quinta-feira, 19 de março de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Copom tenta mitigar reflexos da guerra na inflação

Por O Globo

Diante de sinais ambíguos, autoridade monetária toma decisão menos conservadora do que seria possível

Ao cortar a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) transmitiu ao mercado um sinal de cautela diante do cenário inflacionário incerto descortinado pela guerra no Oriente Médio. Diante dos sinais ambíguos dentro e fora do país, a autoridade monetária tomou uma decisão menos conservadora do que teria sido possível com a manutenção da taxa.

Antes da crise nos mercados de energia deflagrada pela guerra, o esperado era um corte de 0,5 ponto percentual. Era consensual entre analistas que o Copom daria início a novo ciclo de queda da Selic depois de repetidas altas desde setembro de 2024. Afinal, a desaceleração da economia é nítida. Mas o quadro mudou quando as bombas começaram a cair. “No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo”, diz comunicado do Copom.

Autoridades monetárias do mundo todo têm agora de lidar com o barril de petróleo acima de US$ 100 (não mais US$ 70) e com a incapacidade de prever quando o preço cederá. Não há dúvida sobre as consequências. A energia encarece transporte e produção, as empresas repassam a alta a produtos e serviços, a pressão por reajustes salariais ganha corpo, e a inflação sobe.

Uma das principais preocupações no Brasil é o preço do diesel. Na semana passada, o governo lançou um pacote zerando PIS e Cofins, com subvenção a produtores e importadores. Mas isso não impediu que a Petrobras já reajustasse o combustível nas bombas. A reação da inflação dirá se o corte de 0,25 foi a decisão correta ou se teria valido a pena ser mais conservador.

Enquanto persistir o fechamento do Estreito de Ormuz ou o mero risco de ataques a petroleiros, haverá pressão sobre preços. Basta um navio em chamas para lançar o seguro das embarcações nas alturas. É essa incerteza que mina o trabalho de bancos centrais para ancorar as expectativas inflacionárias. Nesta quarta-feira, o Fed, a autoridade monetária americana, manteve a taxa de juros inalterada, mas mostrou estar preocupado com o cenário no Oriente Médio.

No Brasil, o Tesouro promoveu nos últimos dias uma intervenção sem precedentes no mercado de títulos públicos. Cancelou leilões e deu início a uma recompra histórica de papéis. Tudo para acabar com o pânico que tomou conta das operações na semana passada, fazendo disparar projeções futuras de juros e deteriorando expectativas. Como medida emergencial de curto prazo, o movimento se justifica, pois ajuda a aliviar a tensão e a volatilidade. Mas é inevitável que, num prazo maior, o Tesouro tenha de se render aos humores dos investidores dispostos a financiá-lo — e tenha de pagar mais por isso.

A trajetória dos juros sofre influência do cenário externo, mas é a realidade interna que leva o Brasil a manter uma taxa real entre as mais altas do mundo — perto de 10%, descontada a inflação. A realidade ditada pelo desajuste fiscal crônico, resultado de um governo incapaz de equilibrar as contas públicas.

Fim da aposentadoria como ‘punição’ a juízes culpados é questão de bom senso

Por O Globo

Dino determina perda de cargo em caso de Mangaratiba, e Congresso se mexe para acabar com aberração

São bem-vindas as providências tomadas para acabar com uma das maiores distorções no serviço público brasileiro: a “punição” a desvios de juízes com a aposentadoria compulsória, mantendo vencimentos. O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), teve o bom senso de anular uma decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) “punindo” com aposentadoria um juiz estadual da Comarca de Mangaratiba (RJ). A manifestação sobre esse caso individual abre caminho ao fim da prática, que foi aplicada 126 vezes nos últimos 20 anos a magistrados culpados de ilegalidades, desvios ou corrupção. A decisão também abriu caminho para a tramitação no Senado de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) prevendo perda de cargo em caso de infrações graves.

Não tem cabimento que juízes criminosos, que vendem sentenças ou são responsáveis por decisões em benefício de bandidos, possam ser “punidos” no máximo com afastamento do cargo, mantendo aposentadoria proporcional ao tempo de serviço e uma remuneração que os coloca na elite do funcionalismo e da sociedade brasileira. O recado para a sociedade pode ser resumido em uma palavra: impunidade.

