Valor Econômico
O custo dos alimentos é central para a
popularidade do presidente Lula
A eleição presidencial deste ano dá sinais de que será apertadíssima — e o fiel da balança pode vir do Oriente Médio. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou 2026 com uma aprovação de 48%, mas viu esse percentual recuar para 44%. Sua vantagem sobre os candidatos de oposição se evaporou, e várias pesquisas agora mostram Flávio Bolsonaro à frente do presidente em simulações de segundo turno por um ponto percentual, dentro da margem de erro.
Historicamente, a aprovação de um governante
sobe nos meses que antecedem a eleição, seja em virtude de programas
implementados que aumentam sua popularidade, seja porque o governo tem tempo
para “vender seu peixe” ao eleitorado. Esse movimento ainda pode acontecer no
Brasil: o governo está prestes a anunciar um programa de renegociação da dívida
das famílias, e o Congresso caminha para aprovar o fim da escala 6x1. Ambas as
medidas podem trazer algum ganho para a candidatura de Lula e explicam, em
parte, por que a Eurasia Group ainda o considera um ligeiro favorito.
Neste cenário, a maior ameaça à reeleição do
presidente está a milhares de quilômetros: no Oriente Médio. Nas reuniões do
Fundo Monetário Internacional realizadas em meados deste mês em Washington, os
presentes discutiram não apenas as repercussões do fechamento do Estreito de
Ormuz, mas também se a crise está caminhando para o fim. O consenso foi que,
caso a guerra não termine em breve, a restrição da oferta de combustíveis e
fertilizantes gerará fortes repercussões inflacionárias. O Brasil está mais bem
posicionado que seus pares por ser um produtor de petróleo. Mas o choque
inflacionário de uma guerra prolongada certamente pode gerar um buraco político
grande demais para que Lula consiga escapar.
Se, entre janeiro e março, a queda na
aprovação do presidente veio provavelmente na esteira do escândalo do Banco
Master, que aumentou a relevância do tema corrupção entre os eleitores, agora é
a guerra no Oriente Médio — através de seus reflexos econômicos — que pode
começar a prejudicar os números de Lula. E a crise já deu seus primeiros
sinais: no último mês, a gasolina e o diesel tiveram altas de dois dígitos nas
bombas, e os preços dos fertilizantes começaram a afetar os alimentos,
alimentando o mau humor da população com o custo de vida. Uma pesquisa
Genial/Quaest realizada em abril mostra que 72% acham que os preços dos
alimentos subiram nos mercados, ante 58% que reportaram o mesmo em março. Já a
parcela dos pesquisados que afirmaram que seu poder de compra caiu em relação
ao ano passado subiu de 64% em março para 71% este mês.
Parte da alta de preços dos alimentos é
sazonal. Mas se os governos dos EUA e do Irã não chegarem a um acordo em breve,
os preços nas gôndolas tendem a subir ainda mais. Não tanto como efeito da alta
do petróleo (o governo tem instrumentos para mitigar a alta do diesel e de
combustíveis com subsídios e redução de impostos), mas pela falta de
fertilizantes e diesel se o trânsito pelo Estreito de Ormuz não for normalizado
ao longo de maio. Nesse caso, a capacidade do governo para conter a alta de
preços será muito mais restrita.
Muitos analistas argumentam que a eleição
deste ano não será definida pela economia. Mas basta ver o comportamento dos
índices de aprovação de Lula em 2025 para averiguar o quão central é o custo
dos alimentos para sua popularidade. A alta de quase 8% nos preços dos
alimentos vista entre o final de 2024 e o início de 2025 puxou a queda na
aprovação de Lula de 49% para perto de 42% no primeiro semestre do ano passado.
Já a recuperação dos números do presidente, que muitos atribuíram ao tarifaço
do governo norte-americano, deveu-se principalmente a cinco meses de deflação
nos preços dos alimentos no segundo semestre.
Assim, os desdobramentos da guerra no Irã ao
longo de maio podem ser decisivos para os resultados da eleição brasileira de
outubro. Se Washington e Teerã chegarem a um acordo que leve ao início de uma
abertura do Estreito (o que a Eurasia Group considera provável), o impacto inflacionário
tende a ser transitório. O presidente Lula ainda veria sua aprovação cair em
maio com o aumento de preços decorrente da crise, mas essa tendência poderia
ser revertida ao longo de junho e julho — apoiada não só no fim da escala 6x1 e
no programa de renegociação de dívida, mas pelos programas aprovados em 2025,
cuja implementação está sendo concluída agora, incluindo as ampliações do Gás
do Povo e da Tarifa Social e a isenção do Imposto de Renda para a classe média.
Se, no entanto, a crise no Irã persistir (uma
possibilidade real) e a renda das famílias for afetada, as repercussões para os
consumidores brasileiros serão maiores — e podem fazer a diferença no resultado
das urnas.
*Christopher Garman é diretor-geral do Eurasia Group.

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