PEC da Segurança trará avanços contra o crime
Por O Globo
Texto aprovado na Câmara representa resultado
de concessões intrínsecas a qualquer negociação política
Superando impasses que pareciam incontornáveis, a Câmara enfim aprovou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, enviada há quase um ano ao Congresso. O texto aumenta a participação do governo federal no combate à violência, amplia o financiamento ao setor, promove maior integração entre os entes federativos, restringe benefícios a presos acusados por crimes graves, dá segurança jurídica para a Polícia Federal (PF) combater organizações criminosas, aumenta atribuições da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e autoriza a criação de polícias municipais de natureza civil para policiamento ostensivo e comunitário. Não há dúvida de que a PEC representa um avanço em relação às lacunas atuais.
A costura pelo consenso foi árdua. A proposta
de redução da maioridade penal, ponto central do substitutivo do deputado
Mendonça Filho (União-PE), foi retirada do texto depois de negociações. Da
mesma forma, a intenção do governo federal de coordenar as ações de segurança
ficou de fora. O texto estabelece que o Sistema Único de Segurança Pública será
descentralizado. O temor de interferência de Brasília nas políticas dos estados
sempre foi empecilho ao acordo. A PEC não avançaria se os extremos não
cedessem.
O texto preservou avanços indiscutíveis. O
maior deles é atribuir responsabilidades ao governo federal. A omissão
vergonhosa ao longo de décadas é um dos motivos para a crise de segurança. O
país está tomado por facções e milícias que sequestram espaços públicos e
subjugam a população, enquanto o Planalto assiste a tudo como se nada tivesse a
ver com isso. É verdade que a segurança é tarefa constitucional dos estados,
mas, sozinhos, eles são incapazes de enfrentar organizações criminosas
transnacionais que controlam rotas do narcotráfico e incendeiam o país. O
trabalho conjunto entre governo federal e estados é fundamental.
É positiva também a decisão de ampliar o
financiamento para o setor. A segurança receberá uma fatia maior do total
arrecadado com as empresas de apostas. Até 2028, os 13,6% destinados ao Fundo
Nacional de Segurança Pública (FNSP) e ao Fundo Penitenciário Nacional (Funpen)
subirão gradativamente para 30%. Com a mudança, é possível que a seguridade
social e os ministérios do Esporte e do Turismo recebam menos.
Pelo texto aprovado, a PRF ganhará novas atribuições.
Além de patrulhar as estradas, passará a vigiar também hidrovias e ferrovias.
Ficou estabelecido que o governo federal poderá autorizar o emprego da
corporação na proteção de bens, serviços ou instalações federais. A PRF também
poderá prestar auxílio aos estados mediante solicitação dos governadores.
Espera-se que o Senado mantenha a espinha
dorsal da PEC. Ela é essencial para o país. A segurança está no topo das
preocupações dos brasileiros, e o Legislativo precisa dar resposta a essa
angústia. Na semana passada, foi aprovada no Congresso a Lei Antifacção, que
aumenta penas para integrantes de organizações criminosas. Mas apenas endurecer
a legislação não basta. A PEC traz uma resposta mais abrangente, pois incentiva
a integração entre todas as forças e aumenta os recursos para o setor. Com os
dois projetos, governo federal e estados passarão a dispor de instrumentos mais
eficazes para combater os grupos criminosos. Mas a batalha não se encerra aí. É
apenas um bom começo.
Crescimento das favelas reflete erros do
Minha Casa, Minha Vida
Por O Globo
Programa repete equívocos do antigo BNH ao
voltar o foco para a classe média, com objetivo eleitoral
A julgar pelas declarações do governo, 2025
foi um ano histórico na política habitacional. O Minha Casa, Minha Vida (MCMV)
despontou como programa social preferido dos brasileiros em pesquisas de
opinião, e o ritmo de entrega de moradias aumentou. Será sem dúvida um dos
temas mais explorados na campanha eleitoral. Mas a contradição na propaganda
oficial fica evidente analisando os últimos dados do projeto MapBiomas. As
favelas no Brasil não apenas continuam em expansão, mas crescem mais rápido que
a ocupação formal.
Entre 1985 e 2024, o território das favelas
quase triplicou — de 53,7 mil hectares para 146 mil hectares. Em tempos de
aquecimento global e eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, as
áreas ocupadas com alta declividade cresceram 150% e as próximas a drenagens
200%. Como pode o MCMV, um dos maiores programas habitacionais do mundo, com
orçamento anual de quase R$ 180 bilhões, não ser eficaz para deter a
favelização?
