quarta-feira, 22 de abril de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Do bônus ao ônus demográfico

Por Folha de S. Paulo

Segundo estimativa do IBGE, população de dependentes cresceu 0,9% em 2025, ante 0,1% da faixa etária ativa

Tendência impõe reformar a Previdência Social, fortalecer o SUS e elevar a produtividade; debate, porém, está atrasado no Brasil

Realizado com atraso de dois anos devido à pandemia de Covid-19, o Censo 2022 mostrou que a população brasileira envelhece mais rapidamente do que se imaginava. Desde então, novas projeções reforçam essa percepção —ainda não devidamente captada, infelizmente, pelas políticas públicas.

Estimativas recém-divulgadas pelo IBGE apontam que o estrato de 60 anos de idade ou mais teve expansão de 58,7%, de 2012 até 2025, saltando de 22,2 milhões para 35,2 milhões. No mesmo período, o número de jovens abaixo de 30 anos encolheu 10,4%, de 98,2 milhões para 88 milhões.

O fenômeno resulta de progressos da sociedade: maior expectativa de vida, graças a avanços na saúde, e queda da taxa de fecundidade, por acesso a métodos contraceptivos, participação da mulher no mercado de trabalho e maior investimento na educação de cada filho. Mas também impõem-se desafios, especialmente para os países que não conseguiram tornar-se ricos.

O Brasil perdeu a oportunidade de fazê-lo nos anos do chamado bônus demográfico —vale dizer, de maior expansão e proporção da população em idade produtiva, entre 15 e 59 anos. A depender do critério adotado, essa vantagem econômica já se esgotou ou está em franco declínio.

De acordo com os cálculos do IBGE, crianças e adolescentes até 14 anos e idosos acima dos 60 —o que se convenciona chamar de população dependente— somaram 36% da população total no ano passado. Esse grupo cresceu 0,9% em relação a 2024, ante apenas 0,1% do contingente em idade ativa. Na década de 2040, dependentes serão mais de 50%.

O ônus mais óbvio desse processo se dá na Previdência Social e há muito está em curso. O sistema passou a ser deficitário nos anos 1990, mas só em 2019 foi aprovada uma reforma ampla, com fixação de idades mínimas para as aposentadorias. Pior, boa parte da economia esperada foi comprometida com a volta da política de reajustes de benefícios acima da inflação.

Também a saúde pública tende a ficar sobrecarregada e terá de se aparelhar para o avanço de doenças e condições associadas à velhice; em contrapartida, a educação básica já lida com um número declinante de alunos. No entanto, as normas de financiamento das duas áreas ainda não levam em conta tais diferenças.

Em artigo publicado na Folha, o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves rejeita visões catastrofistas para a transformação populacional. Para ele, as dificuldades podem ser compensadas por ganhos de produtividade, por meio de investimentos em educação, saúde, ciência e infraestrutura; os idosos, ademais, poderão viver com mais bem-estar e integração ao mercado de trabalho.

Seja como for, fato é que o debate de tais questões está atrasado no Brasil. Em particular, incentivos à produtividade como abertura da economia e privatizações parecem longe do radar de governantes e legisladores em Brasília.

O eterno retorno das greves de servidores de universidades

Por Folha de S. Paulo

Em reação a bônus dado a professores, funcionários e parte dos alunos da USP fazem paralisação

Servidores de 53 universidades e institutos federais estão em greve; é preciso rever o modelo de financiamento do ensino superior público

Funcionários da Universidade de São Paulo estão em greve —de novo. Nos últimos 20 anos, ocorreram 9 paralisações de servidores ou professores da USP, de acordo com levantamento do site Poder360. A última, em 2023, durou 42 dias.

O fenômeno é comum nas universidades públicas e indica que o modelo de financiamento é insustentável. No momento, servidores de 53 universidades e institutos federais estão em greve.

Os funcionários da USP entraram em greve em 14 de abril, em reação a um acréscimo de R$ 4.500 no salário mensal de docentes que assumirem projetos considerados estratégicos, como a oferta de disciplinas em inglês e ações de extensão.

Trata-se da Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas (Grace), proposta pela reitoria e aprovada pelo Conselho Universitário no final de março.

Em comunicado, o Sindicato dos Trabalhadores da Universidade de São Paulo (Sintusp) diz: "Não podemos aceitar R$ 4.500 para eles e nada para nós". Estudantes também não aceitaram. Até terça (20), discentes de 15 faculdades haviam aderido à greve.

