O Estado de S. Paulo
2026, ano eleitoral, será uma oportunidade para discutir com a classe política o baixo crescimento econômico e os reduzidos investimentos públicos
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Produto Interno Bruto (PIB) do País cresceu apenas 0,1% no último trimestre de 2025, relativamente ao trimestre anterior, embora tenha fechado o ano com um crescimento de 2,3%, relativamente a 2024, alcançando o valor de R$ 12.738,6 bilhões em 2025. É um número enorme, mas é preciso pensar em termos relativos, e mesmo com ele o Brasil perdeu o posto de 10.ª economia mundial para a Rússia.
Setorialmente, o crescimento de 2,3% veio de
novo com a ajuda da agropecuária, que cresceu 11,7% em 2025, enquanto a
indústria cresceu só 1,4% e os serviços, 1,8%. Quando eu estudei Economia no
Brasil, o setor agropecuário era visto por muitos como um setor atrasado e que
não poderia contribuir muito para o crescimento econômico do País. Hoje,
aconteceu justamente o contrário.
Ademais, o PIB vinha crescendo perto de 3%
nos últimos anos, mas nem essa é uma taxa boa. O País deveria ter como meta
recomeçar com algo como 4% ou 5%, e cresceu bem acima disso entre 1920 e 1970,
chegando a 8,8% nesta última década, mas depois de 1980 caiu para 3% nessa
década, 1,8% na de 1990, 3,4% na de 2000 e 1,4% na de 2010. Nada de
satisfatório, não é?
Acrescente-se que o boletim Focus, do Banco
Central, que levanta as expectativas dos analistas do mercado financeiro, está
prevendo em sua mais recente edição um crescimento do PIB de 1,82% em 2026 e
2027 e de 2% em 2028 e 2029. Não podemos nos conformar com isso. É preciso
reagir!
Esta forte diferença de desempenho do PIB
entre os períodos pré e pós década de 1980 mostra que nos últimos 45 anos há
algo de estrutural na economia que precisa ser analisado e enfrentado. É
importante ressaltar isso porque há análises da economia atual que culpam
apenas as altas taxas de juros pelo mau desempenho da economia em 2025. Esses
juros tiveram o seu efeito, mas mesmo se diminuíssem bastante o problema
estrutural continuaria.
Esse problema estrutural tem várias e
complexas dimensões. Venho ressaltando que, salvo algumas exceções, a nossa
classe política não demonstra maior interesse pelo crescimento econômico,
voltandose mais para a defesa de demandas pessoais, de grupos e programas
populistas, ignorando que, se o PIB crescesse bem mais, seria menos difícil
resolver os muitos e sérios problemas que o País enfrenta.
Também venho ressaltando que os investimentos
em atividades produtivas têm papel crucial na aceleração do crescimento
econômico e que a taxa de investimentos da economia relativamente ao PIB é
muito baixa no País. Também segundo o IBGE, em 2025 essa taxa foi de apenas
16,8% do PIB, quando o necessário seria algo próximo de 25% do PIB – e melhor
ainda seria se fosse além disso, como aconteceu na China. Nesse contexto, aqui
a queda dos investimentos foi mais forte no setor público, onde chegou a 10% do
PIB em 1975 e hoje está perto de apenas 2,5% do PIB, em larga medida como
resultado de uma expansão mais forte dos gastos sociais. Nada tenho contra
eles, mas essa expansão não deveria comprometer tanto os investimentos
públicos. Já não se vê falar mais de grandes investimentos púbicos como a Ponte
Rio-Niterói e a Hidrelétrica de Itaipu. O Congresso Nacional, salvo algumas
exceções, está interessado mesmo é nas emendas parlamentares para angariar
votos em suas bases políticas.
O que fazer? Há, como foi visto, essas
questões do desinteresse da classe política pelo crescimento econômico e da
queda dos investimentos públicos. Mas há a oportunidade ensejada pelo fato de
que este ano é um ano eleitoral e os candidatos debaterão entre si vários
temas. A imprensa ajudaria muito se questionasse os candidatos à Presidência da
República sobre o assunto. “Quais são as suas propostas para ampliar o
crescimento econômico e os investimentos públicos?” seria uma pergunta a ser
feita aos candidatos repetidas vezes.
Na campanha presidencial também é comum que
os candidatos sejam convidados a visitar entidades de classe de empresários,
onde perguntas lhes são dirigidas, e essa oportunidade poderia ser aproveitada para
cobrar dos candidatos suas propostas quanto ao crescimento econômico e ao
investimento público. O mesmo vale para outras entidades da sociedade civil,
como entidades de classe, universidades e outras. Ou seja, a campanha eleitoral
é uma boa ocasião para colocar esses temas em pauta.
No caso das entidades da sociedade civil em
geral, elas deveriam abordar esses temas de forma permanente, e além dos
candidatos a presidente também deveriam questionar os candidatos à Câmara dos
Deputados e ao Senado, para também colocar o debate do assunto no Congresso
Nacional – o mesmo valendo para os parlamentares que já exercem o seu mandato.
Enfim, não podemos nos conformar com as
previsões do boletim Focus de um crescimento em torno de 2% do PIB neste e nos
próximos três anos. É preciso mobilizar-se contra isso por todos os meios
possíveis, pois ordem sem progresso pode terminar em desordem.

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