A resposta tem a ver com objetivos políticos
e interesses do setor de construção. Ao não se concentrar em quem está na base
da pirâmide social, o MCMV reproduz o erro do Banco Nacional de Habitação
(BNH), programa habitacional criado na ditadura militar. Em 22 anos, o BNH
financiou 4,5 milhões de unidades habitacionais, apenas 33,5% destinadas a
setores populares. Na primeira década do MCMV, a faixa de renda mais baixa
recebeu apenas 36,8% das moradias.
A explicação para esse desvio é eleitoral. A
meta do governo é agradar à classe média. Um dia antes da publicação da
pesquisa do MapBiomas, foi apresentada uma proposta para reajustar as faixas de
renda do MCMV, de modo a financiar famílias com rendimento de até R$ 13 mil
(que as coloca na fatia dos 10% com maior renda no país). Se as mudanças forem
confirmadas, o governo terá um trunfo em ano eleitoral, e o setor de
construção, dependente do MCMV, mais clientes.
Embora haja famílias com diferentes níveis
salariais em busca de ajuda para comprar a casa própria, é um desatino deixar
de priorizar quem mais precisa. Moradores de favelas correm mais riscos de
contrair doenças por falta de saneamento e estão mais suscetíveis a
deslizamentos e enchentes. Da população com condições precárias de habitação em
2023, 75,7% tinham renda até dois salários mínimos, segundo a última estimativa
da Fundação João Pinheiro. Esses deveriam ser a prioridade. Para atendê-los, em
vez de financiar a construção de novas moradias em regiões distantes, seria
melhor revitalizar áreas degradadas nas regiões centrais, como já começa a
acontecer em algumas cidades, caso do Rio de Janeiro.
A ênfase nas faixas de renda menores criaria desafios de gestão. Mas a meta de um programa habitacional deve ser ajudar quem está em situação de moradia mais precária. O compromisso deveria ser reduzir a parcela da população vivendo em favelas. Em 2010, eram 6% dos brasileiros. No último Censo, já somavam 8%. Sem mudança de rumo nas políticas habitacionais, a tendência é a situação piorar.
Riscos econômicos da guerra
Por Folha de S. Paulo
Alta dos preços de petróleo e gás, se for
persistente, dificultará queda de juros no mundo e no Brasil
Petrobras se beneficia com o encarecimento global da energia, mas pode ser obrigada a repassá-lo, reacendendo pressões inflacionárias
O impacto econômico mais imediato da guerra no
Oriente Médio—desencadeada pelos ataques de Estados
Unidos e Israel ao Irã— se dá nos
preços de petróleo e
gás. As exportações a partir do Golfo Pérsico são essenciais para a atividade
global, afetando a produção industrial e o custo de vida em todos os
continentes.
À diferença das tensões do ano passado,
quando o regime iraniano preservava certa margem de manobra, o ataque atual
traz risco existencial a Teerã —que reage com a premissa de sobrevivência e
busca alastrar o conflito, atacando países vizinhos exportadores de energia e ameaçando
fechar o Estreito de Ormuz.
Por ali passam quase 20% do petróleo
consumido no mundo e parcela significativa do gás natural liquefeito (GNL),
especialmente do Qatar.
O tráfego marítimo já caiu cerca de 90%, e seguradoras cancelaram coberturas de
risco de guerra.
A produção no Oriente Médio já sofre com
fechamento de refinarias e a decretação de força maior pelo Qatar para
suspender parte da produção e dos embarques. Assim, o petróleo do tipo Brent
saltou de patamares próximos a US$ 70 para acima de
US$ 80 por barril em poucos dias.
Até o final de fevereiro, a economia mundial
tinha perspectivas favoráveis, com expansão mais robusta nos Estados Unidos,
recuperação na Europa e desempenho sólido em emergentes. A inflação cedia
e os bancos centrais em geral indicavam cortes de juros,
enquanto os investimentos em inteligência artificial prometem ganhos de
produtividade.
A alta dos preços de petróleo e gás natural é
capaz de alterar esse quadro. Segundo estimativas, cada US$ 10 adicionais no
barril podem adicionar até 0,3 ponto percentual à inflação global.
É fato que, diante de um choque de oferta, os
bancos centrais não sobem juros automaticamente enquanto as expectativas de
inflação permanecerem ancoradas. Entretanto o cenário para a política monetária
ficou mais difícil: a combinação de preços elevados com incerteza geopolítica
tende a forçar ao menos um adiamento nos cortes das taxas.
