segunda-feira, 23 de março de 2026

Um novo Oriente Médio, por Denis Lerrer Rosenfield

O Estado de S. Paulo

O projeto teocrático de uma grande potência regional dominando o Oriente Médio foi por água abaixo

O Oriente Médio mudou após o ataque americano-israelense e a reação da teocracia iraniana. Nada voltará a ser como antes, goste-se ou não desta nova realidade. O Irã se apresentava com uma grande potência regional, caminhando para deter a produção de bombas nucleares, almejando a destruição pura e simples do Estado de Israel. Utilizava-se, para isso, de seus satélites: Hamas, Jihad Islâmica, Hezbollah e Houthis. Com exceção dos últimos, enfraquecidos, os outros já foram derrotados militarmente. Graças à guerra atual, o Irã já está militarmente vencido, contentando-se com atacar as nações árabes, inclusive xiitas como o Catar, procurando criar o caos no Estreito de Ormuz e forçar um aumento do preço do petróleo e do gás em escala mundial. Só os simpatizantes do Irã e do terror islâmico resistem a reconhecer a nova correlação geopolítica de forças, a esquerda mundial satisfazendo-se com a areia do ódio que a teocracia lança nos seus olhos.

Torna-se, aqui, necessário fazer a distinção entre os objetivos militares e políticos da guerra, pois a confusão entre essas duas perspectivas pode distorcer a análise dos fatos.

Os objetivos militares de israelenses e americanos são praticamente os mesmos, apesar de algumas nuances. Israel tem no Irã um inimigo existencial, voltado para a sua aniquilação, algo declarado pela teocracia e seus satélites. Sob a ótica militar, os objetivos estão praticamente consumados: destruição da defesa antiaérea do Irã, com todo o seu sistema de radares e armamentos; aniquilação de seus instrumentos e condições de produção de uma bomba nuclear e erradicação dos depósitos, estoques, fabricação e lançamento de mísseis balísticos.

Os americanos, em particular, acrescentaram a destruição da Marinha e Israel, a morte das lideranças políticas e militares. Segundo cada um desses itens, todos alcançando praticamente acima de 80%, pode-se dizer que em poucas semanas essa proporção aumentará, dando a guerra como finalizada. Ocorre, porém, que o presidente Trump falou de uma mudança de regime, enquanto os israelenses mais prudentes declararam que buscariam criar apenas as condições para isso, cabendo ao povo iraniano, violentamente oprimido pela teocracia, levar a cabo essa missão. Esse seria um objetivo propriamente político, que não poderia ser realizado militarmente, salvo com o emprego maciço de forças terrestres, algo fora de questão. Politicamente, a tarefa cabe aos iranianos.

Os líderes iranianos, cientes disso, apesar de seu discurso belicoso, segundo o qual irão destruir a coligação americano-israelense, mostram por suas ações que já perderam. Atacam os países árabes, inclusive bombardeando-os mais do que a Israel. A guerra deslocou-se de Israel e das bases americanas para esses países, almejando assim algum ganho propriamente político, uma espécie de porta de saída, com a vitória militar já completamente afastada. Sobra somente a narrativa voltada para os incautos, que ainda acreditam no que a liderança teocrática vocifera. O fato maior, todavia, é o seguinte: o projeto teocrático de uma grande potência regional dominando o Oriente Médio foi por água abaixo.

O Irã, se não houver uma sublevação de seu próprio povo, continuará a ser brutalmente oprimido pelo que restará da Guarda Revolucionária e dos paramilitares da polícia política Basij – diga-se de passagem, que são objetos de ataques israelenses sistemáticos. Pode perfeitamente acontecer que preservem o seu poder, embora não tenham doravante nenhuma importância geopolítica. Tal situação pode ser perfeitamente acomodada tanto pelos israelenses quanto pelos americanos, apesar de ser desejável o estabelecimento de uma democracia nesse país.

Os EUA, por sua vez, mostram que são uma potência mundial incontrastável. A esquerda mundial que tanto fala do declínio americano deve estar mordendo a língua. Os russos não conseguem nem vencer a Ucrânia, quanto mais a Europa em seu conjunto, contra forças alemãs, francesas, inglesas, polonesas e italianas. Os chineses contentaram-se com contestações diplomáticas, nada arriscando. Como é de seu feitio, resguardam com afinco os seus interesses, os seus businesses. Os países árabes, por causa da retórica do ódio da teocracia iraniana, atacando inclusive suas instalações de infraestrutura e civis, irão se alinhar diretamente ou indiretamente aos EUA e Israel. São sua proteção e sua existência que estão agora em questão.

Os israelenses surgem vencedores como grande potência regional. Nenhum Estado da região lhe é comparável em superioridade científica, tecnológica e de indústria de defesa, com uso intensivo de inteligência artificial e guerra cibernética. Ademais, o uso sincronizado de todos esses instrumentos entre Marinha, Exército e Força Aérea faz de seu poderio um poder incontornável.

Saliente-se, ainda, que esse tipo de coordenação com as forças americanas mostra como a guerra do século 21 perfila-se no horizonte, mostrando desde já a sua presença.

 

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