O juiz de Mangaratiba foi condenado por emitir liminares favorecendo policiais militares, por atrasar decisões e por reter processos cuja competência era do Tribunal de Justiça do Estado do Rio (TJ-RJ). A punição foi a aposentadoria compulsória. Insatisfeito, o juiz apresentou pedido de revisão ao CNJ, que expressou o mesmo entendimento. Foi então que ele decidiu levar o caso ao STF. Dino felizmente suspendeu o absurdo dizendo não haver “cabimento da pena de aposentadoria compulsória no ordenamento jurídico vigente”.

Na interpretação dele, a reforma da Previdência de 2019 acabou com a validade da aposentadoria compulsória como sanção administrativa. “Em face da mudança constitucional e à luz do princípio da moralidade, infrações graves de magistrados devem ser punidas com a perda do cargo”, afirma a decisão. Ele também determinou a notificação do CNJ, para que reveja o sistema disciplinar no Judiciário.

Para o Brasil se ver livre da aberração representada pela “punição com aposentadoria compulsória”, basta o plenário do Supremo referendar a interpretação de Dino ou o Congresso aprovar alguma das propostas legislativas sobre o tema — além da PEC no Senado, a questão também é tratada no âmbito da reforma administrativa que tramita na Câmara.

A Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) declarou que a perda de cargo pode violar direitos adquiridos. Foi uma manifestação de caráter puramente corporativo, extremamente infeliz. Magistrados culpados por ilícitos da máxima gravidade devem ser punidos, não recompensados.

Plano Clima se equilibra entre ambiente e agronegócio

Por Folha de S. Paulo

Planalto enfim publica compromissos para diminuir emissões, que é positivo mas poderia ser mais ambicioso

Ao menos 70% dos gases do efeito estufa aqui lançados provêm do setor agropecuário, que resiste a cumprir metas mais duras de redução

Vêm de longe no governo federal contendas entre as pastas da Agricultura e do Ambiente sobre políticas para enfrentar a emergência climática.

Embora figure entre as maiores vítimas potenciais de eventos meteorológicos extremos, parte do agronegócio move poderoso lobby contra assumir seu quinhão de responsabilidade no esforço de mitigação, como se patenteia agora no Plano Clima.

O Planalto enfim publicou a versão final do conjunto de metas com que planeja cumprir compromissos do Acordo de Paris (2015), após três meses de idas e vindas —em fevereiro havia anunciado somente um sumário executivo. O país pretende reduzir entre 59% e 67% as emissões nacionais de carbono até 2035, considerado o ano-base de 2005, num esforço considerável.

Tomando por base estimativas mais recentes de emissões, em relação a 2022, o Brasil teria de diminuir de 49% a 58% a poluição climática que contribui para o aquecimento global.

Objetivo difícil, pois ao menos 70% dos gases de efeito estufa aqui lançados provêm do setor agropecuário, sobretudo do desmatamento em áreas que serão usadas para pastagem de gado bovino ou culturas agrícolas.

Houve progressos nos últimos anos, com as quedas nos cortes rasos de florestas logrados pela gestão de Marina Silva, o que permitiu recuos nas emissões. Mas a meta brasileira é zerar o desmatamento ilegal em todos os biomas até 2030, tarefa árdua em meros cinco anos, ainda que não impossível —desde que as áreas de governo trabalhem em parceria, não umas contra as outras.

O setor agropecuário conseguiu incluir no Plano Clima uma dissociação entre desmate em áreas privadas e desmate em áreas públicas, de um lado, além de reduções diretas da agropecuária (fertilizantes e fermentação entérica do gado, por exemplo).

Fatiou-se com isso a responsabilidade por implementar medidas mitigadoras entre as pastas do Ambiente, da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário.

O ônus mais pesado recairá sobre a primeira, à qual caberá conter emissões em mais de 150% até 2035, o que implica não só reduzi-las a zero como ainda contar com emissões negativas, por meio de sequestro de carbono pelo crescimento da vegetação.

Vale dizer, terá de conter as derrubadas em terras da União e ainda ampliar por toda parte a regeneração de áreas desmatadas.

Nas glebas privadas, a redução será mais modesta, de 110%. Na produção agropecuária propriamente dita, o setor foi contemplado com compromisso em formato de banda: entre queda de 7% e aumento de 2%.