O risco de recessão global ainda não está no
centro das preocupações, mas tudo dependerá da duração do conflito e do impacto
nas cotações. Altas adicionais, levando o Brent a US$ 100 ou mais, freariam
consumo e investimento, especialmente em economias sensíveis à energia.
No Brasil, o quadro é ambíguo. O país é
exportador líquido de petróleo e, em tese, beneficia-se do aumento de preços.
Há desafios domésticos inescapáveis, porém: se o novo patamar for persistente,
a Petrobras terá de repassá-lo ao mercado interno, reacendendo pressões
inflacionárias.
Nesse cenário, o Banco Central encontrará
maior dificuldade para cortar a Selic na
intensidade esperada. O governo também poderá ser tentado a mais medidas de
estímulo, com impacto na inflação e nas já depauperadas contas públicas.
PEC da Segurança fica melhor sem tratar de
maioridade
Por Folha de S. Paulo
Proposta aprovada pela Câmara tem foco em
ajustes institucionais, a serem testados na prática
Maior punição a menores, com evidência
escassa, deve ser debatida à parte; destinar arrecadação das bets ao setor
engessa Orçamento
A aprovação pela Câmara dos
Deputados da proposta de
emenda constitucional para a segurança pública apresentada pelo
governo, na quarta-feira (4), teve como vantagem mais evidente a exclusão de
um dispositivo no texto: a previsão de um plebiscito a respeito da
redução da maioridade
penal.
Trata-se de uma velha bandeira da oposição de
direita, que parte do pressuposto de que punições mais duras para infratores
menores de idade ajudarão a reduzir a criminalidade. A proposta tem muito mais
apelo popular do que sustentação em dados; mais importante, guardava escassa
relação com o principal da PEC.
O projeto governista, que busca rebater
críticas à inação de Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
no setor, pretende incluir na Constituição o
Sistema Único de Segurança Pública (Susp) —um modelo de cooperação entre União,
estados e municípios comparável ao do SUS, na área
de saúde.
O Susp foi criado por lei em 2018, mas até
hoje não proporcionou resultados palpáveis. Os defensores da PEC argumentam que
a inclusão no texto constitucional facilitará a implementação do sistema, algo
a ser demonstrado pela experiência prática.
Outra inovação é a previsão de um regime
jurídico mais rigoroso para organizações criminosas de alta periculosidade, a
ser definido em lei, incluindo a possibilidade de restrição de benefícios
penais, medidas patrimoniais ampliadas e mecanismos de proteção a denunciantes
e vítimas.
Amplia-se também a capacidade de atuação
da Polícia Federal no
combate a organizações criminosas e milícias, especialmente em casos com
repercussão interestadual ou internacional.
Buscou-se ainda reforçar as verbas para a
segurança, que ficaria com 30% dos
recursos arrecadados das apostas esportivas online, entre outras
fontes.
Aqui se repete um cacoete da administração
pública brasileira: cada setor reivindica para si alguma parcela carimbada da
receita, e o resultado final é um Orçamento engessado no qual não se conseguem
rever prioridades nem corrigir desequilíbrios.
Não há dúvida de que a PEC aborda um tema que
figura, com razões de sobra, entre as principais preocupações da sociedade
brasileira. É duvidoso, porém, que seja capaz de superar as divergências
políticas entre o governo federal e os principais estados em torno da gestão
das polícias e do combate à violência.
Em todo caso, é melhor que o texto tenha foco em aperfeiçoamentos institucionais. Questões ruidosas como a maioridade penal devem ser debatidas à parte.
Lulinha, o problemão de Lula
Por O Estado de S Paulo
Da Gamecorp às suspeitas na investigação do
INSS, o filho do presidente Lula reaparece em histórias mal explicadas e revive
um problema político recorrente às vésperas de uma nova eleição
A política tem o curioso hábito de criar
personagens dos quais depois não consegue se livrar. Fábio Luís Lula da Silva,
o Lulinha, tornou-se um desses casos. Há quase duas décadas, o filho do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva reaparece no noticiário com incômoda
frequência, quase sempre nos momentos menos convenientes para o pai e o partido
que governam o País. Agora, às vésperas de mais uma disputa presidencial,
Lulinha – dono de uma magnífica história que o fez saltar de monitor do
Zoológico de São Paulo para empresário envolvido em negócios milionários –
volta ao centro de histórias mal explicadas. Lembra, assim, que certos
problemas políticos podem desaparecer por algum tempo, mas, quando são
problemas de fato, raramente desaparecem de vez. Viram assombração.
