O Globo
Ofensiva contra indicado do presidente teve
ajuda de ministros do STF como Alexandre de Moraes
Um dia antes de o Senado
Federal derrotar a indicação de Jorge Messias para
ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Davi
Alcolumbre (União Brasil-AP)
mandou um recado aos senadores da oposição bolsonarista. Se perdessem a
oportunidade de derrubar o indicado de Lula no
plenário, que não viessem lhe pedir para colocar em pauta um dos cerca de cem
pedidos de impeachment de ministros que ele mantém engavetados. No dia
seguinte, o mesmo Alcolumbre, conhecido por nunca atender o celular, passou o
tempo todo ao telefone falando com qualquer parlamentar que tivesse condição de
ajudá-lo. Nas conversas, variações do mesmo tema — faça seu papel que farei o
meu —, terminando sempre com “hoje será um dia histórico”.
Com o primeiro vaticínio confirmado, dois novos passaram a ser ouvidos em Brasília. O primeiro: o governo “acabou”. Outro: o próximo passo é o impeachment de ministros do Supremo. É difícil cravar agora com 100% de certeza se tais previsões se confirmarão.
Um teste importante ocorre já hoje, quando o
Congresso avalia o veto de Lula ao projeto que abre espaço à redução de pena
dos condenados pelo 8 de Janeiro, aprovado em dezembro por ampla maioria. Há
pouca dúvida de que o veto de Lula será derrubado. Isso, além de agravar a
crise no governo, também fará aumentar a cotação de Flávio
Bolsonaro (PL-RJ)
nas bolsas de apostas para a campanha presidencial.
Se há algo mais que comprovado pela
experiência, é que, assim como as piranhas da Amazônia, os políticos partem
para o ataque quando sentem o cheiro de sangue. Outra máxima é que a
perspectiva de poder atrai, e isso explica o movimento de alas do Centrão, sem
as quais o nome de Messias nunca teria sido rejeitado no plenário.
Não é segredo para ninguém que Alcolumbre se
lançou na disputa com o Palácio do Planalto depois que o presidente da
República decidiu não indicar Rodrigo
Pacheco (PSB-MG)
à vaga aberta com a aposentadoria de Luís Roberto
Barroso, ainda no ano passado. De lá para cá, ele nunca deixou de
dizer que se sentiu traído pelo governo. Nos últimos dias, repetiu algumas
vezes a interlocutores: “O que fizeram comigo não faço com ninguém”. E se
mostrava decidido a mostrar a Lula quem manda de verdade.
Mas, pragmático, muito provavelmente teria
cedido se achasse que teria mais a lucrar que a perder. Foi o que fez nestes
três anos de governo, sempre lucrando. Se não fez agora, é porque chegou à
conclusão de que o jogo eleitoral está virando e decidiu pular do barco antes
que ele afundasse.
Daí o discurso propagado nos bastidores não
só pelo próprio Alcolumbre, mas também pelos líderes da oposição, segundo o
qual a derrota de Messias era o “impeachment possível”. O mesmo diagnóstico foi
feito por ministros do governo que estavam no plenário na noite de ontem, ao
afirmar que o candidato de Lula era julgado por crimes que não cometeu.
É aí que entra um outro xadrez: o do próprio
STF. Por mais paradoxal que possa parecer, a vitória de Messias também não
interessava ao maior aliado de Alcolumbre no Tribunal, Alexandre de
Moraes. Para este, a nomeação de Messias poderia desequilibrar o
jogo de forças no Supremo e dar ainda mais poder a André
Mendonça, o relator do caso Master que se tornou seu principal
antagonista na Corte.
Moraes sabe que tem muito a perder se as
investigações sobre os esquemas de Daniel
Vorcaro e o contrato de
R$ 130 milhões de sua mulher com o Banco Master continuarem
avançando. E não se furtou a mandar, ele mesmo, recados a senadores com
processos ou inquéritos pendurados no STF, para que pensassem em seus próprios
interesses ao apertar os botões no plenário.
Moraes obviamente não ignora que a derrota de
Messias assanha a oposição a trabalhar por seu impeachment. Mas conta com a
blindagem do amigo Alcolumbre, igualmente enrolado com o Master, entre outras
coisas em razão do investimento de R$ 400 milhões que o fundo de pensão
do Amapá,
seu estado, fez em papéis do banco. Alcolumbre precisa de Moraes forte, por
isso as chances de algum pedido de impeachment de ministro ser submetido ao
plenário é menor que zero.
O que interessa para eles é o fato de a
derrota de Messias lhes dar tempo para planejar os próximos passos. Certamente
já planejaram como faturar com a grande ajuda que acabam de dar a Flávio ao
humilhar Lula no plenário, de preferência encontrando uma forma de enterrar o
caso Master no Supremo nos próximos meses. O problema em casos assim é sempre o
mesmo: quem instala o caos nem sempre é capaz de controlá-lo. O jogo pode ter
virado agora, mas ainda está muito longe de acabar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário