O Estado de S. Paulo
Romeu Zema testa-desafia o projeto-fachada de moderação de Flávio Bolsonaro, ou lhe oferece-amplia as condições para que se venda como moderado? Seria jogo combinado, Zema avançando para que Flávio pudesse exibir reforçar a imagem de “Bolsonaro ponderado”? Esse Zema de texto radicalizado, que denuncia-enfrenta ministros do Supremo, forçará-obrigará “o Bolsonaro que não é louco” a se mexer e expor a própria natureza; ou, situando-se à direita do “Bolsonaro que come de garfo e faca”, empurraria-ajudaria Flávio a se mover para o centro?
Não há dúvida de que a coragem do
ex-governador de Minas Gerais – o cronista se refere à percepção do eleitor –
perturbe, fira mesmo, o sistema de crenças-valores bolsonarista, erguido sobre
a propriedade do confronto conflito e constituído sob o monopólio do discurso
antissistema; daí por que o bolsonarismo de extração eduardista já se lance
contra a ameaça Zema. Flávio Bolsonaro solta – já soltou – os seus cachorros.
Quanto a ele próprio: morderá? Poderá não morder? Poderá terceirizar a mordida?
Porque não se trata somente de Zema percebido como o que não tem rabo preso nem
telhado de vidro. Trata-se, por oposição, de o senador encaixotado como com
rabo preso e sob telhado de vidro. Jogo combinado?
É grande a pressão para que morda; para que
dê satisfação sanguínea a uma militância forjada na beligerância e incomodada
com o candidato – o mitinho, filho do mito – que presta “apoio” e se posiciona
a reboque do representante da linha auxiliar Partido Novo. A ver, a propósito,
se não estaria Zema afinal trabalhando por subir o preço do que era, até faz
pouco, apoio banal e aliança quase automática. A ver também se terá lastro
individual para sustentar a persona até as urnas. A carga para que Flávio reaja
aumentará – desafiará a manutenção da máscara de paz e amor – caso Zema cresça
nas pesquisas e se acerque dos 10%.
Não é a hipótese mais provável – a do
crescimento competitivo de Zema. Tampouco deve ser possibilidade descartada.
Por uma razão: o caso Master, cuja geração de instabilidade-imprevisibilidade,
a mesma que derrubara Lula da condição de reeleito e dera a Flávio Bolsonaro o
privilégio de se beneficiar da crise mesmo jogando parado, agora tornou Romeu
Zema – também graças ao marqueteiro Gilmar Mendes – o pauteiro do debate
público eleitoral, capaz de tirar o bolsonarismo da zona de conforto. Ninguém
imaginava.
Ninguém compreendeu e explora a natureza do caso Master como a equipe de Zema. Este é o fator Zema: menos a sua capacidade atual de concorrer à Presidência com chances de vencer; e mais a forma influente como a sua campanha leu e reage materialmente ao mercado de desejos eleitorais. A série de filmetes satíricos sobre “os intocáveis de Brasília” é primor de aplicação concentrada dos sentimentos difusos do brasileiro que decidirá a eleição em 2026. O caso Master desafia jogos combinados e abre a fenda a partir da qual o imponderável – o Zema pauteiro, por exemplo – exercita-se.

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