminosa? Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Delação premiada muda de figura se ficar comprovado que dono do Master era na verdade um intermediário de favores entre empresários e políticos

Em duas colunas recentes expus meu ponto de vista de que a celebração de um acordo de colaboração premiada com Daniel Vorcaro seria desnecessária e contrária ao interesse público. Recentemente, porém, um observador muito mais arguto das conexões espúrias entre o mundo empresarial e a classe política abalou as minhas convicções.

Minha posição contra a delação do dono do Master se baseava em três argumentos. De um lado, a apreensão dos celulares e computadores das figuras centrais da gestão do banco, assim como a decretação da liquidação extrajudicial das instituições financeiras ligadas ao grupo, dariam à Polícia Federal e ao Ministério Público elementos suficientes para “seguir o dinheiro” e expor a teia de corrupção montada pelo banqueiro mineiro. Nesse caso, um acordo de delação teria pouco a acrescentar ao trabalho de investigação e, assim, não atenderia ao critério de “colaboração eficaz” exigido pela legislação brasileira.

Guerra piora cenário para BC, e governo não ajuda, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

A despeito dos juros altíssimos, a economia segue superaquecida, e o Copom não tem auxílio nenhum da atividade econômica para baixar a inflação

O mercado financeiro está revendo as suas apostas para a queda de juros no fim deste mês, em reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Primeiro, o prognóstico dominante era um corte de 0,5 ponto percentual na taxa Selic e, agora, o cenário mais provável é uma redução de 0,25 ponto percentual, segundo as probabilidades embutidas nas opções de Copom da B3.

O Banco Central deixou todas as opções em aberto. Seu presidente, Gabriel Galípolo, pediu “tempo para entender” como a guerra no Oriente Médio vai afetar a inflação. Outro ponto de interrogação é a quantas anda a atividade econômica dentro do Brasil, em meio a medidas de impulso fiscal e creditício que atrapalham a transmissão da política monetária.

IA ajuda e atrapalha, por Irapuã Santana

O Globo

Ao usarmos a inteligência artificial para evitar o esforço da concentração, enfraquecemos nosso cérebro

A inteligência artificial (IA) generativa é, sem dúvida, uma das ferramentas mais transformadoras da História recente, permitindo traduzir pensamentos complexos e automatizar tarefas rotineiras, com o potencial de aumentar a eficiência global. No entanto, à medida que essas ferramentas se tornam onipresentes, surgem perigos invisíveis que ameaçam a própria essência do intelecto humano, podendo afetar a nossa capacidade de pensar de forma independente e crítica.

O estudo recente intitulado “Sycophantic chatbots cause delusional spiraling, even in ideal bayesians” (Chatbots sicofantas causam espirais delirantes, mesmo em bayesianos ideais) revela um desses riscos estruturais. Os autores demonstram que as IAs tendem a concordar com o usuário e validar suas opiniões, mesmo quando estão erradas, para parecer mais prestativas.

Incapacidade de surpreender, por Diogo Schelp

O Estado de S. Paulo

Lula 3 falha em popularidade porque perdeu a chance de surpreender

Em outros tempos, o plano de reeleição de Lula não deveria parecer tão incerto. Seu terceiro mandato desfruta de estabilidade política, sem as tensões produzidas pelo Poder Executivo contra o Judiciário, o Legislativo e os governadores estaduais durante o governo de Jair Bolsonaro, e cumpriu a promessa de manter a ordem democrática no País, apesar das fragilidades que persistem. Os indicadores econômicos não são dos piores – riscos fiscais à parte. O PIB faz o seu tradicional voo de galinha, o índice de inflação em 2025 foi o mais baixo desde 2019 e a taxa de desemprego está na mínima da série histórica (a informalidade, porém, continua alta). Deveria ser o suficiente para obter a continuidade no poder.

