O Globo
Talvez não seja preciso esperar delação para
conhecer tamanho do lamaçal
A segunda prisão de Daniel Vorcaro
acrescentou novas camadas de lama ao caso Master. O banqueiro já era pivô de um
escândalo financeiro com conexões na política. Agora desponta como chefe de uma
organização de tipo mafioso, que corrompia servidores, roubava dados sigilosos
e tramava atos de violência contra desafetos.
De acordo com a Polícia Federal, Vorcaro montou uma “milícia privada” que apelava à coação e à ameaça para proteger seus interesses. O esquema era comandado da Faria Lima, mas se valia de métodos usados em áreas sob domínio armado.
Em conversa com um capanga, o banqueiro deu
ordens para “quebrar todos os dentes” de um jornalista, “dar sacode” num
cozinheiro e “moer” uma empregada. O linguajar miliciano contrasta com a imagem
de executivo moderno que ele buscava projetar.
A decisão do ministro André Mendonça aponta
outros elos entre o crime do colarinho branco e o mundo da pistolagem. Os
investigadores descobriram que Vorcaro ocultou R$ 2 bilhões numa corretora
ligada ao PCC. Enquanto ele escondia a bolada, o Fundo Garantidor de Créditos
sangrava para cobrir parte do rombo deixado pelo Master.
A nova prisão coincidiu com a divulgação das
primeiras informações extraídas dos telefones do banqueiro. Os diálogos expõem
sua proximidade com figurões da República. O presidente do PP, Ciro Nogueira, é
descrito como um de seus “grandes amigos de vida”. O senador se notabilizou por
apresentar a chamada “emenda Master”, que ajudaria o banco a jogar mais títulos
podres no mercado.
Em mensagens à namorada, Vorcaro relata
encontros descontraídos com Alexandre de Moraes. As investigações sugerem que o
banqueiro se sentia à vontade para pedir favores e informações. Seria curioso
saber como o ministro trataria os diálogos se não figurasse como interlocutor.
Os vazamentos assustaram Brasília, mas
parecem ser apenas um aperitivo do que está por vir. Talvez não seja preciso esperar
uma delação de Vorcaro para conhecer o tamanho do lamaçal. O que a PF quer
saber já pode estar em planilhas nos celulares que apreendeu.

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