Causa espécie, ademais, que no setor de energia se preveja incremento de 1% a 44% de emissões. Esse é um sinal de que outros lobbies estão em ação, como o da exploração de carvão mineral e da queima em termelétricas desse que é o combustível fóssil mais problemático. Melhor dizendo, um sinal de falta de ambição.

Atenção à saúde mental dos mais jovens

Por Folha de S. Paulo

Internações e atendimentos aumentam entre crianças e adolescentes em SP, refletindo fenômeno global

Educação midiática é crucial para conter os efeitos nocivos do uso excessivo de telas, que impactam sobretudo os mais jovens

Dados da Secretaria da Saúde de São Paulo mostram escalada de atendimentos devido a transtornos mentais e comportamentais em crianças e adolescentes, uma tendência verificada nas últimas décadas no Brasil e no mundo.

Entre 2020 e 2025, internações por esses motivos nos estratos de 5 a 9 anos de idade e de 10 a 14 anos aumentaram, respectivamente, 98,3% e 78,3%. Foram as maiores altas no período entre todas as faixas etárias.

No caso de procedimentos clínicos ambulatoriais (consultas, exames e tratamentos) por transtornos mentais e comportamentais, crianças de 5 a 9 anos também lideram, com crescimento de 186,1% no período, chegando a 1.192.391 casos em 2025. Depois vêm as faixas até 4 anos (136,4%) e de 10 a 14 (105,4%).

Segundo especialistas, a alta no estrato de 5 a 9 anos pode estar relacionada ao diagnóstico precoce de transtornos do neurodesenvolvimento, como autismo e deficiência intelectual, já que nessa faixa etária crianças começam a vida escolar. No estrato de 10 a 14 anos, além do diagnóstico tardio para os mesmos problemas, surgem depressão e ansiedade.

É possível, ainda, que mudanças na rotina e o isolamento social durante a pandemia tenham afetado de modo mais intenso crianças e adolescentes, que estão em fase de desenvolvimento de estruturas mentais.

O hiperdiagnóstico —quando se atribuem transtornos a pacientes sem que de fato se preencham critérios clínicos sólidos— é fator a ser considerado, mas não tanto nos casos de internação, que são mais graves.
Transformações tecnológicas também são capazes de impactar a saúde mental da população em geral, sobretudo dos mais jovens.

Aumento do uso de redes sociais e jogos online pode minar a concentração e suscitar ansiedade e casos de bullying, além de reduzir contatos presenciais e atividades ao ar livre.

A alta nos atendimentos ao menos parece indicar que o tabu em torno da saúde mental pode estar se enfraquecendo.

Ações interdisciplinares são necessárias, principalmente em relação aos ambientes digitais. A educação midiática, preconizada por organismos internacionais, é crucial. Crianças e adolescentes devem ser capacitados a explorar dispositivos com senso crítico e segurança, para conter uso excessivo e identificar abusos.

A proteção da saúde mental dos mais jovens exige adaptação da família, da sociedade e do poder público a transformações culturais impulsionadas pela aceleração da inovação tecnológica.

Orçamento secreto é essencialmente corrupto

Por O Estado de S. Paulo

Condenação de deputados que desviaram emendas expôs o efeito, mas a causa permanece: o arranjo que fez do Orçamento da União um instrumento de poder e enriquecimento nas mãos do Congresso

Por unanimidade, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou os deputados federais Josimar Maranhãozinho (PL-MA) e Pastor Gil (PL-MA), além do ex-deputado Bosco Costa (PL-SE), pelo crime de corrupção passiva. Aos três foram impostas penas de prisão em regime semiaberto e multa por terem exigido e recebido propina para indicar emendas parlamentares ao município de São José de Ribamar (MA). Essa foi a primeira ação penal relativa ao “orçamento secreto”, esquema criminoso revelado por este jornal em 2021.

De antemão, é incontornável observar que, malgrado o “orçamento secreto” não ter uma coloração partidária nem uma feição ideológica, todos os deputados condenados pertencem ao PL, legenda presidida por Valdemar Costa Neto, que já cumpriu pena por corrupção, e associada politicamente ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que ora cumpre pena por tentativa de golpe de Estado. O fato é digno de nota porque os membros do PL costumam posar como vestais da moralidade pública, como defensores da Pátria, da família e da ética na política.