O sindicato pede reajuste fixo de R$ 1.200 nos salários, além de recomposição integral das perdas calculadas pela inflação desde 2012 (14,5%). Por sua vez, os alunos reivindicam melhores condições de permanência estudantil, com aumento no valor de bolsas, e reclamam da má qualidade dos restaurantes universitários.

A USP fez uma proposta: o mesmo montante anual destinado à Grace (R$ 238,4 milhões) seria dividido pelos servidores, o que daria cerca de R$ 1.600 mensais. O Sintusp avaliará nesta quarta (21).

O orçamento da USP oriundo do Tesouro Estadual em 2026 é de R$ 9,4 bilhões, sendo que 84,2% (R$ 7,9 bilhões) vão para pagamento de pessoal, alta de 5,6% ante 2025. No ano passado, a fatia dessa rubrica foi de 82%.

Já a verba para bolsas e auxílios da Política de Permanência e Formação Estudantil subiu 6% entre 2024 e 2025 e 4% em 2026, chegando a R$ 215 milhões.

Não à toa, ao aprovar a Grace, o Conselho Universitário também alterou normas internas relacionadas ao controle de despesas com pessoal, flexibilizando critérios que limitam pagamentos.

Tal pressão orçamentária se espraia pelas universidades públicas. Mesmo assim, por corporativismo e ideologia, a comunidade acadêmica reluta em revisar o modelo de financiamento, contemplando a contribuição privada, inclusive de alunos.

Sem mudar essa chave, gastos continuarão a subir, investimentos, a cair, e mais greves virão.

Derrotar juro alto é desafio comparável ao do Plano Real

Por O Globo

Causas do problema são conhecidas, e nenhuma delas intratável — da baixa poupança ao desequilíbrio fiscal

Quatro em cinco famílias brasileiras relatam ter dívidas a vencer. A proporção é inédita. O endividamento tem crescido em todas as faixas de renda. Pelas projeções da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o problema deverá continuar avançando, apesar de o Banco Central (BC) ter reduzido juros na última reunião do Comitê de Política Monetária. Com a taxa básica em 14,75% ao ano, o país continua com um dos maiores juros reais do mundo — quase 10%, descontada a inflação. O Brasil é uma anomalia quando se trata do preço do dinheiro.

É difícil para as famílias pagar suas dívidas. Empresas também vivem reclamando do juro alto, e são frequentes os programas de refinanciamento do crédito. Tal situação deveria provocar no Executivo e no Legislativo reflexão profunda. É preciso encarar a questão com a mesma seriedade com que a inflação foi combatida na época do Plano Real. No início dos anos 90, o índice mensal ultrapassava 80%. Em 30 dias, o poder de compra dos salários era reduzido quase à metade. Para quem tinha passado a vida com reajustes diários, parecia normal. Não era. Tratava-se de aberração. O mesmo pode ser dito sobre o patamar atual dos juros.

O problema tem várias causas, nenhuma delas intratável. A primeira — e mais importante — é o desequilíbrio das contas públicas. Ainda que o risco de calote seja baixo, quanto maior o endividamento público, mais alto é o retorno exigido pelos investidores para comprar títulos emitidos pelo governo. Nesse quesito, o histórico do governo Luiz Inácio Lula da Silva é vergonhoso. Quando Lula assumiu, a dívida bruta equivalia a 73,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Hoje está em 79%, e a previsão é de 86% já no ano que vem. Há ainda um segundo efeito nefasto do desequilíbrio das contas públicas. Ao elevar o gasto, o governo aquece a demanda, pressiona a inflação e força o BC a aumentar ainda mais a taxa básica, a Selic.

A segunda causa é o excesso de crédito dirigido. Linhas especiais para determinados setores, via programas do governo, fazem com que 43% do mercado de crédito fique imune, de forma parcial ou completa, às variações da Selic. Em razão disso, quando o BC é forçado a aumentá-la, o nível precisa ser bem mais alto para ter o impacto desejado na oferta de crédito.

A terceira causa é a insegurança jurídica. Contratos firmados dentro da lei nem sempre são garantidos pelos tribunais. Muitos juízes tendem a favorecer uma das partes em detrimento do pactuado. Não faltam exemplos. Na década passada, contratos de financiamento de veículos foram desconsiderados para beneficiar inadimplentes. Onde faltam garantias para recuperar ativos, a saída para quem empresta é aumentar os juros de todos.

