O Globo
São 23 pastas, com
3 mil folhas de documentos, contando parte da carreira do 'Doutor Bruno' na
casa e em Petrópolis, onde funcionava um aparelho clandestino do CIE
Três repórteres do
ICL Notícias (Juliana Dal Piva, Chico Otavio e Igor Mello) desvendaram um dos
mistérios dos “anos de chumbo”: a conexão do aparelho repressivo da ditadura
com os serviços de informação da Inglaterra. Conheciam-se algumas pistas, mas a
trinca expôs o monstro nos seus detalhes, na série da reportagens “Bandidos de
Farda”.
Eles trabalharam
em cima do arquivo deixado pelo coronel Cyro Etchegoyen, um dos cabeças do
Centro de Informação do Exército, o CIE, de 1971 a 1974. São 23 pastas, com 3
mil folhas de documentos, contando parte da carreira do “Doutor Bruno” na casa
e em Petrópolis, onde funcionava um aparelho clandestino do CIE. A chamada
“Casa da Morte” era uma fábrica de “cachorros”, nome dado aos militantes de
organizações de esquerda que eram presos, soltos e infiltrados na militância.
Quem aceitava o novo papel vivia. Os demais morriam. Estima-se que lá tenham
sido assassinadas 22 pessoas. Só Inês Etienne Romeu (1942-2015) contou o que
viu.
Conheciam-se colaborações dos serviços americanos e franceses. Dos ingleses só se tinham pistas esparsas.
Num longo
documento o Serviço de Informação Britânico (BIS) e o Serviço de Segurança
Interna (MI-5) ensinam técnicas de interrogatório usadas pelos serviços. Em
várias passagens ele condena a tortura, até por contraproducente.
Pelo menos quatro
militares foram à Inglaterra: os tenentes coronéis Cyro Etchegoyen e Milton
Masselli Duarte, do CIE, e Milton Machado Martins e Moacyr Coelho, do SNI.
Coelho veio a ser diretor da Polícia Federal.
Eles seriam os
autores da apostila intitulada “Estágio de Informações na Inglaterra -
Relatório”. Foram dois estágios, de 14 a 19 de dezembro de 1970 e de 22 a 26 de
fevereiro de 1971. Os militares visitaram o Serviço de Informação Britânico e o
Serviço de Segurança Interna.
As
normas do campo:
A apostila ensina:
“A localização do
centro deve ser um segredo de Estado (...). Só a chefia do BIS e do MI-5, os
interrogadores e os guardas conhecem sua localização”.
(...) “Ao chegar
ao campo devem ser obedecidas as seguintes normas:
O prisioneiro deve
ficar completamente isolado. (...) Nenhum guarda pode falar-lhe: todas as
ordens são transmitidas por gestos bruscos e secos.
O prisioneiro não
come, não bebe e não fuma enquanto está sendo interrogado, cabe ao interrogador
autorizar o início de sua alimentação”.
A apostila fala de
um interrogatório que durou 58 horas.
“(Entre 20 de
abril e 23 de maio uma militante da VPR foi interrogada 25 vezes por cerca de
41 horas.)”
“Nada lhe é
informado, a respeito de nada a de ninguém.”
Dezembro
de 1970: o terrorismo em refluxo
Um ano depois do
assassinato de Carlos Marighella, as organizações terroristas estavam em
retirada. De 1968 até o início de 1970 já haviam sido assaltados cerca de 300
bancos e carros fortes. A partir de maio começaram a assaltar também
supermercados, revendedoras de cigarros e postos de gasolina.
Em dezembro, a
Vanguarda Popular Revolucionária sequestrou o embaixador suíço e o governo
aplicou-lhe um golpe mortal, recusando-se a libertar 13 de 70 presos. Foi o
último sequestro.
Nesses dias a
turma do CIE e do SNI foi para Londres.