Dito isso, seria um equívoco tomar a condenação inédita dos três deputados como um episódio isolado, fruto de meros desvios individuais de conduta. A corrupção sobejamente comprovada nos autos é menos a causa do problema fundamental do que sua consequência lógica. Mais bem dito: o que importa para o País é discutir um arranjo institucional distorcido, que deslocou para o Congresso um poder desmedido e aparentemente incontrolável sobre o Orçamento da União, sem os freios e contrapesos próprios de uma república digna do nome.

O “orçamento secreto” não surgiu por geração espontânea. Foi urdido no governo Bolsonaro, em meio à crise de governabilidade do então presidente, e encontrou terreno fértil para ser aprimorado neste terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Ao longo desse período, consolidou-se como um sistema bastardo de gestão orçamentária, por meio do qual bilhões de reais passaram a ser distribuídos sem critérios objetivos, sem planejamento nacional e, pior, sem uma nesga de transparência.

Hoje, cerca de R$ 60 bilhões estão à disposição de deputados e senadores por meio de emendas ao Orçamento da União. Não há modelo remotamente parecido com o caso brasileiro entre as democracias consolidadas. Não há país no mundo em que um volume de recursos públicos dessa magnitude seja controlado diretamente pelo Poder Legislativo. O Estadão já deu destaque a um estudo comparativo dos pesquisadores Marcos Mendes e Hélio Tollini demonstrando quão sui generis é o poder do Congresso no que concerne ao destino dos recursos orçamentários.

As consequências mais daninhas desse modelo exclusivamente brasileiro são a fragmentação e a ineficiência do gasto público, submetido a interesses paroquiais, e a erosão dos mecanismos de controle e accountability. Como já sublinhamos nesta página um sem-número de vezes, o “orçamento secreto” criou o melhor dos mundos para o Congresso: muito poder com quase nenhuma responsabilidade. Nesse contexto, a corrupção e o enriquecimento ilícito de deputados, senadores e governantes é a consequência indireta da distorção originária. Ou alguém poderia imaginar que um sistema de gestão orçamentária concebido para ser imperscrutável não desembocaria na prática de crimes?

Portanto, a cobrança de propina para liberação de emendas, ou a sua apropriação pelos próprios parlamentares, é antes um sintoma. Quando se cria um sistema de distribuição de vultosas quantias desconectado do melhor interesse público, a pergunta não é se haverá corrupção, mas quando e em que escala o crime será praticado.

Por isso, este jornal saúda a decisão do STF, mas não a celebra como panaceia. Como advertiu o ministro Flávio Dino, trata-se apenas da primeira ação penal relativa ao “orçamento secreto”. É fundamental que as investigações e as eventuais denúncias avancem para além dos “bagrinhos” ora condenados e cheguem aos responsáveis pela arquitetura do esquema e a seus capos aboletados nos melhores gabinetes do Congresso.

Pela verdadeira autonomia universitária

Por O Estado de S. Paulo

Com o fim da lista tríplice, universidades públicas federais recobram parte de sua autonomia. Resta obter as liberdades didática, administrativa e de gestão financeira, previstas na Constituição

O Congresso aprovou um projeto de lei que acaba com a lista tríplice para a escolha de reitores das universidades públicas federais, obrigando o presidente da República a nomear a partir de agora o candidato mais bem votado nas consultas realizadas pela comunidade acadêmica. Ou seja, o chefe do Poder Executivo federal não poderá mais indicar o segundo ou terceiro colocado nas disputas internas e terá de se curvar à expressão da vontade da maioria dos docentes, funcionários e alunos.

As listas foram instituídas nos anos 1960 e, a princípio, eram sêxtuplas. Foi apenas nos anos 1990 que elas viraram tríplices. E desde 1998 a tradição era o presidente da República respeitá-la, indicando para o cargo de reitor aquele professor que conquistara mais votos. Mas, no governo de Jair Bolsonaro, a tradição foi rompida: numa guerra cultural, ideológica e política contra a universidade, a ciência e o conhecimento, o então presidente ignorou a ordem das listas em nada menos do que em 21 das 69 nomeações que fez.