Por fim, a poupança é baixa, reduzindo a oferta de dinheiro e aumentando seu custo. Falta também mais competição no mercado bancário, apesar de a expansão recente das fintechs e de o compartilhamento de dados de clientes via Open Finance terem contribuído para reduzir as taxas em alguns segmentos. Ainda há muito a avançar. Alguns problemas têm solução mais rápida, outros no longo prazo. Porém todos devem ser tratados com a mesma urgência para que o país deixe de conviver com uma aberração que inibe o crescimento da economia e corrói os recursos de todos os brasileiros.

Queixas não podem pôr em risco avanço trazido pelo pedágio ‘free flow’

Por O Globo

Sistema garante maior fluidez e segurança nas rodovias. Críticas de usuários devem resultar em melhorias

Têm crescido as críticas e reclamações de usuários sobre o sistema eletrônico de cobrança de pedágio conhecido como free flow. O funcionamento do sistema é simples. Em vez das ultrapassadas cabines de pedágio, pórticos eletrônicos nas estradas leem os dados do adesivo com chip colado no parabrisa do veículo ou sua placa — e a cobrança vai para o portal da concessionária que administra a estrada. O pedágio é tarifado de forma proporcional aos quilômetros rodados na rodovia. Caso não haja etiqueta de cobrança automática e as tarifas não sejam pagas, o sistema cobra multa dos motoristas.

As queixas se concentram no número elevado de evasões registradas. Apenas no trecho fluminense da rodovia Rio-Santos, onde o free flow começou a ser usado em 2023, houve 1,26 milhão de autuações sob a alegação de que os motoristas não pagaram o pedágio devido, segundo reportagem do GLOBO. Motoristas têm relatado dificuldades de acesso às plataformas de pagamento das concessionárias, atraso nos registros de passagem pelos pórticos, cobranças indevidas e comunicação ineficiente com os motoristas. Reclamam, também, da falta de integração nacional. Motoristas que percorrem diversas rodovias pedagiadas precisam acessar vários portais ou aplicativos para fazer seu acerto de contas.

Todos esses problemas poderiam ser resolvidos com facilidade. O número elevado de multas não serve de argumento para reprovar um método de cobrança de pedágio comum no mundo todo. O simples fato de serem eliminadas filas e engarrafamentos diante das cabines justifica que os usuários esperem pelos ajustes, normais em sistemas desse tipo. O tema já alimenta discussões no Congresso, e seria um erro se os parlamentares transformassem em problema uma solução que facilita a vida de todos, motoristas e concessionárias.

É possível que haja rigor excessivo na multa de R$ 195,23 e 5 pontos na carteira de habilitação para quem não pagar o pedágio eletrônico em até 30 dias. Os críticos também entendem que não se pode converter uma dívida civil em multa de trânsito. O deputado federal Hugo Leal (PSD-RJ) apresentou Projeto de Lei para ampliar os prazos de pagamento de multas e até suspendê-las, com base no argumento de que o sistema pune o usuário devido a falhas estruturais. Mas, se os sites e aplicativos forem melhorados, as dificuldades desaparecerão, e o projeto se tornará inócuo. É nisso que as concessionárias deveriam se concentrar.

O uso de free flow em estradas ainda é pequeno. Estima-se que responda por algo entre 5% e 10% do tráfego em rodovias com pedágio. Mas o método de cobrança se expande com rapidez. Pelas estimativas, a proporção continuará a aumentar, podendo atingir de 30% a 50% em 2030. À medida que o free flow avança, melhora a fluidez do tráfego e aumenta a segurança nas rodovias. Por tudo isso, seria um erro rejeitar a nova tecnologia, que torna as viagens mais rápidas, mais seguras e mais confortáveis.

Campanha medíocre

Por O Estado de S. Paulo

Pelo que se viu até aqui, disputa presidencial se perderá entre denúncias de corrupção, identidades tribais e assistencialismo rasteiro, enquanto temas cruciais seguem negligenciados

A campanha eleitoral oficial ainda não começou. Mas já está claro que, no que depender dos dois principais pré-candidatos à Presidência da República, os eleitores terão de cruzar um deserto de ideias até as urnas. Tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como o senador Flávio Bolsonaro têm se mostrado fiéis à tradição de indigência que marca os pleitos nacionais mais recentes. Nem um nem outro se mostram dispostos a travar um debate ancorado em fatos, orientado por prioridades nacionais e organizado por propostas condizentes com as necessidades mais prementes do País. Em vez disso, grassam mentiras, ataques pessoais e estímulos a uma guerra tribal de soma zero que nada têm a ver com o interesse público.

