quarta-feira, 6 de maio de 2026

Um livro que nos honra a todos, por Ivan Alves Filho*

Terminei de ler, por esses dias, um livro dos mais interessantes. Trata-se de Sorriso escondido, de autoria de Alfredo Maciel. De formação marxista, engenheiro, professor, seu autor rememora sua vida e sua militância, incluindo uma passagem pela antiga União Soviética. Nesta obra, a história pessoal se mescla à História recente do nosso país.

Escrita em linguagem acessível, como uma conversa, o livro cobre um período crucial da nossa trajetória social e política, com ênfase na resistência democrática ao regime instalado no país após 1964. 

Assim, Alfredo Maciel abre espaço para o movimento estudantil, a atuação dos intelectuais, marxistas e/ou católicos. Denuncia as indescritíveis torturas infligidas ao padre Henrique, assessor de Dom Hélder Câmara. No livro, o autor relata seu convívio com figuras importantes da vida cultural e política brasileira. Nomes como Luiz Werneck Vianna, Leandro Konder, Sérgio Augusto de Moraes, Carlos Alberto Torres, Antônio Ribeiro Granja e Edmílson Martins são lembrados por ele com emoção. 

Aqui, estamos diante de um humanista que sabe avaliar a contribuição de cada democrata para a construção de um país com mais justiça social e soberania. Não por acaso, duas importantes referências se fazem presentes nas páginas deste Sorriso escondido. De um lado, o economista paraibano Celso Furtado, um dos pensadores principais do nosso desenvolvimento, reconhecido no mundo inteiro. De outro, o revolucionário baiano Giocondo Dias, um homem que desatava os nós da conjuntura política como ninguém, de uma bravura cívica excepcional. 

Uma das partes mais densas do livro tem que ver com a atenção que Alfredo Maciel dedica às mutações em curso no modo de produção capitalista, provavelmente a questão central do nosso tempo. Automação, robótica, sociedade da informação e do conhecimento: até que ponto o capitalismo não estaria gerando uma base material que não se adequa mais à extração da mais-valia? Ao mesmo tempo, este sistema econômico pode estar operando um deslocamento no processo da extração do sobretrabalho para outras áreas, ligadas por exemplo a um tipo de produção de corte mais imaterial. As plataformas digitais já indicam isso, apresentando-se como um novo terreno para a prática da luta de classes. Isto é, a exploração da força de trabalho não se limitaria mais à exploração da função diretamente produtiva. No seu livro Sorriso escondido, Alfredo Maciel, tomando por base a obra Grundrisse, de Karl Marx, destaca a possibilidade de generalização da exploração da força de trabalho social.

Uma palavra final tem que ver com o livro como objeto. Ficou lindíssimo, de uma consulta muito agradável. A capa, desenhada pela própria responsável pela editora Aquarius Produções Culturais, a também escritora Márcia Heliane Gomes, está simplesmente impecável. 

O que dizer ainda? Esta é uma obra que honra a memorialística e a própria ensaística brasileiras. 

*Ivan Alves Filho, historiador. 

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