domingo, 15 de março de 2026

Polícia no palanque, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Operação contra vereador aliado de Paes reaviva suspeita de uso político de investigações

Na manhã de quarta-feira, a Polícia Civil do Rio prendeu o vereador Salvino Oliveira numa operação batizada de Red Legacy. Pouco depois, o governador Cláudio Castro foi às redes anunciar a captura do “braço direito do Comando Vermelho dentro da Prefeitura do Rio”.

“Esse é o mesmo vereador que vivia atacando nosso governo e as polícias. Hoje, finalmente, estamos conhecendo o seu real lado: trabalhava para bandido e não para o povo!”, festejou.

Numa das cenas do vídeo publicado pelo governador, um agente vasculha o armário de Salvino e levanta uma placa de campanha com a foto de Eduardo Paes. Era um sinal de uso da polícia para atingir adversários políticos.

Logo surgiriam outros. Para embasar o pedido de prisão, a polícia de Castro citou o fato de o vereador se apresentar como “cria” da Cidade de Deus. Sua presença numa comissão que debateu políticas públicas para favelas virou indício de “instrumentalização do mandato em benefício do crime”.

O discurso parece reavivar velhos preconceitos contra moradores de favelas. E transfere do Estado para os habitantes a responsabilidade pelo domínio armado de territórios.

Em outro vídeo sobre o caso, o secretário da Polícia Civil, Felipe Curi, associa o vereador ao “narcoterrorismo”. Assíduo nas redes, o delegado deve se lançar candidato na chapa de Castro.

No relatório da investigação, a polícia transcreve uma mensagem em que um certo “Corretor Gardênia Melhoria” pergunta ao traficante Edgar Alves de Andrade, o Doca, se o vereador estaria “autorizado” a atuar na comunidade da Gardênia Azul. O criminoso responde com uma chamada de voz, cujo conteúdo não é conhecido.

Salvino é citado, mas não participa do diálogo. Mesmo assim, foi acusado de associação criminosa, corrupção ativa e lavagem de dinheiro. O delegado Pedro Cassundé acrescentou que o vereador teria incorrido em “hipocrisia”, ainda não tipificada no Código Penal. O motivo: ele criticou o envolvimento de políticos com o crime após a prisão do deputado Rodrigo Bacellar, aliado do governador.

Alvo de questionamentos, a polícia afirmou ter outras provas contra o aliado de Paes. Se for verdade, faltou citá-las nos autos. Na sexta-feira, o desembargador Marcus Basílio revogou a prisão. Anotou que seu fundamento era “bastante precário”, sustentando-se numa conversa de terceiros em março de 2025.

Castro sabe que é ter aliados em apuros. Na segunda-feira, a Polícia Federal prendeu Alessandro Carracena, seu ex-secretário de Esporte, em outra operação contra o tráfico. Ele foi o quarto secretário ou ex-secretário do governador a ir em cana por suspeitas semelhantes. Antes dele, caíram Allan Turnowski, por ligação com bicheiros, Raphael Montenegro, suspeito de negociar com o CV, e o próprio Bacellar, acusado de vazar investigações sigilosas.

O governador tem mais razões para estar ansioso. O Tribunal Superior Eleitoral marcou para dia 24 a retomada do julgamento que pode cassá-lo. E as apurações do caso Master devem avançar sobre a gestão temerária do Rioprevidência, que enterrou R$ 1 bilhão em títulos podres de Daniel Vorcaro.

O uso da polícia como arma política não é novidade em eleições no Rio. Em 2018, outra ação espetaculosa abriu caminho à vitória de Wilson Witzel. Castro conhece bem essa história: era o vice do ex-juiz.

 

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