Ao olhar para um lado, os eleitores se deparam com Lula, um governante envelhecido em suas ideias, desconectado do Brasil e do mundo do século 21 e, ademais, protagonista de dois dos maiores esquemas de corrupção de que o Brasil já teve notícia na história recente: o “mensalão” e o “petrolão”. Ao se virar para o outro lado, lá está Flávio Bolsonaro, um senador que só existe politicamente por ter o sobrenome do pai e que é notório – para além de seu evidente despreparo para administrar até uma loja de chocolates – pela suspeita de ter liderado um esquema de “rachadinhas” em seu gabinete na Alerj, termo singelo para abarcar crimes graves como peculato, corrupção e lavagem de dinheiro.

A percepção social de que a política nacional está indelevelmente maculada por práticas pouco republicanas desde o topo contribui para uma descrença generalizada. Quando “todos são corruptos” aos olhos dos eleitores, a decisão de voto tende a se deslocar do campo programático – racional – para o terreno identitário – emocional. Noutras palavras: o bem comum se torna uma consideração menos relevante para a tomada de decisão do que a reafirmação de convicções e o fortalecimento dos vínculos de grupo.

Isso ajuda a explicar por que temas laterais ocupam o centro do debate eleitoral no País. A chamada “guerra cultural”, envolvendo primordialmente questões de costumes, passa a organizar as discussões na esfera pública, enquanto desafios estruturais muitíssimo mais importantes para o Brasil seguem à margem – quando não olimpicamente ignorados. Essa inversão de prioridades empobrece a democracia e compromete a capacidade do eleitor de fazer escolhas bem fundamentadas.

Nesse ambiente hiperintoxicado pela ideologia, questões cruciais para o País, como o ajuste fiscal, as reformas administrativa, previdenciária e do Judiciário, as deficiências de infraestrutura, os gargalos da saúde pública e da educação básica, entre tantos outros, perdem espaço para a ladainha assistencialista de curto prazo. A conquista do eleitor passa a girar não em torno de projetos nacionais em disputa, e sim de quem promete distribuir mais dinheiro – longe, é claro, de uma estratégia sustentável de desenvolvimento. O resultado é a substituição de políticas públicas estruturantes por medidas populistas tão apelativas quanto irresponsáveis.

Este jornal espera que isso não seja um destino inscrito em pedra. A campanha eleitoral tem de servir à discussão de uma agenda virtuosa para o Brasil. Áreas nas quais o País está atrasado não faltam. Da incorporação de novas tecnologias, como a inteligência artificial, à modernização do Estado. Do equilíbrio das contas públicas ao desenvolvimento da educação básica. Da reorganização do Sistema Único de Saúde à reforma do Judiciário. Os desafios são sobejamente conhecidos e há muito diagnosticados. Faltam coragem e disposição política para enfrentá-los com seriedade e espírito público numa disputa eleitoral que promete ser acirrada.

Aqui reside a responsabilidade das forças políticas liberais e democráticas. Longe dos extremos que hoje intoxicam o debate público, quando não o interditam, o centro tem o dever de apresentar ao País um projeto de governo consistente, com visão de Estado, que combine responsabilidade fiscal, sensibilidade social e resgate institucional. Ainda que não seja a opção favorita dos eleitores, a julgar por pesquisas de momento, seu papel é fundamental para a qualificação do debate público e, consequentemente, para o aprimoramento da democracia. Com todas as suas carências e potencialidades, o Brasil exige e merece mais do que essa miséria intelectual que está posta.

O bate e assopra do governo Lula

Por O Estado de S. Paulo

Dividido entre a negociação e o diálogo prometido por José Guimarães e a retórica de confronto de Guilherme Boulos, Lula expõe incoerência, fragiliza a articulação e tensiona o Congresso

Qual é, afinal, o governo que vale quando se trata da relação com o Congresso Nacional? O que se apresenta pela via institucional, negociadora e pragmática – agora encarnado no recém-empossado ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, tratado como “amigo-irmão” pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e interlocutor preferencial do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP)? Ou o que aposta na confrontação, na retórica de mobilização e na pressão pública – representado pelo ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, que falou, entre outras estultices, em “a onça vai beber água” ao tratar da tramitação de projetos no Parlamento?

