O Globo
A imagem é eloquente. Olhos fechados, o senador Davi Alcolumbre, sentado na cadeira da presidência do Congresso, deita o rosto no peito do senador Flávio Bolsonaro e por ele é abraçado carinhosamente. A imagem foi escolha unânime para ilustrar os jornais de sexta e é uma dessas maravilhas de síntese que o fotojornalismo produz. Ela explica a semana. Nos dias que se seguiram ao 8 de janeiro de 2023 as fotos mostraram que aquele mesmo Congresso fora alvo da violência política dos que queriam o golpe. Contra quem? Contra todos os eleitos. Um manifestante pichou no vidro quebrado do Salão Negro do Congresso: “Destituição dos Poderes”. Foi isso que o pai do senador que afagava Davi Alcolumbre estimulou no país.
Durante a quinta-feira o bolsonarismo
produziu cenas de euforia puxadas por Flávio Bolsonaro, como fizera na véspera.
No plenário, parlamentares cantaram, gritaram, fizeram coros de campanha
eleitoral como se aquilo fosse um palanque e não a sede do Poder Legislativo.
Bolsonaristas tinham razão de estar felizes. A presidência do Senado rendera-se
totalmente ao projeto que acabou vitorioso no meio da quinta-feira, quando o
Congresso disse que os que atentam contra a democracia brasileira devem ter
penas menores e sair mais rapidamente da prisão. E que podem esperar mais
benesses no futuro porque o país, que nunca antes havia punido golpistas, pode
voltar ao leito natural e perdoá-los.
Isso é mais grave do que foi dito. Não era a
segunda derrota do presidente Lula na
semana. Era a derrota do país e do seu pacto civilizatório que passa
necessariamente pelo fortalecimento da democracia. A única conclusão possível,
diante desse desfecho é que o sistema democrático permanece sob ataque no
Brasil.
Derrota
de Lula foi a rejeição do nome de Jorge Messias para ministro do
Supremo. O fato mostra que o presidente poderia ter feito melhor escolha e
prova que os articuladores do governo no Senado não souberam prever aquele
desfecho e isso é falha elementar. Veteranos na política não podem cometer tal
erro. A fala de Alcolumbre ao ouvido do líder do governo no Senado, Jaques Wagner,
é elucidativa. O “vai perder por oito” significava que Davi sabia o que se
passava no Senado e Jaques, não.
Lula tem agora nova chance. Pode escolher
melhor seu indicado. Deveria ser uma indicada. Sim, uma mulher.
Preferencialmente uma mulher negra. Existem muitas pessoas que atendem ao
requisito principal, o do notório saber jurídico. Se o que a oposição alega é
que Messias tem excessiva proximidade com o presidente, esse perfil deve ser
afastado.
Lula precisa ouvir o Lula que escolheu a
ministra Cármen
Lúcia em 2006. Tanto ela, quanto Rosa Weber,
indicada por Dilma
Rousseff, não foram escolhidas por lealdade ao governante e se tornaram
emblemáticas. Cármen deu ao país, entre outros, o voto “cala a boca já morreu”,
Rosa deixou como legado a resposta “democracia inabalada” que deu ao 8 de
janeiro. Em três anos, Cármen atinge a idade limite e o Supremo volta a ser o
túmulo da diversidade.
O presidente Lula tem que olhar para frente.
Não deveria estar preocupado em descobrir possíveis traidores na sua base para
a rejeição de Messias. Na campanha, Lula tem dois problemas graves e eles não
são as derrotas que teve no Congresso. A avaliação do seu governo permanece com
saldo negativo. Todo governante ao longo do ano eleitoral acaba melhorando a
avaliação, até Jair
Bolsonaro que perdeu a eleição. Só que começaram a melhorar antes.
Estamos em maio e nada de Lula aumentar sua aprovação. O segundo problema é a
guerra. Ela aumenta a inflação, eleva o preço dos combustíveis, pode provocar
falta de insumos para a produção de alimentos, e detém o corte dos juros. A
guerra deteriora o ambiente econômico, piora a qualidade de vida, e afeta o
humor do eleitorado.
A semana trouxe mais um dado eloquente. O Brasil melhorou 58 pontos no ranking da liberdade de imprensa da ONG Repórteres sem Fronteira desde o fim do governo Bolsonaro. O que isso significa? Exatamente o que os dados mostram. A imprensa foi atacada, ameaçada, cerceada no governo passado. Os cercadinhos em que o então presidente gritava com os repórteres, as ofensas às mulheres jornalistas, a tentativa de sonegar dados na pandemia, que só foi neutralizada pelo consórcio da imprensa, foram fatos marcantes daquele projeto autoritário. Quando o autoritarismo vence, o jornalismo é a primeira vítima.

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