Desde o primeiro mandato de Lula, o nome de
Lulinha simboliza uma dificuldade recorrente do lulopetismo: convencer a
opinião pública de que relações entre poder político e negócios privados em
torno da família presidencial são apenas coincidências. Foi então que o
discreto biólogo deu um salto empresarial tão rápido quanto surpreendente, ao
tornar-se sócio de uma empresa financiada por uma gigante das telecomunicações.
Em circunstâncias normais, uma biografia empresarial assim despertaria
curiosidade, quando não espanto. No singular universo lulopetista, porém,
tentou-se apresentá-la como exemplo de meritório espírito empreendedor.
Foi assim que nasceu a Gamecorp, agraciada
com investimento milionário da Telemar, na época controladora da operadora Oi.
O caso reuniu cabeludos indícios de trambiques e jamais foi plenamente
explicado, mas parece claro que o sobrenome Lula revelou-se especialmente
valioso, capaz de gerar oportunidades que dificilmente surgiriam para qualquer
empreendedor comum. Na cosmologia de Brasília, todo acesso tem seu preço.
Ao longo dos anos seguintes, o roteiro
repetiu-se. O nome de Lulinha surgia em negócios variados e relações com
personagens que orbitavam o poder político e econômico. Nada disso resultou em
condenações judiciais. Tampouco veio acompanhado de explicações claras. Na
política, essa combinação costuma bastar para manter suspeitas persistentes.
E eis que surge o episódio das fraudes
bilionárias no INSS. A investigação menciona mensagens em que investigados
discutem pagamentos destinados ao “filho do rapaz”, expressão que a polícia
tenta confirmar se seria referência ao filho do presidente. Há também suspeitas
de relações empresariais entre Lulinha e personagens ligados ao esquema. A defesa
do empresário nega irregularidades, mas o fato político permanece: mais uma vez
o nome do filho do presidente aparece nas franjas de um escândalo.
O detalhe mais revelador envolve o convite
para uma viagem de negócios a Portugal, feito pelo lobista Antônio Carlos
Camilo Antunes, o “Careca do INSS”. Segundo reportagem do Estadão, os dois teriam
visitado instalações ligadas à produção de cannabis medicinal, ramo em que
Antunes pretendia investir. Pode parecer trivial, mas em política raramente é.
Passagens internacionais em primeira classe e agendas empresariais além-mar
dificilmente são oferecidas por simples gentileza. Em geral representam
investimento em acesso – no caso de Lulinha, acesso direto ao sobrenome mais
poderoso da República. Ou um mimo para retribuir façanhas.
Caberá à Justiça esclarecer as suspeitas.
Politicamente, porém, o problema já está posto. Lula construiu sua trajetória
afirmando representar o oposto das elites que confundem interesses privados e
funções públicas. A história mostrou que o discurso não passou de engodo. É por
isso que o chamado “fator Lulinha” seguirá como um problema político permanente
para o presidente. O enredo volta ao palco, e o personagem muda de papel – ora
empresário promissor, ora investigado circunstancial –, mas o roteiro segue o
mesmo.
Talvez seja injusto com o pai. Talvez seja
apenas o destino de políticos poderosos. Mas há algo que parece incontornável.
Lula sempre foi um assombro da política, para o bem e para o mal. E o fantasma
que insiste em persegui-lo atende pelo apelido de sempre: Lulinha.
Um debate que não é sério
Por O Estado de S. Paulo
Reduzir a jornada de trabalho por lei deveria
ser a última das prioridades na longa lista de distorções que afetam a
economia, mas é assim que a banda toca nas administrações lulopetistas
Ainda não se sabe se as discussões sobre a
redução da jornada de trabalho são realmente para valer ou se são apenas um
tema a pautar as eleições presidenciais. Na dúvida, o setor produtivo começou a
fazer as contas sobre quanto a mudança custará à sociedade, e já está claro que
as empresas não pretendem absorver esses gastos sem repassá-los ao consumidor
ou exigir compensações do governo, como mostram reportagens do Estadão.
Pudera. Se as empresas optarem por contratar
novos empregados para manter o número de horas trabalhadas, o custo será de R$
178,2 bilhões, de acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), um
aumento de 4,7% nos desembolsos com empregados formais dos setores de
agropecuária, indústria, comércio e serviços. Mas se a ideia for pagar horas
extras aos funcionários, o adicional será de R$ 267,2 bilhões, alta de 7%.
A depender do setor, o impacto pode ser ainda
maior. Segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo
(CNC), quase dois terços dos trabalhadores brasileiros cumprem uma escala de
6x1. No comércio, no entanto, essa é a jornada da ampla maioria dos empregados.