À época, as entidades de representação dos reitores chamaram as investidas de Bolsonaro, não sem motivo, de intervenção. Os dirigentes intensificaram então a mobilização pelo fim da lista tríplice. E, no fim do ano passado, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva enviou essa medida ao Congresso no projeto de lei que cria cargos nos Ministérios da Educação (MEC) e da Gestão e da Inovação, o que, decerto, fez com que tamanha mudança passasse despercebida.

O fim da lista tríplice blinda as universidades públicas federais do arbítrio. Tanto é assim que a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) comemorou, afirmando que a medida representa uma conquista das universidades federais, “ao assegurar o respeito à escolha democrática realizada pelas comunidades acadêmicas e fortalecer o princípio constitucional da autonomia universitária”.

Mas, como bem escreveu o sociólogo Simon Schwartzman, em artigo publicado recentemente no Estadão, o fim das listas tríplices consagra apenas uma faceta da autonomia universitária: a autonomia política. As universidades agora, diz Schwartzman, “escolherão sozinhas seus dirigentes”, mas isso não significa que tenham conquistado as autonomias didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, que estão previstas na Constituição.

Aliás, ao longo dos anos, as instituições federais foram desidratadas: perderam o controle até mesmo de seus processos seletivos vestibulares, tendo de optar pelo Enem; submetem seus cursos de pós-graduação à constante vigilância da Capes; e dependem de um orçamento público cada vez mais comprimido. Ou seja, o engessamento, e não a autonomia, é a regra.

Não restam dúvidas, portanto, de que só autonomia política não basta. Faz-se necessária uma profunda reforma universitária no Brasil, haja vista que a última data da década de 1960, que seja capaz de transformar as bases do ensino, da pesquisa e da extensão nessas instituições, colocando-as, enfim, no século 21.

Para isso, os mecanismos de financiamento precisam ser revistos, com estímulo à criação de fundos e parcerias com a iniciativa privada, a fim de diminuir a dependência do erário; os processos de retenção de talentos na docência e na pesquisa precisam ser flexíveis, sem as rígidas amarras dos concursos públicos; e a produtividade e a meritocracia deveriam servir de critérios para remunerar e premiar os professores e pesquisadores.

Nada indica que professores, dirigentes e sindicalistas das universidades federais estejam dispostos a ter de fato autonomia a ponto de arcarem com seus eventuais fracassos. Hoje, o quadro é cômodo: docentes e pesquisadores podem escolher seus dirigentes, recebem seus salários satisfatórios como se fossem pesquisadores de excelência e pouco entregam de resultados ao País e ao mundo. Prova disso é que a produção de ciência no Brasil é pífia, conforme atestam os rankings internacionais. À exceção de pequenas ilhas de excelência, a mediocridade se sobrepõe.

Como se vê, não basta uma reforma, é urgente uma revolução.

O ECA Digital começa mal

Por O Estado de S. Paulo

Empresas adotam ações limitadas, governo atrasa decreto e agência reguladora não sabe regular

A Lei n.º 15.211, mais conhecida como ECA Digital, já está valendo. Aprovada após o influenciador Felipe Bressanim, o Felca, publicar um vídeo em que denunciou a exploração de crianças e adolescentes nas redes sociais, a legislação tem a nobre missão de proteger os menores de idade nos ambientes digitais. Da sanção até a sua entrada em vigor, foram seis meses de vacatio legis para que as empresas de tecnologia e as autoridades públicas se preparassem. Mas, ao que tudo indica, as plataformas digitais e a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), o órgão responsável pela aplicação e fiscalização da lei, estão trocando o pneu com o carro andando.

Isso porque, como mostrou o Estadão, as big techs ainda corriam para adotar as medidas mais elementares previstas na legislação dias antes ou na véspera de sua vigência. Segundo a avaliação de especialistas ouvidos pela reportagem, as iniciativas das empresas de tecnologia representavam apenas uma ínfima parte de tudo o que elas ainda precisavam fazer. Não será fácil: as mudanças impostas pelo ECA Digital enfrentam forte resistência das companhias estrangeiras, haja vista que impactam seu modelo de negócios.

As principais empresas, por ora, vincularam o perfil da criança ou do adolescente ao de um responsável, criaram contas especiais para faixas etárias, vetaram mudanças nas configurações, proibiram contas de menores de idade abertas ao público e impuseram a verificação de idade. Mas a lei exige muito mais, como mecanismos que impeçam o vício de crianças e adolescentes nas redes sociais; a moderação de conteúdo para impedir o acesso a publicações e vídeos nocivos; a proibição de monetização com conteúdo vexatório, como erotização ou sexualização; e a necessidade de autorização judicial para monetizar conteúdos com menores de idade.

