segunda-feira, 23 de março de 2026

Campanha tem batalha de rejeições entre Lula e Flávio Bolsonaro, por Joelmir Tavares

Valor Econômico

Parcela de eleitores que rechaça votar em um ou outro será elemento decisivo, se polarização captada nas pesquisas continuar

A liderança de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro nas pesquisas, a sete meses da eleição presidencial, evidencia o peso da rejeição aos pré-candidatos, que deve se tornar um ingrediente importante da disputa, caso o cenário de polarização continue.

Os percentuais de eleitores que se recusam a votar no atual presidente - que deve ser o representante do PT na corrida - e no senador - indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para concorrer pelo PL - podem ser decisivos. Segundo especialistas, a possibilidade de que a eleição vire uma espécie de batalha de rejeições é um reflexo da divisão ideológica acentuada, algo que já tinha aparecido em 2022.

Na prática, o efeito de antecipação do segundo turno já para o primeiro pode ser um novo teste de forças entre antipetismo e antibolsonarismo. Desta vez, Lula se encaminha para a disputa sob o desgaste natural de todo incumbente e de alguém com a trajetória de três mandatos e seis campanhas desde 1989. Flávio herda a aversão ao sobrenome do pai, além do próprio histórico.

Em pesquisas deste mês, a rejeição a Lula bateu 56% na sondagem da Genial/Quaest e 46% na do Datafolha. Flávio registrou, respectivamente, 55% e 45%.

A esta mesma altura do ciclo eleitoral, há quatro anos, o então presidente Jair Bolsonaro tinha rejeição de 63% na Quaest (que estaria em 55% na véspera do primeiro turno) e de 55% no Datafolha (que iria para 52% em outubro). Lula tinha em março, respectivamente, 42% e 37% (chegando a outubro com 44% e 40%).

Segundo Maurício Moura, fundador do instituto de pesquisa Ideia, um contexto político bipolar como o vivido no Brasil e nos Estados Unidos pode levar o eleitor a votar pensando mais naquilo que não quer, do que naquilo que realmente deseja. “É um fenômeno global, que está por trás da base de rejeição muito forte que governantes têm já na partida, começando o mandato já com praticamente metade do país declarando rejeição”, diz.

Uma das consequências projetadas por Moura é um resultado eleitoral com margem estreita, por causa do contingente limitado de votantes que podem ser persuadidos. “A eleição vai ser decidida por 3% a 4% do eleitorado, que é a diferença entre os que acham que o governo merece continuar e os que acham que não. A margem que vai ser operada é de cerca de 4,5 a 5 milhões de votos”, afirma o pesquisador.

Pelo lado das campanhas, a rejeição a um candidato é historicamente um desafio para os partidos, pela dificuldade de reversão. Estratégias para neutralizar a imagem negativa podem funcionar, mas a experiência mostra que a resistência não muda significativamente durante a corrida, de acordo com Moura. Em pleitos muito acirrados, qualquer minúcia pode ser determinante.

Um estudo recente do especialista em pesquisas Orjan Olsen, que já foi diretor do Ibope e do Ipsos, concluiu que a rejeição mútua entre eleitores de Lula e Bolsonaro permanece nos níveis da eleição de 2022 e se espalhou por temas além da política - embora uma parcela considerável da população dê sinais de que gostaria de uma alternativa.

O cientista político e diretor da Quaest, Felipe Nunes, relaciona as taxas elevadas de rejeição a Lula e Flávio ao fenômeno da calcificação, quando há uma polarização sedimentada, levando o eleitor a se alinhar ao candidato mais competitivo do seu lado pelo medo de que o rival ganhe.

Vivemos um contexto bipolar que é global, do Brasil aos EUA”

— Maurício Moura

“Numa dinâmica como a que estamos vivendo, a eleição está ficando menos dependente de adesão positiva e mais organizada em torno de veto recíproco. A polarização calcificada afasta o voto programático e traz o voto do afeto e da identidade, quase clubístico. A democracia sai fragilizada desse processo, porque ele diminui o espaço para a persuasão programática e aumenta a alienação eleitoral”, diz.

Outra consequência da organização do pleito em torno do “voto contra” é empobrecer a arena pública. “O debate da polarização calcificada é produzido para afastar a racionalidade do voto econômico, programático e baseado em propostas. É óbvio que isso é ruim”, afirma Nunes.

Os demais candidatos cotados para a eleição presidencial, como os governadores de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e do Paraná, Ratinho Junior (PSD), têm taxas de rejeição inferiores às de Lula e Flávio - mas também são mais desconhecidos.

Segundo o diretor da Quaest, que discutiu a polarização brasileira no livro “Biografia do Abismo”, escrito em parceria com o jornalista Thomas Traumann, a calcificação pode ser quebrada em algumas circunstâncias.

Uma delas é se houver “um sentimento antissistema tão grande, com dois candidatos tão rejeitados, que surja um outsider capaz de bagunçar o jogo”. Foi o que ocorreu, de acordo com Nunes, em 2018, quando Bolsonaro despontou e foi eleito.

“O curioso é que, agora, os dois candidatos da calcificação também estão disputando o discurso antissistema. Já entenderam que não podem deixar um outsider aparecer. No fim, como sempre, a resposta vai vir do eleitor, que é totalmente soberano”, diz.

O apelo contra o sistema ganhou impulso com a crise provocada pelo Banco Master, que atingiu ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e deve ter desdobramentos envolvendo políticos e outras instituições, à medida que as investigações avancem. Além disso, a corrupção é uma preocupação crescente, segundo levantamentos.

 

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