Nos segmentos varejista e atacadista, o regime é cumprido por 93% e 92% da
força de trabalho, e nos serviços, por mais de 90% da mão de obra.
Cautela costuma ser um atributo em falta no
mundo político, sobretudo em um ano eleitoral, que tende a privilegiar debates
apressados e soluções simplórias para problemas complexos. É uma pena, pois o
tema da redução da jornada de trabalho seria um bom gancho para o País
enfrentar vários de seus problemas crônicos, como a elevada informalidade, a
baixa qualificação da mão de obra, a reduzida competitividade dos produtos
brasileiros no exterior e o claudicante crescimento econômico.
Compreende-se a demanda dos trabalhadores por
mais tempo para lazer, mas há que questionar se os mesmos trabalhadores estão
dispostos a pagar mais caro pelos produtos que consomem. Países que reduzem a jornada
de trabalho sem impacto elevado na inflação o fazem quando há aumento de
produtividade.
No Brasil, no entanto, a produtividade está
praticamente estagnada há décadas, o que explica, também, por que o crescimento
econômico brasileiro tem sido tão baixo no mesmo período. O agronegócio é a
exceção que confirma a regra. Sua produtividade cresce consistentemente há
anos, reflexo de investimentos em tecnologia, o que permite que a safra cresça
mesmo sem expandir a área cultivada, dando competitividade à produção e
permitindo que ela seja exportada a diversos países no mundo.
Produzir mais com menos requer, também,
investimentos na qualificação dos trabalhadores e na educação das crianças.
Nisso o Brasil patina há anos. A despeito de manter gastos elevados em educação
na proporção do Produto Interno Bruto (PIB), o desembolso é desigual e
privilegia o ensino superior em detrimento da educação básica.
Para completar, os custos associados à folha
de pagamento são altos, razão pela qual a informalidade no País é tão elevada.
O desemprego está em níveis historicamente baixos, mas arranjos como a
pejotização e o microempreendedor individual prosperam mais que o emprego
formal.
É um problema para o trabalhador, mas
sobretudo para o Estado, que não arrecada o suficiente para sustentar a rede de
proteção social que se propõe a manter. Como gasta mais do que deveria, o País
precisa manter uma taxa de juros muito elevada, que inibe investimentos
necessários para ampliar a produtividade da economia.
Reduzir a jornada seria o último dos
problemas a ser resolvido nessa lista de distorções que afetam a atividade
econômica. Por certo há alguns setores com condições de fazê-lo, e o governo,
se tivesse juízo, deveria incentivar negociações coletivas em vez de tentar
impor o tema por lei.
Se o setor produtivo for esperto, usará esse
flanco aberto pelo próprio governo para arrancar subsídios e benefícios
tributários do Congresso. Não resolverá nenhum dos problemas da economia
brasileira, inclusive tende a agravá-los, mas é assim que a banda toca nas
administrações lulopetistas.
Os riscos da obesidade infantil
Por O Estado de S. Paulo
Brasil tem 17 milhões de crianças e jovens
acima do peso, um grave problema de saúde pública
O Atlas
Mundial da Obesidade de 2026 apresentou um cenário preocupante
da saúde de crianças e adolescentes. Segundo o relatório lançado pela Federação
Mundial de Obesidade, com dados do ano passado, uma em cada cinco crianças e
jovens, com idade entre 5 e 19 anos, vive com sobrepeso ou obesidade no mundo.
No Brasil, esse índice dobra: são dois em cada cinco. Ou seja, nada menos do
que quase 17 milhões de habitantes nessa faixa etária, ou cerca de 40% dessa
população, estão com sobrepeso ou obesidade.
Não se trata de uma questão pessoal ou de
estética, mas de um problema coletivo e de saúde. Por isso, a divulgação do
relatório no Dia Mundial da Obesidade, celebrado em 4 de março, busca
conscientizar as famílias, as sociedades e os Estados dos riscos do sobrepeso e
da obesidade. Fora do peso ideal, cada vez mais crianças e adolescentes são
diagnosticados com doenças de adultos, como hipertensão, doença cardiovascular,
colesterol alto, hiperglicemia (altas taxas de açúcar) e doença hepática
esteatótica (gordura no fígado).
Os números sobre o Brasil indicam a gravidade
local: são 6,6 milhões de crianças e 9,9 milhões de adolescentes acima do peso.
