O Globo
Veterano do PSOL anuncia que não disputará
nono mandato de deputado federal: "A idade pesa, e a política precisa de
renovação"
No dia 19 de março, Ivan Valente subiu à
tribuna da Câmara para pedir a cassação de deputados do PL que desviaram
dinheiro de emendas. Conhecido pelo tom combativo, aproveitou para provocar os
“capachos da elite”, criticar as guerras de Donald Trump e descer a lenha em
Flávio Bolsonaro e Nikolas Ferreira.
O deputado do PSOL não mencionou, mas era seu último discurso após oito mandatos em Brasília. Suplente da federação com a Rede, ele teria que devolver a cadeira à titular Marina Silva. Sem alarde, despediu-se dos aliados e avisou que não seria mais candidato. Estava encerrando a carreira parlamentar.
“Outro dia, ouvi o Martinho da Vila dizer que
saber parar é uma virtude. Eu também estou nessa”, brinca Valente, que fará 80
anos em julho. “Foi uma decisão bem pensada. A idade pesa, e a política precisa
de renovação”, defende.
Em 2023, o veterano se submeteu a um transplante
de rim, que o afastou da Câmara por três meses. A doadora foi sua mulher, Vera
Lúcia. Perseguidos pela ditadura, os dois se conheceram na clandestinidade.
Valente passou sete anos nas sombras até ser capturado em 1977, quando militava
no Movimento pela Emancipação do Proletariado (MEP). Preso no DOI-Codi do Rio,
apanhou no pau de arara, levou choques elétricos e ficou na geladeira, cubículo
onde os presos eram confinados sem luz, água ou comida.
A tortura deixou sequelas físicas, mas não
abalou suas convicções socialistas. Depois da Anistia, ele dirigiu o jornal
alternativo Companheiro e ajudou a criar o PT. Elegeu-se para o primeiro
mandato em 1986, como deputado estadual. Mais tarde, deixaria o partido para
participar da fundação do PSOL. Tachado de radical, incorporou a palavra ao
slogan de campanha.
Como outros parlamentares de sua geração,
Valente andava desanimado com o Congresso. “O nível caiu muito, a mediocridade
está grande. Até o convívio com os adversários já foi mais civilizado”,
lamenta. “Sempre tive amigos no PSDB. Hoje a Câmara está cheia de deputados
toscos, extremistas, napoleões de hospício. Com muita gente, não dá nem para
conversar”.
Na quinta-feira, ele assistiu pela TV à
derrubada do veto ao projeto que reduz as penas de Jair Bolsonaro e seus
comparsas. “É um escárnio. Estão normalizando uma tentativa de golpe que não se
consumou por um triz”, indigna-se.
O decano do PSOL prega que o governo dê um
“giro à esquerda” para tentar sair da lona. “O Centrão já escolheu seu
candidato. Se Lula quiser ganhar a eleição, terá que virar a chave, defender
pautas que interessem aos trabalhadores e convocar a militância para voltar às
ruas. A gente precisa perder o pudor de fazer o enfrentamento”, defende.
Há três anos, a Comissão de Anistia reabriu o
processo de Valente, que havia sido arquivado no governo passado. Ele ouviu um
pedido formal de desculpas pela tortura e recebeu indenização de R$ 332 mil
pelo período em que foi impedido de trabalhar como engenheiro e professor de
matemática. Na cerimônia, quebrou o protocolo e pediu para não discursar no
local reservado, à direita da plateia. “Como jacobino, falo sempre pela
esquerda”, justificou, arrancando risadas do público.
“Em 29 anos na Câmara, nunca usei a tribuna da direita, nem em sessão solene”, orgulha-se o agora ex-deputado. Sem mandato, ele promete continuar ativo nas redes e nas ruas. Na sexta, participou de live e bateu ponto em ato pelo Dia do Trabalhador. “Posso ficar na retaguarda, mas não vou deixar de fazer política”, promete.

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