A pergunta é pertinente diante de duas marcas do atual mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: a fragilidade das propostas apresentadas ao Legislativo e ao País – quando não sua simples ausência – e a dificuldade de coordenação política diante de uma base de apoio frágil e um Congresso que ampliou seu poder, sobretudo no controle do Orçamento. A resposta, no entanto, é clara: os dois governos coexistem. E não por acaso. O governo Lula reflete seu demiurgo. Quem acompanha a trajetória de Lula com um mínimo senso crítico sabe do seu absoluto descompromisso com a coerência. Ele fala o que quer, quando quer e como quer, tão somente movido por sua antes aparentemente infalível intuição político-eleitoral e seu comprovado senso de oportunidade.

Ao longo dos anos, Lula consolidou a habilidade de falar a públicos distintos com linguagens distintas. No governo, isso se traduz na oscilação entre o conciliador que afaga o Congresso e o líder que tolera – quando não estimula – a retórica de confronto de seus auxiliares. O que poderia ser interpretado como flexibilidade política, na prática, revela ausência de eixo. O resultado é um governo errático, cuja identidade se dissolve entre a negociação institucional e a mobilização ideológica. A ambiguidade não amplia apoios, e sim corrói a confiança, desorienta aliados e reforça a percepção de oportunismo, como se a condução do governo fosse menos fruto de estratégia e mais de ajustes táticos ditados pela conveniência.

Entre o afago e a ameaça, o governo insiste em ser duas coisas ao mesmo tempo. Essa condição permite ao governo estar simultaneamente em registros distintos, sem compromisso com coerência mais robusta. A posse de Guimarães, prestigiada por lideranças do Legislativo, sinalizou uma tentativa de recompor uma relação funcional com o Congresso. “Não tem governo que dê certo se não tiver diálogo com o Congresso Nacional. Quero ser instrumento dessa construção política com o Congresso”, disse ele, reafirmando o óbvio por vezes esquecido e reconhecendo que a governabilidade depende de articulação política estável e previsível. Foi saudado com entusiasmo por Davi Alcolumbre. Trata-se da face que compreende as exigências do presidencialismo de coalizão, no qual o Executivo depende de maioria parlamentar e o Congresso é ator legítimo e indispensável.

A outra face se revela no discurso de Guilherme Boulos. Ao tratar do projeto que prevê o fim da escala 6x1, o ministro afirmou que “cada parlamentar terá de decidir se votará com os trabalhadores brasileiros ou com os privilegiados” e fez arremates ameaçadores. Isso é mais do que estilo retórico. Ao enquadrar o Congresso como adversário dos trabalhadores, Boulos reedita um expediente conhecido: mobilizar a opinião pública contra o Legislativo, simplificar o debate e reduzir sua complexidade a uma disputa moral entre “povo” e “elite”.

A duplicidade cobra seu preço. A política não tolera indefinições prolongadas. Não há articulação eficaz quando o mesmo governo que negocia nos bastidores estimula, em público, a deslegitimação de seus interlocutores. Não há confiança quando o Parlamento é simultaneamente parceiro e alvo. Mais grave ainda é o efeito institucional dessa ambiguidade, que reintroduz uma lógica já comprovadamente corrosiva para a democracia brasileira.

Seria desejável que o governo Lula definisse qual de suas faces prevalecerá. Mas, à luz de sua trajetória, convém esperar sentado.

A armadilha dos royalties

Por O Estado de S. Paulo

Sem boa gestão, receita adicional com produção de petróleo não resulta em qualidade de vida

Municípios que recebem compensações financeiras de empresas que exploram petróleo e gás natural, os chamados royalties, não necessariamente oferecem uma melhor qualidade de vida à sua população, ou seja, não basta receita extra, é preciso boa gestão dos recursos.

Estudo da organização da sociedade civil Agenda Pública mostrou que, dos 50 municípios que mais receberam royalties de petróleo em 2024, nenhum apresentou um elevado nível de qualidade de vida.

A entidade baseia-se no marcador Índice de Condições de Vida (ICV) dos municípios produtores de petróleo. O ICV mede o desempenho de tais municípios em oito dimensões, entre as quais saúde, educação, infraestrutura, meio ambiente, desenvolvimento econômico e gestão pública. Quanto mais próximo de 1 é o índice, mais desenvolvida é a cidade.

Nenhum município avaliado teve nota superior a 0,7, pontuação mínima para ser considerado de alta condição de vida. Os que mais se aproximaram foram o capixaba Linhares (0,643), o paranaense Araucária (0,638) e o fluminense Resende (0,625). Já o amazonense Coari (0,377) e o fluminense São Francisco de Itabapoana (0,351) ficaram na penúltima e última colocações.

