sexta-feira, 6 de março de 2026

Uma milícia na Faria Lima, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Talvez não seja preciso esperar delação para conhecer tamanho do lamaçal

A segunda prisão de Daniel Vorcaro acrescentou novas camadas de lama ao caso Master. O banqueiro já era pivô de um escândalo financeiro com conexões na política. Agora desponta como chefe de uma organização de tipo mafioso, que corrompia servidores, roubava dados sigilosos e tramava atos de violência contra desafetos.

De acordo com a Polícia Federal, Vorcaro montou uma “milícia privada” que apelava à coação e à ameaça para proteger seus interesses. O esquema era comandado da Faria Lima, mas se valia de métodos usados em áreas sob domínio armado.

Em conversa com um capanga, o banqueiro deu ordens para “quebrar todos os dentes” de um jornalista, “dar sacode” num cozinheiro e “moer” uma empregada. O linguajar miliciano contrasta com a imagem de executivo moderno que ele buscava projetar.

A decisão do ministro André Mendonça aponta outros elos entre o crime do colarinho branco e o mundo da pistolagem. Os investigadores descobriram que Vorcaro ocultou R$ 2 bilhões numa corretora ligada ao PCC. Enquanto ele escondia a bolada, o Fundo Garantidor de Créditos sangrava para cobrir parte do rombo deixado pelo Master.

A nova prisão coincidiu com a divulgação das primeiras informações extraídas dos telefones do banqueiro. Os diálogos expõem sua proximidade com figurões da República. O presidente do PP, Ciro Nogueira, é descrito como um de seus “grandes amigos de vida”. O senador se notabilizou por apresentar a chamada “emenda Master”, que ajudaria o banco a jogar mais títulos podres no mercado.

Em mensagens à namorada, Vorcaro relata encontros descontraídos com Alexandre de Moraes. As investigações sugerem que o banqueiro se sentia à vontade para pedir favores e informações. Seria curioso saber como o ministro trataria os diálogos se não figurasse como interlocutor.

Os vazamentos assustaram Brasília, mas parecem ser apenas um aperitivo do que está por vir. Talvez não seja preciso esperar uma delação de Vorcaro para conhecer o tamanho do lamaçal. O que a PF quer saber já pode estar em planilhas nos celulares que apreendeu.

 

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