domingo, 3 de maio de 2026

Os saltos altos quebram, por Elio Gaspari

O Globo

A indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) foi o ponto alto da onipotência petista durante o Lula 3.0. Sua rejeição marcou o momento em que o salto alto do comissariado quebrou-se. No dia seguinte, com a derrubada do veto da dosimetria, quebrou-se o salto do Supremo Tribunal.

Quebrar o salto é uma coisa, andar sem ele é quase impossível. A melhor solução é descalçar o outro pé.

Se Lula tivesse indicado Rodrigo Pacheco nada disso teria acontecido. Ele teria sido aprovado, Lula e Davi Alcolumbre estariam felizes e ninguém estaria triste. Tudo bem, mas se Matisse tivesse embarcado para o Brasil em 1940, os museus teriam as Mulatas do Matisse.

Messias foi produto do consenso do Palácio, coisa perigosa, porque quase sempre esse apreço nada tem a ver com a vida lá fora. Em outubro do ano passado, logo depois da aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso, Messias já estava em campanha. Seria o jogo jogado se Lula não tivesse adicionado desaforos desnecessários.

Preterido Rodrigo Pacheco, Lula mostrou sua preferência por Messias, mesmo sabendo da contrariedade de Alcolumbre e do seu séquito. Ele sabia desde dezembro que o advogado-geral da União poderia ser rejeitado. Então, como hoje, restava-lhe o consolo de chorar baixinho.

Desde dezembro o governo vive assombrado por maus indicadores nas pesquisas, prenúncio de dificuldades com o Congresso.

Numa trapaça da sorte, Messias foi rejeitado numa quarta-feira e, no dia seguinte, o Congresso derrubou o veto de Lula ao refresco dado aos condenados pela trama golpista de 2022/2023. Deu-se a confirmação de um momento de pessimismo do general Golbery do Couto e Silva (1911-1987), bruxo do ocaso da ditadura:

“Toda vitória carrega no seu bojo uma derrota e toda derrota traz consigo outra derrota”. A derrota de Messias foi uma derrota do governo e a queda do veto ao refresco dos golpistas foi uma derrota da onipotência do Supremo Tribunal. Os ministros, alguns dos quais calçam saltos do tipo stiletto, mais altos que os dos comissários, distribuíram penas pesadas para desordeiros do 8 de Janeiro.

Basta relembrar o julgamento da cabeleireira Débora Rodrigues pela Segunda Turma do STF. Ela escreveu, com batom, “Perdeu, mané” na estátua da Justiça da Praça dos Três Poderes.

Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Flávio Dino condenaram-na a 14 anos. Cristiano Zanin deu-lhe 11 anos. A voz da sensatez veio de Luiz Fux, que ficou com uma pena de um ano e seis meses.

Débora acabou cumprindo a sentença em casa.

Essa barafunda de rigor e leniência reflete o caos jurídico alimentado pelo tribunal. Quando se trata de uma senhora, mãe de dois filhos, a questão soa simples. A complexidade da coisa muda quando o STF anula multas milionárias e confissões de empreiteiros, moendo alguns resultados da Lava-Jato.

Condenando-se a cabeleireira a 14 anos embaralharam-se as condenações e na charanga da dosimetria acabaram tomando carona o ex-presidente Jair Bolsonaro e os generais da trama golpista. O rigor da onipotência pavimentou o terreno para a leniência.

(Vale lembrar que em janeiro de 1970, quando a ditadura vivia seu período sangrento, um tribunal militar condenou a oito anos de prisão oito dos sequestradores do embaixador americano Charles Elbrick.)

Conta de Alcolumbre

Ouvido do senador Davi Alcolumbre no início da tarde de quarta-feira:

“Segure seus 30 votos que eu tenho 15”.

Messias foi rejeitado por 42 senadores.

Ventania

A rejeição de Jorge Messias prenuncia uma tempestade para 2027, quando entra na cena um Senado renovado em dois terços.

Com ministros do Supremo Tribunal Federal dobrando suas apostas contra críticas documentadas, a água vai para o impedimento de pelo menos um de seus ministros, talvez dois.

Duas cadeiras no STF são o sonho do consumo de qualquer presidente em início de mandato.

Mulher no STF

Pelo andar da carruagem, se Lula quiser paz, indicará uma mulher para a cadeira vazia do STF. A escolha blindaria a candidata.

Acima de qualquer preconceito de gênero. O Supremo Tribunal teve três mulheres: Ellen Gracie, Rosa Weber e Cármen Lúcia.

Ganha um fim de semana no resort Tayayá quem lembrar de uma só encrenca ou farofa em que qualquer uma delas tenha se metido.

Custos médicos nos EUA

O sistema de saúde dos Estados Unidos está bichado. Viva o SUS.

O New York Times mostrou que um médico com bases em Nova York e na Flórida anunciou procedimentos de redução dos seios por até 25 mil dólares, mas valendo-se de buracos nas normas, chegou a cobrar 440 mil dólares pelo serviço.

Poderia ser um ponto fora da curva, mas uma cirurgia de apendicite numa criança, sem qualquer intercorrência e menos de 24 horas de internação, custou 115 mil dólares.

Nos dois casos, quem paga é o plano de saúde.

Fila do INSS

Depois de muitas promessas descumpridas, o governo finalmente descobriu uma maneira de reduzir a fila dos segurados do INSS.

Pelo sistema atual, se um cidadão está na fila à espera de três decisões, contam-se três pedidos. Assim, a fila está em cerca de 2,5 milhões de processos.

Com a mudança, a conta poderá vir a ser feita a partir do CPF do segurado. Se ele tem três processos, contará como um só solicitante.

Mágica de burocratas, até porque se ela reduzir a fila à metade, suas vítimas continuarão na casa do milhão.

Lorota sobre o Irã

Um raio pode cair duas vezes no mesmo lugar. Em janeiro, o chefe do serviço secreto de Israel disse em Washington que na hipótese de uma guerra com os Estados Unidos, a oposição aos aiatolás derrubaria o regime.

A guerra vai para seu terceiro mês e o levante popular não se materializou.

A Casa Branca gosta de ouvir o que lhe agrada. No dia 19 de abril de 1975, o presidente de Zâmbia, Kenneth Kaunda, foi a Washington e se reuniu com o presidente Gerald Ford.

Kaunda disse-lhe que a situação de Angola estava encrencada e seus vizinhos, Zâmbia, Zaire, Tanzânia e Moçambique, não aceitariam um governo do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). Ford e Henry Kissinger acreditaram e se meteram no melê angolano.

O Movimento Popular de Libertação de Angola expulsou as facções rivais de Luanda, arrastou as fichas, e em novembro tomou o poder. Está lá até hoje.

Férias

Nos próximos quatro domingos o signatário exercerá seu direito ao ócio.

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