Resguardadas as diferenças de desenvolvimento entre as Regiões Norte e Sudeste, o caso de Coari chama a atenção. A média salarial no município, que desde os anos 1980 conta com uma base de extração de petróleo da Petrobras, é alta: R$ R$ 9.838,69. Ainda assim, 71% das pessoas que lá vivem estão em situação de pobreza. De acordo com a Agenda Pública, trata-se da maior média salarial e, ao mesmo tempo, a maior taxa de pobreza dos municípios petrolíferos.

Ao mesmo tempo, Maricá e Saquarema, ambos no Rio de Janeiro, recebem mais de R$ 2 bilhões de royalties de petróleo por ano e, mesmo assim, apresentam condições de vida inferiores às de municípios que recebem menos de R$ 100 milhões.

Para que casos como o de Coari não ocorram, a Agenda Pública sugere investimentos massivos em educação, o que é fundamental para que a população local se qualifique e possa atuar em empresas da cadeia de valor do petróleo.

Não faz nenhum sentido que um município receba uma receita extra, a título de compensação pela exploração de recursos naturais, e não consiga gerir os recursos de modo a garantir a prosperidade de seus cidadãos.

Além de estarem atentos às necessidades locais, gestores de municípios produtores de petróleo também precisam se preparar para lidar com a chegada de novos residentes, muitas vezes atraídos pela ideia da bonança petroleira. Não raro, o aumento repentino de população leva a uma piora nos índices de criminalidade.

O preço do barril do petróleo aumentou significativamente em 2026, superando os US$ 100 mais de uma vez, na esteira do conflito no Oriente Médio. Com isso, os municípios produtores devem arrecadar ainda mais royalties neste ano do que no ano passado. Como se vê, porém, uma chuva de receitas extras não é garantia de qualidade de vida. Sem gestão adequada, problemas como violência e desigualdade podem até mesmo se agravar.

Colapso de corrente no Atlântico é ameaça maior que a guerra

Por Valor Econômico

A Amoc é uma parte fundamental do sistema climático global e seu possível colapso trará consequências destrutivas para a Europa, a África e as Américas

A guerra dos EUA e de Israel contra o Irã tem desviado a atenção de todo o mundo da emergência climática, enquanto o planeta se aproxima de um perigoso e catastrófico ponto de não retorno, o colapso da corrente do Atlântico, cujo nome oficial é Circulação Meridional do Atlântico (Amoc, na sigla em inglês), com consequências destrutivas para a Europa, a África e as Américas.

A Amoc é uma parte fundamental do sistema climático global e encontra-se em seu ponto mais fraco em 1.600 anos como resultado da crise climática, apontam cientistas. Em 2021, os pesquisadores identificaram sinais de alerta de um ponto de inflexão. Por se tratar de um sistema complexo, os modelos computacionais para a Amoc produzem resultados bastante variados, desde aqueles que indicam nenhuma desaceleração adicional até 2100 até aqueles que sugerem uma significativa desaceleração de cerca de 65% — mesmo se as emissões de carbono provenientes da queima de combustíveis fósseis forem gradualmente reduzidas a zero.

Cientistas franceses da Universidade de Bordeaux e do centro de pesquisas Inria combinaram os modelos climáticos com dados de observações oceânicas do mundo (temperatura e salinidade da superfície do Atlântico) para determinar qual projeção era a mais confiável, e descobriram que as projeções mais pessimistas estão mais próximas da realidade. Eles encontraram uma desaceleração estimada de 42% a 58% até 2100, um nível que quase certamente levará ao colapso da corrente. Os achados dos pesquisadores foram publicados na revista Science Advances na semana passada.

A Amoc transporta água tropical aquecida pelo sol para a Europa e o Ártico — razão pela qual os países europeus, particularmente no noroeste, desfrutam de um clima temperado muito mais ameno do que regiões em latitudes semelhantes, como o Canadá ou a Sibéria —, onde ela esfria e afunda, formando uma profunda corrente de água fria no caminho de volta para o sul. Um colapso dessa corrente alteraria a faixa de chuvas tropicais da qual milhões de pessoas dependem para cultivar seus alimentos, mergulharia a Europa Ocidental em invernos extremamente frios e secas de verão, perturbaria as monções na África e na Ásia e aumentaria o nível do mar — já em ascensão — no Atlântico em 50 cm a 100 cm.