As
celas inglesas
A apostila fala
das celas inglesas:
“As celas devem
ter as seguintes características:
Pequenas, 1,5m por
2m com paredes pretas. (...) Uma janela de ventilação pequena, bem alta de forma
a impedir qualquer visão para o exterior, mesmo do céu.
Deve ter um vaso
sanitário e uma maca dura, nada mais”.
“A sala dos
interrogatórios deve ter as seguintes características:
Um sistema de
refletores com luzes fortes. (...) Uma mesa e duas ou três cadeiras para os
interrogadores.
(...) O WC serve
somente aos interrogadores e à guarda”.
“(...) Todos os
deslocamentos dos prisioneiros (para o campo ou seu interior) devem obedecer às
seguintes normas:
Algemado (mãos
para trás), olhos vendados (capuz, o melhor processo).
Andar em círculos
(de forma a perder a noção de tempo, distância e orientação).
(...) Nada lhe é
informado, a respeito de nada e de ninguém. (...) Ao ser conduzido para o
interrogatório (...) são acesos os refletores dirigidos ao rosto do preso, é
retirado o capuz (...) e ele permanece de pé, algemado.
(...) Não se deve
tocar no prisioneiro (violência física).”
“Em princípio, o
preso não dorme ou lhe é permitido cochilar. (...) Em cada cela deve-se
instalar um sistema de microfones (dois no mínimo.)”
“(...) Perda da
noção de tempo (horas, dia ou noite, tudo escuro).
(...) A falta
absoluta de todos os confortos na prisão e a alimentação controlada (o mínimo
necessário para não ficar doente, muito simples e com paladar desagradável.
(...) A monotonia
do ambiente, (...) cela fria, lisa, desconfortável.”
Beto,
a primeira vítima
Os estagiários do
SNI e do CIE não registram que os ingleses lhes tenham ensinado a matar.
O embaixador suíço
foi libertado no dia 13 de janeiro de 1971 e o tenente-coronel Moacyr Coelho
seguiu para Londres no dia 15, voltando a 19. Na noite do dia 21, numa operação
coordenada pelo CIE e pelo DOI do 1º Exército, foi assassinado o ex-deputado
Rubens Paiva.
No dia 15 de
fevereiro desapareceu Carlos Alberto Soares de Freitas. Ele teria sido o
primeiro preso a ser assassinado, em abril, na Casa da Morte de Petrópolis.
Colega da
militância de Dilma Rousseff, presa em 1970, Beto escreveu no cativeiro um
longo relatório contando seus tempos de Polop, VPR e VAR Palmares. Narrou
reuniões e sua viagem a Cuba. Numa leitura rápida, com muitos nomes tem-se a
impressão de que ele foi “quebrado”. Uma leitura mais atenta sugere que os
interrogadores não gostaram do que leram e mataram-no com um tiro na cabeça.
Outros 21 teriam o mesmo destino.
Zema
e os inconfidentes
O ex-governador de
Minas Gerais Romeu Zema fez as pazes com a Inconfidência Mineira. Açoitando os
“intocáveis” do Supremo Tribunal Federal, valeu-se do aniversário da execução
de Tiradentes e disparou:
“Brasília explora
o Brasil como os portugueses fizeram. (...) A luta dos inconfidentes não
acabou.”
Num evento
semelhante, em 2023, Zema via a Conjuração com outros olhos:
“Temendo as
consequências do golpe à Coroa Portuguesa, os inconfidentes não confessaram
seus crimes. O único a fazê-lo foi Joaquim José da Silva Xavier, que se tornou
o Mártir Tiradentes, ao receber a pena mais dura, em 21 de abril de 1792.”
Tudo errado. Os
inconfidentes contaram o que planejavam, a começar pelo advogado Cláudio Manuel
da Costa, patrono dos brasileiros que se “suicidam” na prisão. As confissões e
denúncias passam de uma dezena. Zema tomou o partido da Coroa portuguesa.
Felizmente, mudou de lado.

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