Eram meio milhão de crianças e jovens com hiperglicemia, o que pode levar a
diabetes, uma doença crônica; 1,4 milhão com hipertensão; 1,8 milhão com
triglicerídeos elevados; e 4 milhões com gordura no fígado. E, para piorar, a
expectativa é de que todas essas doenças avancem ainda mais até 2040.
Fatores sociais, econômicos e culturais
ajudam a explicar esse fenômeno. Num país de famílias de renda baixa e média,
as mães e os pais, por falta de dinheiro e de tempo, não conseguem comprar
alimentos saudáveis ou cozinham cada vez menos em casa. Fazem escolhas erradas,
pondo à mesa os ultraprocessados ou itens de baixo ou nenhum valor nutritivo.
Não à toa, segundo a Embrapa, o consumo do arroz e do feijão, que são ricos em
vitaminas, minerais e proteínas de origem vegetal, vem caindo no Brasil desde
os anos 1960.
Diante de tantos desafios impostos às
famílias, o poder público não tem o direito de ficar indiferente. As
prefeituras, os Estados e o governo federal devem combater o sobrepeso e a
obesidade infantojuvenil com seriedade, o que exige a elaboração e a
implementação de políticas públicas bem desenhadas, focadas e eficientes.
E sobram exemplos de ações a serem adotadas a
fim de mitigar esse problema. Os governos podem restringir a propaganda de
alimentos nocivos direcionada às crianças, investir na prevenção e nos cuidados
de crianças e adolescentes na atenção primária e estimular as atividades
físicas nas escolas, indo muito além das atividades lúdicas ou recreativas.
O Brasil não pode condenar uma geração a padecer de doenças evitáveis. O custo dessa negligência será alto para as famílias, que terão de cuidar de seus enfermos, e para o Estado, que verá aumentar a demanda pelos serviços no Sistema Único de Saúde (SUS).
Guerra prolongada pode levar a um choque de
oferta global
Por Valor Econômico
A interrupção do fluxo de transporte no
Estreito de Ormuz ameaça paralisar a produção de petróleo e gás natural por
esgotamento da capacidade de estocagem
Ao completar uma semana amanhã, e sem fim à
vista, a guerra de Israel e Estados Unidos contra o Irã paralisou o
abastecimento de petróleo e de mercadorias no Estreito de Ormuz, uma rota
importante também para o escoamento de alimentos, fertilizantes e uma vasta
gama de mercadorias para os países árabes e deles para o resto do mundo. O
preço do petróleo não disparou no início, mas as cotações estão em alta
permanente: ontem, o tipo Brent subiu mais 5% e chegou a US$ 85 o barril.
Analistas preveem que se a interrupção do fluxo ultrapassar duas semanas, o
barril atingirá US$ 100, ampliando efeitos adversos para a economia global.
Os preços da energia afetam custos diretos e
indiretos de toda a economia. A interrupção do fluxo de transporte no Estreito
de Ormuz, depois de afetar imediatamente a distribuição de óleo e gás natural
para o mercado mundial, ameaça paralisar agora a produção. Tanques para
armazenamento do óleo estão repletos no Iraque, que cessou a extração de
petróleo. A Arábia Saudita consegue escoar pelo menos 5 milhões de barris
diários por oleodutos no Mar Vermelho, mas parte da produção está sendo
estocada devido ao bloqueio, e sua capacidade de estocagem dura mais duas
semanas — depois disso, terá de cessar a produção.
Duas semanas de bloqueio da rota de Ormuz
impedirão o escoamento de 250 milhões de barris de óleo, volume cuja ausência
será capaz de elevar as cotações acima de US$ 100 (FT, ontem). A escassez
provoca outras reações que agravam o abastecimento global e contribuem para
ampliar a pressão sobre os preços.
A China, a terceira maior fornecedora de
diesel, gasolina e derivados de petróleo para a Ásia, interrompeu as
exportações desses produtos, para preservar a capacidade de abastecimento
doméstico, um exemplo que começa a ser seguido por Japão, Índia, Indonésia e
outros países. Apesar de ser um grande exportador de petróleo, o Brasil é um
grande comprador dos derivados, e uma alta aguda de suas cotações ampliará a
tal ponto a defasagem nos preços domésticos que a Petrobras pode
ser obrigada a reajustá-los, na hipótese de a guerra se prolongar por semanas.
A China tem motivos para se preocupar: grande
parte do petróleo que passa por Ormuz é a ela destinado, além de praticamente
toda a produção iraniana e de 30% do gás natural liquefeito, agora interrompido
pelo bombardeio de instalações no Catar, um dos três maiores fornecedores
mundiais.