A guerra e a História, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

Pensar a História descartando a guerra como categoria de pensamento e como forma da natureza humana é um luxo que não mais podemos nos dar

Pensar a guerra, eis uma tarefa primordial de nosso tempo. Tempo de profundas transformações, em que o arcabouço vigente desde a 2.ª Guerra Mundial está desmoronando a olhos vistos. O que valia começa a cessar de valer, com os referenciais geopolíticos explodindo. Os interesses dos Estados, sobretudo os mais poderosos, simplesmente se afirmam enquanto tais, com os demais devendo se acomodar a essa nova situação. Trilhar a diplomacia num contexto desse tipo exige grande habilidade, quando não o silêncio, diante de circunstâncias que são incontornáveis. De nada adianta, como faz a diplomacia lulista, confrontar retoricamente Trump se não tiver força para fazer valer a sua posição. O Brasil será apenas o grande prejudicado.

A opção Caiado: recursos e confiança, por Lara Mesquita*

Folha de S. Paulo

Histórico do ex-governador de Goiás ajuda a entender a escolha do PSD para eleição presidencial

Eduardo Leite tem dificuldade de articulação política e questionava as decisões do partido

Este sábado encerrou uma etapa crucial do calendário eleitoral. Foi o fim do prazo para desincompatibilização de cargos públicos, filiação partidária e mudança de domicílio eleitoral por aqueles que pretendem disputar mandato eletivo neste ano.

São 17 ministros do governo Lula e 11 governadores que deixaram seus postos com foco na disputa eleitoral. Entre eles está o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, personagem clássico da política brasileira. Participou de todas as eleições desde 1989, já tendo concorrido à Presidência, ao Governo de Goiás, à Câmara dos Deputados e ao Senado. Também figura entre os governadores com maior riqueza pessoal do país.

O controle da corrupção e o corte de orelhas, por Marcus André Melo*

Folha de S. Paulo

Que as maiorias legislativas são inimigas do controle não é novidade; o mal maior é quando os inimigos do controle são os próprios controladores

É o problema canônico do quem guarda os guardiões

A análise das origens do controle parlamentar de contas públicas —o qual teve como palco a Guerra Civil Inglesa (1642-1651)— é particularmente instigante pelo seu simbolismo. As demandas por controle e transparência foram protagonizadas por William Prynne, membro da oposição no Parlamento. Prynne teve as orelhas cortadas como punição à audácia de querer que o governo prestasse contas, como relatado por Jacob Soll, em "The Reckoning: Financial Accountability and the Rise and Fall of Nation". Mas sobreviveu. Quem não sobreviveu foi o rei que teve a cabeça cortada.

Por uma universidade com a cara do povo brasileiro, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

A ampliação do acesso do povo às universidades se reflete nas esferas econômica, social e cultural

Multiplicam-se os ataques contra as ações afirmativas, especialmente contra cotas étnico-raciais

Ouso dizer, sem medo de errar, que a democratização do ensino superior com a implementação das cotas é a política pública mais eficiente e eficaz já adotada pelo Estado para enfrentar as inequívocas e múltiplas desigualdades que separam as elites das camadas populares da sociedade brasileira.

A ampliação do acesso do povo às universidades produziu um efeito que supera o campo da política educacional e se reflete nas esferas econômica, social e cultural ao abrir portas que historicamente estiveram cerradas aos mais pobres —em especial aos negros.

O espião festivo, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

John Mowinckel, adido cultural americano na ditadura, era uma figura em Ipanema

Os guerrilheiros cogitaram sequestrá-lo, mas mudaram de ideia; não seriam levados a sério

Não perco os obituários do The New York Times. Seus mortos, famosos ou não, são sempre fascinantes —ou talvez os obituaristas os tornem assim. Esta semana, morreu aos 105 anos, em Roma, Letizia Mowinckel, viúva de um diplomata americano, amiga dos costureiros europeus e consultora informal de moda da chique Jacqueline Kennedy, primeira-dama dos EUA com John Kennedy (1961-63) presidente.

Poesia | Manuel Bandeira - Última canção do beco

 

Música | La voglia la pazzia / Samba per Vinicius / Samba della rosa / Tristezza