segunda-feira, 4 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Discursos farsescos de Lula e Flávio

Por Folha de S. Paulo

Petista posa de antissistema, e filho de Bolsonaro renega ajuste fiscal discutido com empresários

É provável que radicalismo e moderação venham a ser apresentados conforme as conveniências, sobretudo ao tratar das contas públicas

Com índices de aprovação frágeis, más notícias nas pesquisas de intenção de voto e uma derrota histórica em sua indicação para o Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abraçou o populismo em seu pronunciamento por ocasião do Dia do Trabalho.

"Cada vez que damos um passo adiante para melhorar a vida do povo brasileiro, o sistema joga contra. O andar de cima, os bilionários, a elite que só pensa em manter privilégios às custas do povo. Se dependesse do sistema, nem a escravidão teria sido abolida no Brasil", discursou.

Parece cômica a retórica antissistema vinda de um político com o histórico de Lula —em seu terceiro mandato presidencial graças à anulação pelo Supremo Tribunal Federal, por questões formais, de suas condenações por relações promíscuas com grandes empreiteiras. Mas a escolha da palavra não é por acaso.

Duas semanas atrás, falando em um evento de esquerda na Espanha, o petista reclamou da perda da bandeira antiestablishment para a ultradireita. "Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende que, agora, o outro lado se apresente como antissistema", disse, conforme reportou O Estado de S. Paulo.

É notável que, entre uma declaração e outra do líder, o PT tenha realizado um congresso em que mostrou o objetivo de evitar polêmicas e atrair setores do centro político. Afinal, se discursos radicais inflamam seguidores fiéis, a disputa presidencial pode ser decidida, mais uma vez, por eleitores avessos à polarização.

Cálculo semelhante é feito nas hostes de Flávio Bolsonaro (PL), hoje empatado com Lula nas simulações de segundo turno —e empenhado na missão inglória de parecer mais moderado que o pai condenado por tentativa de golpe de Estado.

Flávio embarca no golpismo paterno ao lançar dúvidas sobre a lisura do processo eleitoral brasileiro em um evento extremista nos Estados Unidos, mas por aqui procura parecer um candidato responsável ao discutir com empresários propostas para reformas fiscais vigorosas em 2027, como noticiou a Folha.

Nem isso, porém, ele se dispõe a defender abertamente, por temer que ideias como interromper o aumento acima da inflação do salário mínimo e dos gastos com saúde e educação lhe custem votos. Ao que parece, pretende prometer reequilíbrio orçamentário sem detalhar medidas difíceis, como na proverbial omelete sem quebra de ovos.

Não espantam os malabarismos retóricos numa corrida em que os líderes na preferência dos votantes são também campeões em rejeição. É provável que radicalismo e moderação venham a ser apresentados conforme as circunstâncias e conveniências, sobretudo ao tratar do imperativo ajuste das contas públicas.

Perdem os eleitores, aos quais serão oferecidos, em vez de opções programáticas, discursos farsescos —e, muito possivelmente, um governo tumultuado.

O cenário complexo diante dos bancos centrais

Por Folha de S. Paulo

Americano Fed e congêneres optam por manter juros inalterados devido aos riscos inflacionários da guerra

Nos EUA, a política fiscal expansionista de Trump aguça a demanda para além do ciclo de investimentos em inteligência artificial

A esta altura, é ocioso apontar que a guerra no Oriente Médio turvou o cenário econômico mundial que se anunciava positivo neste 2026. O aumento do custo de energia elevou os riscos de inflação e mudou a conduta dos principais bancos centrais, que até então planejavam cortar seus juros.

É o caso do americano Federal Reserve, que decidiu manter a taxa básica entre 3,5% e 3,75% ao ano na reunião da semana passada, com a justificativa da inflação elevada pelo choque de oferta, ainda num contexto de solidez da atividade econômica.

O diagnóstico é compartilhado por alguns de seus principais congêneres, que também optaram por não alterar o custo do dinheiro, casos do Banco Central Europeu, do Banco da Inglaterra, do Banco do Canadá e do Banco do Japão.

Diante das crescentes incertezas globais provocadas pela guerra no Irã, as autoridades monetárias priorizam neste momento a vigilância sobre a inflação.

Os mercados de energia ilustram bem os riscos. Na semana passada, os preços do petróleo Brent atingiram as máximas desde o início do conflito, superando US$ 126 por barril em determinados momentos.

As estimativas para o segundo semestre apontam cada vez mais para cotações acima de US$ 90, diante da possibilidade de disrupções prolongadas. O impacto se espalha pela cadeia de derivados, elevando os preços de insumos industriais em cascata.

Além da guerra, há fatores que sugerem baixo risco recessivo por ora e que podem amplificar as pressões inflacionárias.

