domingo, 26 de abril de 2026

A caixinha da repressão, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Telegramas reunidos em novo livro revelam que Fiesp criou falso fundo educacional para financiar centro de tortura

No fim de 1971, o comandante do II Exército, general Humberto de Sousa Melo, procurou a Fiesp com um pedido. Queria dinheiro dos empresários paulistas para montar o DOI-Codi, sucessor da Operação Bandeirante.

O americano Thomas Romanach, presidente da General Electric do Brasil, foi convidado para as conversas. Entusiasmado com o que ouviu, recrutou outros executivos de multinacionais para abastecer a caixinha da repressão.

As reuniões são detalhadas em “Olhares ianques: A ditadura brasileira nos arquivos americanos”, novo livro do historiador Felipe Loureiro. Professor da USP, ele leu centenas de telegramas diplomáticos em busca de novos dados sobre a colaboração entre o empresariado e os porões do regime.

Num dos encontros, o general Humberto disse falar em nome do ditador Emílio Médici, exaltou a “luta contra a subversão e o terrorismo” e se queixou da “escassez de recursos do II Exército para prosseguir com esse combate”.

Era a senha para começar a passar o pires. O militar pediu doações para comprar armas, veículos e aparelhos de comunicação. Também enfatizou a necessidade de “construir e equipar uma sala para interrogar prisioneiros” — referência pouco sutil ao local onde presos políticos seriam torturados.

As tratativas eram relatadas a Washington por diplomatas graduados, como o embaixador William Rountree e o cônsul Robert Corrigan. Além de Romanach, os telegramas identificam a participação dos executivos americanos Mack Verhyden, da Caterpillar, e Lou Rossi, da DuPont. Do lado brasileiro, as conversas eram lideradas pelo presidente da Fiesp, Theobaldo de Nigris.

O apoio das multinacionais foi selado em almoço com o comandante do II Exército na Câmara Americana de Comércio. Além do presidente da Fiesp, foram ao repasto outros seis figurões do empresariado paulista: Nadir Dias de Figueiredo, Luís Dumont Villares, Carlos Eduardo Paes Barreto, Daniel Machado de Campos, José Papa Júnior e Justo Pinheiro da Fonseca.

Os telegramas revelam uma artimanha para mascarar o financiamento do DOI-Codi. As empresas doavam o dinheiro a um falso fundo educacional da Fiesp, que emitia recibo e repassava os recursos à repressão. Em conversa com o embaixador Rountree, o presidente da General Electric defendeu a gambiarra. Disse que “meios heterodoxos e às vezes estranhos de fazer as coisas” não eram incomuns no Brasil.

Fantoches políticos

O vídeo da campanha de Romeu Zema que irritou o ministro Gilmar Mendes recicla uma técnica antiga: o uso de fantoches na sátira política.

Os bonecos foram popularizados pelo Spitting Image, lançado em 1984 pela britânica ITV. O programa debochava da família real, da premiê Margaret Thatcher e da oposição trabalhista.

O formato foi importado por Agildo Ribeiro, que também fazia humor suprapartidário. Interagia com fantoches de Sarney, Brizola, Lula, Collor e Maluf.

Agildo no País das Maravilhas estreou em 1987 na TV Bandeirantes. Seu tema de abertura continua atual: “Ai, Brasil! Ai, Brasil! Qualquer dia a gente acorda, vai olhar e ele sumiu...”.

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