Novas modelagens computacionais mostram ainda que ela emitiria até 640 bilhões de toneladas de dióxido de carbono perto da Antártida, aquecendo o planeta em mais 0,2°C. Apesar do modesto efeito de aquecimento global, as anomalias regionais de temperatura seriam significativas: as temperaturas do Ártico esfriariam em cerca de 7°C, enquanto as temperaturas da Antártica aqueceriam em cerca de 6°C.

Para o Brasil, o colapso da Amoc traria uma mudança nos padrões de precipitação na Amazônia, com redução de chuvas no norte e aumento de chuvas no sul do bioma. Isso terá forte impacto na Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), que leva a umidade da floresta para o Sudeste e o Centro-Oeste do Brasil — áreas que concentram a produção de commodities exportadoras, como a soja.

As mudanças climáticas desencadeadas pelo enfraquecimento da Amoc, combinadas com o impacto do desmatamento podem provocar um colapso irreversível da cobertura vegetal da Amazônia, levando a maior floresta tropical do mundo a um ponto de não retorno. Stefan Rahmstorf, do Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático, na Alemanha, alerta que o colapso da Amoc deve ser evitado “a qualquer custo”. “As mudanças climáticas mais dramáticas e drásticas que vimos nos últimos 100 mil anos da história da Terra ocorreram quando a Amoc mudou de estado”, disse, referindo-se a colapsos da corrente no passado da Terra.

Se por um lado a guerra no Oriente Médio desvia a atenção dos governos desse risco planetário, por outro, pode ser o empurrão que faltava para acelerar a descarbonização das economias como resposta à escalada dos preços dos combustíveis fósseis. Com o conflito armado se arrastando para o pior cenário, de meses de interrupção do vital Estreito de Ormuz — por onde passavam 20% do fluxo global de petróleo e gás —, já se vê alguma movimentação para enfrentar a limitação da oferta física dos combustíveis fósseis reduzindo a demanda e a dependência dessa commodity altamente vulnerável às disputas geoeconômicas. A Comissão Europeia, por exemplo, apresentará nesta semana uma série de medidas para incentivar o trabalho remoto, subsidiar o transporte público, melhorar a eficiência energética e ajudar na transição para energias limpas.

O Brasil deve aproveitar a receita extra com as exportações de petróleo e gás para acelerar a eletrificação da economia — em vez de tentar manter só o consumo de combustíveis fósseis por meio de subsídios. Aumentamos a geração de energia solar e eólica, mas isso trouxe fragilidades ao sistema nacional, prejuízos às geradoras e uma conta mais alta ao consumidor por falta de planejamento. Este é o momento de garantir o futuro, enfrentar a emergência climática e reduzir a vulnerabilidade energética.

As cartas do Brasil no jogo das terras raras

Por Correio Braziliense

A exploração e o aproveitamento das terras raras e minerais críticos devem ser tratados como um projeto de Estado, e não de governo

O mundo vive uma corrida que vai definir o modo de vida no futuro. Se o século 20 foi moldado pelo petróleo, a década de 2020 deu início à era dos minerais críticos e às terras raras. Lítio, nióbio, cobalto e neodímio não são apenas nomes na tabela periódica: eles são os alicerces da necessária transição energética, essenciais para a fabricação das baterias de carros elétricos, turbinas eólicas e chips de última geração. Diante da nova realidade, o cenário é de urgência para quem quer sair na frente. Nesse contexto, a concorrência entre as grandes potências, especialmente China e Estados Unidos, pelo controle das cadeias de suprimentos tecnológicos já foi parar no espaço.

A missão Artemis II, que neste mês realizou uma trajetória ao redor da Lua, é o primeiro sinal mais visível dessa disputa. Ao focar em validar o sistema de transporte tripulado ao redor do satélite natural, ela se transformou na base para uma economia lunar que visa, a longo prazo, explorar esses materiais escassos na Terra. O sucesso obtido representa um marco no programa norte-americano e é o passo final, antes do pouso humano em solo lunar, com o Artemis III, onde a geologia do satélite vai passar a desempenhar o papel principal.