Nos Estados Unidos, a política fiscal expansionista do governo Donald Trump, com pacote de cortes de impostos, aguça a demanda na economia para além do ciclo de investimentos em inteligência artificial. Na Europa, os gastos com rearmamento e infraestrutura fazem o mesmo.

Não surpreende, portanto, que o comitê do Fed tenha registrado incomum dissenso na decisão. Três membros se posicionaram contra a sinalização de afrouxamento da política monetária, defendendo uma visão dos riscos que inclua a possibilidade de elevação de juros caso a inflação não retorne à meta de 2%.

O cenário, de fato, é de complexidade excepcional. A interrupção do fornecimento de energia pode trazer escassez de insumos. Já a geopolítica e a corrida tecnológica apontam para um dinamismo econômico persistente, a despeito das incertezas. Não por acaso, os mercados globais de ações operam nas máximas históricas, mesmo em meio à guerra.

Justiça Eleitoral tem de vetar candidaturas ligadas ao crime

Por O Globo

Diversos episódios recentes expuseram tentativas de infiltração das organizações criminosas no Estado

A tentativa de infiltração das organizações criminosas nas instituições da República deve ser uma das principais preocupações em relação às eleições de outubro. A Justiça Eleitoral tem de estar preparada para filtrar os milhares de candidatos ao Legislativo, tanto em nível estadual quanto federal, ou mesmo ao Executivo. As duas maiores facções criminosas do país, Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), operam em escala nacional e têm ampliado suas conexões políticas. É essencial barrar esse movimento, que tem se tornado mais evidente numa série de episódios recentes.

O deputado estadual TH Joias se elegeu como suplente pelo MDB, assumiu assento na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) e o manteve até serem descobertas suas conexões com o CV. Foi preso e cassado. O episódio expôs também o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União) — ele perdeu o mandato e permanece preso, sob a acusação de ter alertado TH Joias sobre a operação da PF que o prenderia.

Em São Paulo, uma operação conduzida em abril de 2024, antes da última eleição municipal, pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado, do Ministério Público (MP), e pela PM resultou na prisão de três vereadores da Região Metropolitana e da Baixada Santista, acusados de ligações com o PCC. De acordo com as acusações, eles estavam envolvidos em licitações públicas de interesse do PCC. Queriam se reeleger, mas não conseguiram.

Na semana passada, uma nova operação liderada pela Polícia Civil paulista resultou na prisão de um ex-vereador de Santo André, também acusado de manter conexões com o PCC. Foram expedidos mandados de busca e apreensão na capital, em Ribeirão Preto, Guarulhos, Santo André, Mairinque, Campinas e Santos, além de Goiânia, Brasília e Londrina. A fintech 4TBank era usada para lavar dinheiro da facção.

Ações de facções criminosas ou milícias para atuar no mundo bilionário das licitações públicas têm de ser reprimidas. Já existe experiência acumulada na abordagem do problema por parte da Justiça Eleitoral, como afirmou ao GLOBO o presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ), Claudio de Mello Tavares. Foi criado em março um grupo de trabalho permanente com a participação de Ministério Público, polícias Federal, Civil e Militar, Comando Militar do Leste e secretarias estaduais de Segurança e Administração Penitenciária. Ele produzirá relatórios de inteligência sobre candidaturas que demonstrem “indícios robustos de vínculo com grupos criminosos”.

Nas eleições municipais de 2024, foi aplicado pela Justiça Eleitoral o entendimento de que esses “indícios robustos” podem levá-la a não conceder registro de candidatura mesmo a quem não esteja enquadrado na Lei da Ficha Limpa, que veta candidatos com condenação na segunda instância. Foi o caso de um vereador de Belford Roxo (RJ) que tentava a reeleição. Por ser ligado a uma milícia, o TRE-RJ rejeitou sua candidatura, e a decisão foi confirmada pelo Tribunal Superior Eleitoral. É necessário que esse tipo de entendimento seja estendido pelos TREs a todo o país para evitar que o crime organizado continue a tentar se apoderar das instituições. A Justiça Eleitoral deve analisar com o maior rigor os pedidos de registro de candidaturas Brasil afora.

Expansão do carro elétrico requer mais postos de recarga e mais segurança

O Globo

Rede de eletropostos ainda deixa a desejar — e veículos se tornaram os mais visados em furtos e roubos

O aumento na circulação de carros elétricos e híbridos no Brasil acompanha uma bem-vinda tendência mundial. Eles são mais silenciosos e menos danosos ao meio ambiente. Embora ainda representem em torno de 1% da frota de automóveis — dominada por motores a combustão movidos a gasolina, diesel ou etanol —, o crescimento é inexorável, dado o barateamento das baterias e a volatilidade ainda associada ao preço do petróleo. O país deveria se preparar para essa nova realidade, oferecendo infraestrutura e segurança.