O aumento da produção de 206 mil barris por
dia decretado pelo cartel do petróleo, a Opep, terá pouco impacto: além de
inferior às necessidades, boa parte sequer chegará ao mercado. O mercado
mundial estava bem abastecido com petróleo, cuja produção era maior que a
demanda, e os estoques eram confortáveis. Não é o caso do gás natural, do qual
Europa e Índia são grandes consumidores. Os europeus diversificaram suas fontes
após a Rússia interromper o fornecimento, mas, ainda assim são vulneráveis à
diminuição da oferta e à explosão dos preços, pois estão deixando o inverno com
estoques baixos. A energia fóssil tem um grande peso na inflação da zona do
euro, grande importadora de combustíveis.
A situação da oferta ameaça agravar-se no
caso dos fertilizantes, em que os países do Oriente Médio são grandes
produtores, e, de novo, o Estreito de Ormuz é caminho obrigatório das
exportações. Por ele passam, por exemplo, 35% das vendas de ureia, componente
da produção de fertilizantes nitrogenados — cujos preços dispararam — assim
como 20% da amônia, que serve para os mesmos fins. Também por lá transitam 45%
das exportações de enxofre, essencial na composição de fertilizantes
fosfatados. A fabricação de todos eles consome gás natural, cujos preços estão
em alta veloz. Um choque nos preços dos alimentos está em gestação.
Nada sai por Ormuz com a guerra, mas nada
entra, o que é um problema grave especialmente para o Irã, que recebe
praticamente 90% da importação de grãos (milho, soja, cevada etc.) por navios
via Golfo Pérsico. Dos 30 milhões de toneladas que chegam anualmente por ali,
14 milhões se destinam aos iranianos, e o restante é fatia significativa para o
abastecimento da Arábia Saudita, Emirados Árabes e outros países da região.
Os aeroportos da região estão parados, com
mais de 23 mil voos cancelados. Mas a oferta de voos pode logo ser reduzida por
outros motivos. O combustível para as grandes companhias aéreas está aumentando
rapidamente de preço, que chegou ao maior nível desde 2022. Enquanto o prêmio
sobre a cotação do barril de petróleo era de 20% a 25%, ontem era o dobro, ou
cerca de US$ 160. Além disso, 40% da oferta desses combustíveis, dos quais o
Kuwait é o maior fornecedor, também passa por Ormuz.
Além de sérios transtornos na oferta de várias cadeias de insumos, com impacto direto nos preços, o aumento do petróleo e do GNL atinge todos os demais bens e serviços, quer dependam ou não do escoamento por Ormuz. O prolongamento da guerra, plausível diante da ausência de negociação — EUA e Israel só aceitam a derrubada do regime dos aiatolás —, pode provocar um choque de oferta, com mais inflação e desaceleração da economia mundial.
A barbárie contra a mulher como epidemia
Por Correio Braziliense
Reconhecer o feminicídio como uma condição de
notificação em saúde é arrancar o crime do espaço privado e doméstico para
colocá-lo sob o escrutínio das políticas sanitaristas globais
A história da saúde pública ensina que o
primeiro passo para combater uma epidemia é, invariavelmente, reconhecê-la e
nomeá-la com precisão. Enquanto um mal permanece camuflado e diluído em
estatísticas genéricas, o Estado atua às cegas, incapaz de dimensionar a real
gravidade do problema e de formular políticas de prevenção adequadas. É
exatamente sob a ótica de romper essa perigosa cortina de invisibilidade que se
deve analisar o pleito formalizado pelo Ministério da Saúde junto à Organização
Mundial da Saúde (OMS). Ao solicitar a inclusão do feminicídio na 11ª revisão
da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), o Brasil transcende a mera
burocracia de consultórios e convoca o mundo a dar o nome correto a uma de
nossas mais lamentáveis violências.
Historicamente, a violência contra mulheres
tem sido tratada de forma compartimentada, restrita quase exclusivamente às
esferas policial e judiciária. Contudo, as marcas do machismo estrutural
manifestam-se muito antes do desfecho fatal, lotando emergências ortopédicas,
alas psiquiátricas e ambulatórios de atenção básica e deixando acesa a luz de
alerta que costuma ser ignorada pelas autoridades.
Ao camuflar o feminicídio sob o guarda-chuva
estatístico de "agressões" — equiparando a morte de uma mulher pelo
parceiro a um óbito decorrente de uma briga de trânsito, por exemplo —, o sistema
de saúde global sofre de uma cegueira metodológica que impede a formulação de
políticas públicas precisas.
