O Estado de S. Paulo.
Ana Castro: esta autora é para valer. Vai
fundo, sabe o que é a vida, ironiza, arrasa
Fui à Flipoços na semana passada. Ela está hoje entre as feiras de livros que deram certo. Consolidou-se. Fiz uma mesa das mais descontraídas sobre crônica, ao lado de um expert no assunto, Humberto Werneck. O bom humor dominou, foi um divertido duelo de boutades (epa!), todo mundo descontraído. Histórias e mais histórias sobre como escrevemos uma crônica. Tive saudades do artista vidreiro Mario Seguso, vindo de Murano, sempre na primeira fila. Morreu aos 92 anos. A surpresa aconteceu quando percorri as barracas com vendas de livros. Na que tem autores locais disseram: “Leve a Ana Castro”. Apanhei o livro Contos de uma Mulher Qualquer. Curto, 38 páginas, fino, sóbrio. A mulher pode ser “qualquer”, as histórias não. Senti que estava diante de algo que chegou diferente. Forte. Daqueles primeiros livros que dizem: esta autora é para valer, vai fundo, sabe o que é a vida, ironiza, arrasa. Então, na primeira orelha do livro, dei com Glória Kalil me dizendo: “Não conheço nenhuma mulher, de nenhuma classe social, de nenhuma idade que não se reconheça em Ana Castro”. Estava dado o aval. Há anos, na verdade décadas, acompanho Glória. Trabalhamos juntos na Claudia, no esplendor da revista. Ali aprendemos a ser sintéticos. Fechávamos uma seção de páginas com notícias curtas, curtíssimas. O designer nos dizia, para cada assunto – Título: 9 letras (ou seja caracteres). Texto: 3 linhas com 23 letras cada uma. Ou Título: 21 letras. Texto: 9 linhas com 17 caracteres. Sofríamos, mas aprendemos a regra fundamental de Graciliano Ramos: sintetizar ao máximo. Dizer sem enfeitar. Normas que ambos aproveitamos em nossos livros. Glória foi uma influencer de nomeada em seu assunto, a moda.
Sentei-me na chocolateria Lascaux, no Palace
Hotel, tradicional e conservadíssimo. Há quem preze a memória. Que inveja para
nós paulistanos, que só assistimos à depredação. Mesmo diabético, ousei atacar
chocolates preciosos. Que meu médico Venceslau não me leia.
Degustem um trecho, apenas um trecho, de um
texto angustiante. O da mulher que, chorando com olhos secos, pede: “Por que
você não quer ver o que quero te mostrar? Não quero. Não verei. Não pode fazer
isso por mim? Compartilhar comigo uma imagem?
Eu não quero.
Eu vou forçar suas pálpebras com meus dedos,
e mesmo que você esteja cego vai olhar.
Mas eu não vou ver”. Obrigado, Ana Castro. Obrigado, Glorinha, por me abrir os olhos e ver.
*É jornalista e escritor, autor de 'Zero' e 'Não verás país nenhum'

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