Nos três primeiros meses do ano, houve crescimento de 90% na venda de eletrificados no Brasil, na comparação com o mesmo período de 2025. Mas a infraestrutura não acompanha essa expansão. Como mostrou reportagem do GLOBO, até o fim de fevereiro havia 21 mil eletropostos no país, em média um ponto de carregamento para quase 30 veículos. Na China, que tem a maior frota de eletrificados no mundo (40 milhões), há 16,7 milhões de eletropostos, um ponto para 2,3 automóveis.

A distribuição dos pontos de carregamento também é desigual. Cerca de 80% ficam no Sudeste. Além disso, a maior parte desses equipamentos é lenta (leva de uma hora e meia a duas horas para completar uma bateria vazia). Os carregadores mais modernos podem levar até 30 minutos, mas custam mais de R$ 500 mil. Há dificuldades também para carregar veículos nos condomínios. Obstáculos como esses têm levado motoristas a optar por híbridos, que funcionam também com combustíveis fósseis.

Em São Paulo, que reúne a maior frota de carros eletrificados do país (85 mil), o estado fez bem em sancionar uma lei estabelecendo regras para instalação de estações de recarga em edifícios residenciais e comerciais. Pela lei, o condomínio não pode impedir a instalação, mas existem normas a seguir, especialmente para prevenir incêndios. Seria desejável que outros estados trilhassem o mesmo caminho.

A segurança também merece atenção, uma vez que esses carros têm atraído os olhares dos bandidos. No estado do Rio, roubos e furtos de veículos elétricos e híbridos cresceram 144% nos três primeiros meses do ano em comparação ao mesmo período de 2025. A cada dia são registradas quatro ocorrências. Quando são considerados veículos de todos os tipos, o aumento foi de 18%. A alta tem impacto no preço do seguro. A tendência, segundo a polícia, pode ser explicada não só pela inclinação dos traficantes à ostentação, mas também pela comodidade de carregar os automóveis dentro das favelas, sem necessidade de ir a postos.

A despeito das dificuldades, parece claro que a eletrificação da frota é caminho sem volta. Estudo da Bright Consulting estima que os elétricos e híbridos somem 1,4 milhão até 2030, mais que o dobro dos atuais 628 mil. Não resta alternativa a não ser se adaptar. No mínimo, é preciso aumentar a oferta de eletropostos e garantir ao cidadão que possa rodar em segurança, independentemente da tecnologia de seu automóvel.

Messias, dosimetria e autopreservação, por Lara Mesquita*

Folha de S. Paulo

Episódios da semana revelam os custos de um governo minoritário diante de um Congresso ideologicamente distante

Caso Master agrava o quadro ao aumentar os incentivos para acordos defensivos

rejeição, pelo Senado, da indicação de Jorge Messias para o Supremo e a derrubada, pelo Congresso, do veto presidencial ao PL da Dosimetria, lei que afrouxa punições e beneficia diretamente os condenados pelo 8 de Janeiro, não são episódios isolados. Expressam os limites de um governo de esquerda minoritário diante de um Congresso com maioria de centro-direita e direita.

E revelam mais: em momentos de crise e autoproteção institucional, a distância ideológica entre presidente e maioria legislativa torna-se ainda mais custosa. O caso Banco Master, com suas conexões políticas e judiciais, agrava esse quadro ao aumentar os incentivos para acordos defensivos entre atores que têm pouco interesse em fortalecer o Executivo.

Lula, o affair Messias e o presidencialismo de coalizão, por Marcus André Melo*

Folha de S. Paulo

A participação ativa de ministros no episódio inaugura uma lógica de facções judiciais

A governabilidade brasileira já não se organiza apenas pela distribuição de ministérios e orçamento, mas também pela disputa sobre o STF

A rejeição da indicação de Messias ao Supremo não pode ser lida apenas como derrota do Executivo, nem apenas como reação do Centrão à escolha unilateral de Lula. Seu aspecto mais relevante é a evidência de uma articulação envolvendo lideranças do Senado e setores do próprio Supremo. O que veio à tona foi uma dinâmica inédita: a Corte não aparece apenas como instância de controle externo sobre Executivo e Legislativo, mas como ator que interfere no processo político de sua própria composição.

Opinião do dia – Alexis de Toqueville*

“Cada um propunha seu plano: este apresentava-o nos jornais, aquele nos cartazes que logo cobriram os muros, o outro, pela palavra, aos quatro ventos. Um pretendia eliminar a desigualdade das fortunas, outro a das luzes, um terceiro aspirava a nivelar a mais antigas das desigualdades, a existente entre o homem e a mulher; receitavam-se medicamentos específicos contra a pobreza e contra o mal do trabalho, que atormenta a humanidade desde que ela existe.”

*Alexis de Toqueville (1805-1859), “Lembranças de 1848”, p. 117, Companhia das Letras, 2011.

Poesia | Não tenho pressa. Pressa de quê? - de Fernando Pesso

 

Música | Gal Costa & Zeca Baleiro - Vapor Barato ( Zeca Baleiro)