Correio Braziliense
Protagonista do escândalo envolvendo o Banco
Master, o banqueiro Daniel Vorcaro e seus parceiros parecem personagens dos
filmes de Hollywood sobre a máfia em Wall Street
O filme O Lobo de Wall Street (2013) retrata um tipo de
celebridade destrutiva que fascina muita gente por viver no limite: dinheiro
fácil, prazer imediato, drogas e ausência completa de escrúpulos. Dirigido por
Martin Scorsese e com roteiro de Terence Winter, baseado no livro de Jordan
Belfort, o filme acompanha a ascensão e a queda de um corretor que enriquece
manipulando o mercado financeiro.
A história começa em 1987, quando Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) se torna corretor em Wall Street. Desde o início, o espectador percebe a atmosfera de cinismo e ganância que domina aquele ambiente. A primeira máscara cai quando Jordan almoça com seu chefe, Mark Hanna (Matthew McConaughey), que lhe apresenta as regras informais do jogo: dinheiro acima de tudo, sem qualquer preocupação moral. A partir daí, o aprendiz se transforma no mestre, mergulhando numa espiral de riqueza, excessos e ilegalidades.
Scorsese conduz com liberdade a trajetória de
um homem disposto a vencer a qualquer custo. Ética e moral aparecem apenas para
serem atropeladas pelo dinheiro e pelo poder. Uma das cenas mais marcantes
ocorre quando agentes do FBI visitam o iate de Jordan. Num diálogo tenso, o
corretor sugere discretamente o suborno do investigador. A corrupção paira no
ar sem precisar ser explicitada — como acontece tantas vezes na vida real.
O banqueiro Daniel Vorcaro, protagonista do
escândalo envolvendo o Banco Master, parece personagem digno de um roteiro
semelhante: uma espécie de "Lobo da Faria Lima". Em mensagens de
celular apreendidas pela Polícia Federal, ele próprio compara o sistema
financeiro a uma organização mafiosa. "Esse negócio de banco sempre falei:
é igual máfia", escreveu à namorada. "Não dá para sair. Ninguém sai
bem. Só sai mal."
A mensagem, datada de 7 de abril de 2025,
coincide com as tratativas para a venda do Banco Master ao Banco de Brasília
(BRB), operação que acabou frustrada pela posterior liquidação da instituição
pelo Banco Central. O negócio colocou o governador do Distrito Federal, Ibaneis
Rocha (MDB), na berlinda política. Nas mesmas conversas, Vorcaro reclama de
André Esteves, controlador do BTG Pactual, acusando-o de atuar contra a operação
junto ao Banco Central. "André baixou a guarda e os ataques diminuíram
bem. Criaram um problema que não existia", escreveu.
O caso ganhou novos contornos após a nova
fase da Operação Compliance Zero, que levou novamente Vorcaro à prisão. Como em
muitos enredos de corrupção financeira, a expectativa agora é que ele recorra a
uma delação premiada para tentar reduzir sua pena. É nesse ponto que o
escândalo da Faria Lima começa a mexer com o Poder em Brasília. Em mensagens à
namorada, o banqueiro se gaba de manter contato frequente com o senador Ciro
Nogueira (PP-PI), ex-chefe da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro e uma das
principais lideranças do Centrão.
Mudança de cenário
Procurado, o senador reagiu com uma nota
protocolar: afirmou que troca mensagens com centenas de pessoas e que isso não
o torna próximo apenas por eventualmente interagir com elas". Disse também
estar tranquilo quanto às investigações da Polícia Federal e negou qualquer
conduta inadequada relacionada ao caso. A investigação passou a assombrar os
poderosos de Brasília após mudança na relatoria do processo no Supremo Tribunal
Federal. Quando o caso estava sob responsabilidade do ministro Dias Toffoli,
havia fortes restrições à atuação da Polícia Federal.
Com a transferência da relatoria para o
ministro André Mendonça, a investigação avança. Mendonça autorizou novas
diligências e criticou a falta de urgência demonstrada pela Procuradoria-Geral
da República diante dos pedidos da Polícia Federal. Na prática, a PF recebeu
carta branca para aprofundar as investigações. O material apreendido é uma
caixa de Pandora. já é volumoso. Os celulares de Vorcaro tornaram-se uma fonte
abundante de provas.
Em uma das mensagens, ele comenta uma
iniciativa legislativa do senador Ciro Nogueira: "Ciro soltou um projeto
de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro! Ajuda os bancos
médios e diminui o poder dos grandes." Em outra conversa, o banqueiro
descreve o senador como um aliado próximo: "Ciro Nogueira. É um senador.
Muito amigo meu. Quero te apresentar. Um dos meus grandes amigos de vida".
A proposta mencionada previa elevar o limite
de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1
milhão por depositante. O Banco Master captava recursos por meio de CDBs
garantidos pelo fundo — de modo que a mudança ampliaria a proteção aos
investidores e fortalecer ia o seu audacioso e fraudulento modelo de negócios.
Como nos filmes de Scorsese, a trama mistura dinheiro, poder e relações
perigosas.
E uma queda espetacular
A reação do sistema bancário foi imediata.
Grandes bancos pressionaram contra a proposta, temendo distorções competitivas
e aumento do risco sistêmico. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre
(União-AP), acabou retirando o tema da pauta. Paralelamente, os bancos que
integram o FGC decidiram antecipar cinco anos de contribuições ao fundo,
somando cerca de R$ 32,5 bilhões. O recolhimento está previsto para 25 de março
e deverá cobrir aproximadamente metade do rombo estimado até agora no caso
Master.

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