Se a briga já se estende para as esferas espaciais, cabe ao Brasil ocupar território. O país tem a terceira maior reserva de terras raras do mundo e precisa se posicionar diante dessa oportunidade histórica. O que está em jogo não é apenas a balança comercial, mas a possibilidade de saltar de mero exportador de commodities minerais para um protagonista na industrialização verde. A participação nacional tem que deixar de ser apenas a de cavar o solo e enviar o minério bruto para ser processado no exterior. É primordial atrair tecnologia para que o refino e a fabricação de componentes ocorram em solo brasileiro. O desafio, porém, é colossal, uma vez que até mesmo a própria exploração ainda engatinha no Brasil. 

Outro ponto extremamente sensível e que exige total atenção é encontrar o caminho para extrair essa riqueza sem comprometer a preservação ambiental. A questão global é que, para conter o aquecimento global por meio de energias limpas, a saída é intensificar uma atividade invasiva para o meio ambiente. Nesse ponto, a gestão pública e o rigor técnico devem se encontrar. O governo brasileiro precisa consolidar leis que jamais flexibilizem a segurança. A exploração de minerais estratégicos deve ser acompanhada de planos rigorosos de recuperação de áreas degradadas e de sistemas constantes de monitoramento.

O Brasil tem em mãos diversas cartas para colocar na mesa, mas precisa discutir de maneira ampla a sua atuação nesse campo. A exploração e o aproveitamento das terras raras e minerais críticos devem ser tratados como um projeto de Estado, e não de governo. Transformar o subsolo brasileiro em motor de inovação sem destruir as riquezas naturais é a equação a ser resolvida. O país pode usar os cerca de 21 milhões de toneladas de terras raras que possui em favor da sustentabilidade global e da redução dos impactos das mudanças climáticas, além de garantir o seu desenvolvimento e crescimento econômico. Para isso, não pode mais demorar para definir políticas claras de incentivo, salvaguardas ambientais e investimentos tecnológicos essenciais.

Cresce o número de pessoas morando sozinhas

Por O Povo (CE)

É urgente que as autoridades governamentais e o Congresso Nacional ponham essa pauta na ordem do dia

Os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), colhidos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), apresentam um desafio para as autoridades do País. O estudo mostra que a população brasileira está envelhecendo, além de crescer em ritmo menor. No ano passado, a população somava 212,7 milhões de pessoas (51,2% mulheres), aumento de 0,39% comparado a 2024, com uma taxa de crescimento abaixo de 0,60% desde 2021.

Outro fenômeno que deve ser observado com atenção é o aumento do número de pessoas que moram sozinhas, cuja população mais do que dobrou no período de 2012 a 2025, com alta de 109,8%. São 15,6 milhões de lares unipessoais, representando 19,7% do total de domicílios brasileiros que, em 2025, somavam 79,3 milhões. Uma em cada cinco residências no Brasil tem apenas um habitante.

Os homens são maioria entre as pessoas que moram sozinhas, percentual de 54,9% de lares unipessoais. Segundo o analista William Kratochwill, do IBGE, entre os homens esse tipo de arranjo é mais associado à separação de casais, quando os filhos costumam ficar com a mãe. Diferentemente do que poderia se pensar, que a maioria dos homens que moram sozinhos seriam jovens em busca de uma possível independência dos pais, a pesquisa revela que a maioria deles (56,4%) têm de 30 a 59 anos; o restante se divide entre 15 a 29 anos e 60 anos ou mais.

Quanto às mulheres, o perfil é outro. Mais da metade das que viviam sozinhas em 2025 (56,5%) tinham 60 anos ou mais. Para Kratochwill esse padrão relaciona-se, principalmente, à maior longevidade feminina, viuvez ou separação em idade mais avançada. É também preciso considerar que muitas mulheres escolhem morar sozinhas para manter a autonomia.

Esses dados têm de ser observados pelas autoridades brasileiras, pois tanto o envelhecimento da população quanto o aumento de idosos morando sozinhos apontam para a necessidade de políticas específicas para esse segmento da população brasileira, que tende a aumentar ainda mais. Certamente, os serviços básicos de saúde precisam ser adaptados de modo a criar uma rede de proteção a essa população.

É certo que o Sistema Único de Saúde (SUS) já desenvolve programas de atendimento domiciliar, entre outros, mas a população idosa tem questões específicas relacionadas à saúde, além de outras particularidades . O fato é que o aumento das demandas vai exigir o fortalecimento do SUS, que hoje já não consegue atender plenamente as necessidades da população devido à falta de verbas.

Portanto, é urgente que as autoridades governamentais, nas três esferas de poder — federal, estadual e municipal — e o Congresso Nacional ponham essa pauta na ordem do dia.

Nenhum comentário: