Folha de S. Paulo
Eleitor moderado repensará
seu apoio a candidatos semelhantes em seus países
Há boas notícias para
candidatos, partidos e movimentos da direita radical, a começar pelo fato de
que Donald
Trump voltou a governar os Estados
Unidos. Além disso, a extrema direita segue crescendo eleitoralmente nas
grandes democracias das Américas e da Europa. Le Pen,
por exemplo, aparece liderando as pesquisas de intenção de voto na França para
2027, enquanto no Chile —que
recentemente viveu uma primavera progressista— multiplicam-se agora as
candidaturas de extrema direita, inclusive em disputa interna sobre quem é mais
radical.
No caso brasileiro, as pesquisas indicam que os que votaram na extrema direita continuam, em grande medida, prontos para repetir esse voto. E todas as esperanças de desradicalização, assim como as promessas de reconciliação nacional, já não existem ou não dão qualquer indício de que possam ser cumpridas. Isso quer dizer, no mínimo, que a ascensão da extrema direita ainda não atingiu seu teto e que há espaço para expansão.
Mas há também uma má notícia
para a direita mais radical: Trump, sua principal vitrine, governa os Estados
Unidos de uma maneira que desaconselha qualquer um, exceto os fanáticos, a
querer ser governado assim.
Trump se elegeu com uma
retórica de reação à cultura progressista. Acusações de desrespeito às
liberdades de expressão e pensamento e denúncias de tentativas de doutrinação e
imposição de valores progressistas à sociedade conservadora foram parte do arsenal
ideológico usado nos últimos anos. O que se sabe hoje, a partir dos primeiros
meses de governo, é que ele não está enfrentando nem desmantelando o que
chamava de obra da ortodoxia progressista, principalmente na forma da política
identitária. Faz exatamente o que acusava os outros de fazer, invertendo os
sinais.
Faz tempo que passou do
ponto: seu governo é autoritário, personalista, revanchista e agora disposto a
calar, punir e demolir qualquer dissidência. E não há sinal de que escrúpulos
de consciência, decisões judiciais ou respeito à Constituição possam se constituir
em obstáculos.
A tentativa de fechar o
Departamento de Educação revela uma cruzada ideológica contra o sistema
educacional federal. A perseguição a universidades como Columbia, que teve US$
400 milhões de verbas federais congeladas por abrigar protestos pró-palestinos,
mostra como o governo busca silenciar a dissidência usando o financiamento como
arma política. Manifestantes foram presos e lideranças estudantis começaram a
ser deportadas sem julgamento, como no caso do estudante Khalil Mahmoud. Ao
mesmo tempo, o governo pressiona para que centros acadêmicos retirem
departamentos inteiros simplesmente por não se alinharem ideologicamente.
Medidas que afetam
diretamente acadêmicos e pesquisadores usam critérios absurdos: barram-se
pesquisadores por terem criticado o presidente em redes sociais; investigam ou
expulsam outros por posições críticas ao governo de Israel ou
pró-Palestina.
Projetos de pesquisa em áreas como saúde perdem financiamento porque incluem
palavras-chave ou hipóteses com termos como "gênero" ou
"feminismo". A situação chegou ao limite que a revista The Economist
descreve como "uma administração que busca extinguir o iliberalismo
esquerdista nos campi com seu próprio iliberalismo conservador".
Mesmo no campo jurídico,
avançou o sinal. Trump assinou ordens executivas para proibir contratos com
escritórios de advocacia que litigam contra seu governo e ignorou decisões
judiciais que bloquearam essas medidas, emitindo novas ordens com o mesmo teor
dois dias depois. Quando um juiz federal ordenou a suspensão de deportações com
base em lei de 1798, Trump não apenas ignorou a ordem como pediu o impeachment
do magistrado, sendo repreendido publicamente pelo presidente da Suprema Corte,
John Roberts.
O governo Trump quer moldar
a educação, a imprensa, a burocracia, o sistema judicial e a sociedade civil à
sua imagem. Não se trata de corrigir o excesso de poder dos progressistas ou
enfrentar o ímpeto censório do dogmatismo woke, mas de substituí-los por
conservadores radicais com a mesma lógica de aparelhamento, censura e
intimidação.
Com a extrema polarização
eleitoral na maioria dos países hoje, as eleições são decididas pelos eleitores
moderados ou de centro, que ocasionalmente pendem para um lado ou para o outro.
Esse eleitor quer mais pluralismo, menos controle ideológico e mais liberdade
para discordar. Quanto mais Trump governar como autocrata, mais o eleitor de
centro e o conservador moderado vão repensar seu apoio a candidatos semelhantes
em seus países.
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