A inclusão na CID-11, caso seja referendada
pelos Estados-membros na próxima assembleia-geral da entidade, altera essa
dinâmica na base. A mudança obriga o sistema global a reconhecer o ódio de
gênero como um determinante social da saúde. Na prática, impõe aos
profissionais médicos e sanitaristas uma responsabilidade rigorosa na
notificação dos casos, garantindo agilidade e transparência na compilação de
dados. Afinal, a premissa básica da gestão pública é incontornável: não é
possível combater de forma eficaz aquilo que não se consegue medir com
exatidão.
É necessário ressaltar, contudo, que a
alteração de um manual médico — por mais bem-intencionada e necessária que seja
— não detém, por si só, o braço do agressor. A vitória nos fóruns
internacionais de Genebra precisará ser acompanhada, no plano doméstico, pelo
fortalecimento das redes de acolhimento, pelo financiamento ininterrupto de
casas-abrigo e pela aplicação rigorosa da Lei Maria da Penha. De nada adiantará
o atestado de óbito trazer o código correto da CID se o Estado continuar
falhando na prevenção primária do crime.
Ainda assim, a iniciativa liderada pelo ministro Alexandre Padilha representa uma contribuição civilizatória do Brasil para o mundo. Reconhecer o feminicídio como uma condição de notificação em saúde é arrancar o crime do espaço privado e doméstico para colocá-lo sob o escrutínio das políticas sanitaristas globais. É a admissão definitiva de que a violência contra a mulher não é apenas um desvio de caráter ou um problema de segurança pública, mas uma patologia social crônica que, se não for tratada com o rigor de um vírus letal, continuará a ceifar vidas sob o manto da invisibilidade.
O avanço da PEC da Segurança Pública
Por O Povo (CE)
O País deu um passo importante no rumo da
adequação de sua política na área da segurança pública às exigências que uma
nova realidade tem imposto com a conclusão, no âmbito da Câmara dos Deputados,
da Proposta de Emenda à Constituição 18/25. O texto, definitamente aprovado na
Casa, segue agora para o Senado Federal, onde se espera que tenha igual
celeridade e receba do comando do presidente Davi Alcolumbre (UB-AP) o mesmo
tratamento de prioridade na pauta que lhe foi conferido por Hugo Motta
(Republicanos-PB).
Foi igualmente importante a disposição de
Motta de ceder aos apelos para que não fosse incluída na proposta, através de
emenda que tinha o endosso do relator, Mendonça Neto (UB-PE), uma sugestão de
realização de plebiscito para ouvir a população quanto à ideia de reduzir de 18
para 16 anos a maioridade penal no Brasil. Um tema controverso, que exige uma
discussão muito mais aprofundada e que não faria sentido entrar como uma
espécie de complemento dentro de uma ideia mais ampla de combate ao sério
problema que nos aflige, especialmente quanto à criminalidade organizada.
Acaba sendo interessante que o número de
votos pela aprovação da matéria tenha chegado aos 461 (na segunda votação) de
512 possíveis, considerando que o presidente não precisa votar. Um feito digno
de registro diante de um momento de polarização absoluta, no qual praticamente
inexiste tema capaz de unir os dois lados de uma briga política, e pelo poder,
que se manifesta quase todo o tempo. Eis que se criou uma quase unanimidade, o
que dá ideia da consciência que se cria entre nós de que o quadro exige o
mínimo de consenso para ser revertido.
De direita ou de esquerda, seja qual for a
ideologia abraçada, parece evidente que temos à frente uma situação que exige
mudanças e as mais profundas que for possível. A, chamada, PEC da Segurança
Pública, que não pode ser entendida como um passo mágico que transformará a
realidade do dia para noite, é, pelo menos, uma intenção de adequar a estrutura
de Estado às necessidades que foram criadas por uma realidade desafiadora, que
os números inaceitáveis da realidade de violência cotidiana expõe de maneira
dramática.
Era injustificável, para citar uma situação
que tende a mudar caso o Senado aprove e o presidente da República sancione,
que as instâncias federais fossem mantidas à distância, por força da lei, de
ações cotidianas de combate ao crime. O que está prometido pelo governo federal
é uma nova postura, a partir do que as mudanças legais permitirem, reforçando
as ações do Estado no enfrentamento de grupos criminosos cada vez mais ousados.
É o que cobraremos, certamente, caso o Congresso termine de cumprir seu papel
entregando ao Executivo um novo arcabouço legal na estrutura da segurança
pública brasileira.

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