Por Rayane Moura / G1
Segundo
a Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), o Brasil soma mais de 6,4 milhões
de acidentes e 27 mil mortes em dez anos. Em 2025, foram 806 mil casos e 3.644
óbitos — o maior número da série.
O
Brasil registrou recorde de acidentes e mortes no trabalho em 2025, com 806 mil
casos e 3.644 óbitos. Em dez anos, foram 6,4 milhões de ocorrências e 27 mil
mortes.
Após
a pandemia, os dados mostram que o aumento do emprego formal não foi
acompanhado por melhorias na segurança.
Saúde
lidera acidentes; transporte rodoviário concentra mortes, com destaque para
motoristas de caminhão.
Sul
e Sudeste concentram casos, mas Norte e Nordeste têm maior letalidade,
indicando acidentes mais graves.
O Brasil registrou, em 2025, o maior número de acidentes e mortes no trabalho. Foram 806.011 acidentes e 3.644 óbitos no ano, segundo estudo da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT), vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Entre
2016 e 2025, o país acumulou 6,4 milhões de acidentes e 27.486 mortes,
além de mais de 106 milhões de dias de trabalho perdidos por afastamentos
temporários e cerca de 249 milhões de dias debitados, indicador que mede o
impacto permanente de lesões graves e óbitos na vida dos trabalhadores.
O
levantamento foi elaborado com base nas Comunicações de Acidentes de Trabalho
(CAT) registradas no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e no eSocial,
que reúnem dados oficiais sobre acidentes e doenças relacionadas ao trabalho no
país.
A
base considera apenas trabalhadores com vínculo formal, ou seja, com carteira
assinada.
Após
a queda observada em 2020, em meio à retração econômica provocada pela pandemia
de Covid-19, os acidentes voltaram a crescer de forma contínua. Entre 2020
e 2025, houve aumento de 65,8% nos registros de acidentes e de 60,8% nas
mortes. (veja comparativo abaixo)
Embora
a taxa de incidência – que relaciona o número de acidentes ao total de
trabalhadores formais – tenha recuado ao longo da década, o avanço no número
absoluto de casos indica que a expansão do emprego formal não foi acompanhada
por melhorias equivalentes nas condições de segurança.
Para
o auditor-fiscal do trabalho e diretor de Segurança e Saúde no Trabalho da SIT,
Alexandre Scarpelli, os dados reforçam a urgência de ampliar a proteção aos
trabalhadores.
“Os
números evidenciam que ainda há um longo caminho a percorrer. É fundamental
fortalecer a cultura de prevenção, aprimorar as condições de trabalho e ampliar
a atuação integrada entre governo, empregadores e trabalhadores para reduzir
acidentes e salvar vidas”, afirmou.
Em
números absolutos, São Paulo concentra o maior volume de acidentes e
mortes, reflexo do tamanho da economia. Ao todo, em 10 anos, são 2.219.859
acidentes (34,4% do total nacional) e 6.517 óbitos (23,7%).
Os
estados do Sul e Sudeste — São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná,
Santa Catarina e Rio de Janeiro — concentram 68% dos acidentes e 62% das
mortes, padrão associado ao peso industrial e do setor de serviços formais
nessas regiões.
Por
outro lado, estados como Tocantins, Mato Grosso e Maranhão apresentam as
maiores taxas de letalidade, indicando maior gravidade dos acidentes.
Mato
Grosso se destaca como um caso de “duplo alerta”, ao combinar alta incidência e
elevada mortalidade. O estado está entre os três primeiros tanto na taxa de
acidentes quanto na de letalidade, reunindo o maior risco ocupacional do país.
Com
1.257 óbitos e taxa de letalidade de 9,24, cerca de 1 em cada 100 acidentes
resulta em morte — o dobro da média nacional. O perfil econômico, fortemente
baseado no agronegócio, no transporte de cargas e na construção de infraestrutura,
ajuda a explicar o risco elevado.
Já
nas regiões Norte e Nordeste, há o que o estudo chama de “letalidade oculta”:
apesar do menor volume de acidentes, estados como Tocantins, Maranhão, Pará,
Rondônia e Piauí registram algumas das maiores taxas de mortes, indicando
que os acidentes nessas regiões tendem a ser mais graves.
Saúde
lidera acidentes; transporte concentra mortes
A
análise por atividade econômica revela um retrato desigual dos riscos
ocupacionais no país. O setor de saúde, especialmente o atendimento hospitalar,
lidera em número absoluto com mais de 500 mil acidentes, reflexo da alta
concentração de trabalhadores e da sobrecarga das equipes, sobretudo no período
pós-pandemia.
Já
o transporte rodoviário de carga aparece como o segmento mais letal do Brasil.
Entre 2016 e 2025, o setor acumulou 2.601 mortes, com taxas de letalidade muito
superiores à média nacional.
Quando
o recorte é feito por ocupação, o quadro se torna ainda mais grave: enquanto
os técnicos de enfermagem são os trabalhadores que mais sofrem acidentes,
os motoristas de caminhão lideram as mortes, com 4.249 óbitos em 10 anos
— mais de uma morte por dia, em média.
A
construção civil também figura entre os setores mais perigosos, combinando alto
número de acidentes com elevada mortalidade, especialmente em atividades como
obras de edifícios, terraplenagem e montagem industrial.
Nesse
último caso, o risco é extremo: em obras de montagem industrial, a taxa de
incidência chega a 80 mil acidentes por 100 mil trabalhadores, indicando
exposição contínua ao perigo.
Mudança
no perfil dos acidentes
O
estudo também aponta transformações importantes no perfil dos acidentes de
trabalho. Os acidentes típicos, ocorridos durante a execução da atividade
profissional, representam cerca de 65% do total, mas os acidentes de trajeto
ganharam peso ao longo dos anos.
As
doenças ocupacionais tiveram um pico atípico em 2020, impulsionadas pelos casos
de Covid-19 reconhecidos como relacionados ao trabalho, especialmente entre
profissionais da saúde.
Outro
destaque é o crescimento da participação feminina. As mulheres passaram a
representar 34,2% dos acidentes registrados, com aumento de 48% ao longo da
década, especialmente em setores como saúde, serviços e administração pública.
Para
o Ministério do Trabalho, os números reforçam a necessidade de fortalecer a
cultura de prevenção no país. “Os dados mostram que ainda há um longo caminho
até garantir ambientes de trabalho seguros. É fundamental aprimorar as
condições laborais e ampliar a atuação integrada entre governo, empresas e
trabalhadores para reduzir acidentes e salvar vidas”, conclui o estudo.
Apesar
da recuperação econômica e da formalização do emprego, o cenário indica
que o crescimento sem investimento em segurança cobra um preço elevado: milhares
de vidas interrompidas e milhões de trabalhadores afastados todos os anos.

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