O Globo
Deputada desloca a discussão de projeto que
defende, longe de consensual, para o plano das virtudes universais
Poucas falácias têm prosperado tanto no
Brasil quanto invocar um princípio universal para legitimar uma causa de
interesse particular. A deputada Erika Hilton, do PSOL, recorre ao expediente
quando diz que os críticos de versões do Projeto de Lei (PL) que criminaliza a
misoginia tentam tirar “o direito das pessoas à informação” e “manipular o
debate contra a luta das mulheres por um país menos violento”.
Ao deslocar a discussão de um projeto que ela defende, longe de consensual, para o plano das virtudes universais (não se tem notícia de que alguém seja contra um país menos violento, contra o direito à informação e a favor do feminicídio), ela rebaixa críticos da proposta à categoria de inimigos da civilidade. Mas não só.
Há duas semanas, Erika acionou a Advocacia-Geral
da União para pedir a censura de dez usuários do X acusados de espalhar
informações falsas sobre o PL antimisoginia. No pacote de denunciados, vieram —
juntos e misturados — humorista, influencers e jornalistas; internautas que
postaram textos de fato enganosos sobre o PL aprovado no Senado e outros que,
sem intenção de ludibriar o público, divulgaram e criticaram outra versão do
projeto, naquele momento em circulação. No segundo caso se encaixa a jornalista
Madeleine Lacsko, que, a pedido da deputada, chegou a ser incluída numa lista
(de que depois foi retirada) de integrantes de uma “rede de desinformação”.
Coincidentemente, a jornalista havia feito seguidas críticas à hoje presidente
da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara pelo que chamou de
perseguição judicial da parlamentar a feministas.
Erika já moveu ações contra ao menos duas
mulheres que discordaram publicamente da formulação de que “uma mulher trans é
uma mulher”. Argumentou que as acusadas, com suas opiniões, disseminaram
“discursos de ódio” e “incitaram a discriminação de gênero”. O uso do termo
“mulher”, como sabe a deputada, é objeto de intenso e legítimo debate nos meios
feministas. Adeptas da ideia de que “mulher” é uma categoria definida pelo sexo
biológico feminino, e não pela identidade de gênero — razão por que mulheres
trans deveriam ser excluídas da definição — não são contrárias à vida de
pessoas trans, como ela sugeriu. Apenas não concordam com ela — e isso Erika
parece ter dificuldade de aceitar.
Em março, ela entrou com outro pedido de ação
criminal baseado em acusação de transfobia, desta vez contra Carlos Massa, o
Ratinho. Diante das falas do apresentador do SBT — de que ela “não é mulher,
ela é trans”, e de que “mulher para ser mulher tem que menstruar”, “tem que ter
útero” —, Erika foi mais longe no uso da retórica. Chegou a dizer que seus
pedidos de R$ 10 milhões de indenização ao SBT e de retirada de Ratinho do ar
por 30 dias não eram revanche dela, mas também das “mulheres cis que não
menstruam mais” e das que, por motivos médicos, tiveram de remover o útero. Ganha
um lugar no auditório do Ratinho quem encontrar uma mulher na pós-menopausa ou
histerectomizada que tenha achado que as palavras do apresentador se dirigiam a
ela.
Erika tem todo o direito de gritar e brigar
na Justiça na defesa de suas convicções e de seus interesses. Mas faria melhor
se, para isso, dispensasse o verniz da virtude e chamasse as coisas pelo nome.
Censura nas redes não tem a ver com o “direito das pessoas à informação”,
tampouco a perseguição a quem diverge da sua opinião sobre o uso do termo
“mulher” guarda relação com a “proteção da vida de pessoas trans”. Arroubos
autoritários não se tornam mais aceitáveis quando derivam de boas causas, menos
ainda quando essas causas nem são tão boas assim quanto querem parecer.

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