Como bem afirmou ao Estadão a coordenadora do eixo digital do Instituto Alana, Maria Mello, as mudanças implementadas pelas big techs são bem-vindas, mas, “se não houver grande mudança em moderação de conteúdo, ajuste de algoritmo e investimento em moderação humana, não teremos parte da lei contemplada”. E, para piorar, nem o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que publicou o decreto de regulamentação da lei com ela já em vigor, nem a ANPD dão sinais de estar preparados para agir. A agência reguladora, aliás, precisa se debruçar sobre a lei para entendê-la, enquanto ainda se organiza para realizar um trabalho que já deveria estar em plena execução. O órgão admitiu que ainda está “trabalhando na elaboração de instrumentos regulatórios necessários”.

De um lado, as empresas de tecnologia, mesmo que de boa-fé, adotam medidas insuficientes. De outro, a ANPD, que já deveria estar preparada para cumprir seu dever, ainda está aprendendo a trabalhar. Ou seja: proposto, discutido e aprovado com uma série de regras mais rígidas e, sobretudo, necessárias para proteger as crianças e os adolescentes dos males do submundo da internet, o ECA Digital começa capenga.

Guerra mudou cenário para os BCs de Brasil e EUA

Valor Econômico

Ambos optaram pelo conservadorismo enquanto aguardam os desdobramentos do conflito cada vez mais amplo no Oriente Médio

O Banco Central do Brasil (BC) optou pelo conservadorismo — diminuiu em 0,25 ponto percentual a taxa Selic, para 14,75%, mas em seu comunicado não se compromete com novas reduções, embora manifeste o desejo de fazê-lo. A sinalização sobre os passos futuros ficou envolta em uma névoa de dubiedade. O Federal Reserve (Fed) manteve sua política, que já era de aguardar os sinais mais fortes de desinflação ou de normalização do mercado de trabalho, para manter os Fed funds em 3,5%-3,75%, apontando mais um corte até o fim do ano. Em ambos, a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã mudaram significativamente o cenário, embora nenhum dos dois bancos centrais reconheça a gravidade de seus efeitos.

O Copom qualifica o cenário externo apenas de “mais incerto” com o conflito. O cenário doméstico se manteve, com moderação no crescimento, inflação caindo, mas acima da meta de inflação. A diferença está na projeção de inflação para o terceiro trimestre de 2027, o horizonte relevante para o BC: “As projeções de inflação apresentam distanciamento adicional em relação à meta no horizonte relevante para a política monetária”. A ata da reunião anterior projetava IPCA de 3,2% e o comunicado, agora, de 3,3%.

Não há um ciclo de afrouxamento monetário, mas de “calibração”, que vislumbra uma continuidade, no entanto, como sempre, dependente dos dados. Segundo o documento, a cautela é necessária para que “os passos futuros do processo de calibração possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo”. Não há compromisso com novos cortes.

O Fed não mudou sua estratégia e manteve os juros estacionados entre 3,5% a 3,75%. Embora reconheça que as incertezas decorrentes dos conflitos no Oriente Médio tenham efeitos “incertos”, sete membros do Comitê de Mercado Aberto (Fomc) indicaram a conveniência de pelo menos uma redução adicional da taxa até o fim do ano, mesmo número dos que acreditam que ela não mudará até lá. O presidente do Fed, Jerome Powell, disse, no entanto, que essa foi a segunda reunião em que foi discutida a possibilidade de o banco voltar a elevar os juros, deixando aberta a via para uma guinada na política monetária em caso de o choque do petróleo se mostrar muito mais violento do que o previsto.

O Fed reagiu ontem mais ao passado, de inflação resistente e recentemente em ascensão, do que sobre as possíveis previsões de como a economia reagirá à guerra no Oriente Médio. Sobre o futuro, foi claro: “Simplesmente não sabemos”. As pressões inflacionárias já vinham em alta antes de o presidente Donald Trump, em aliança com Israel, atacar o Irã, o que acrescentou óbvia pressão inflacionária sobre os preços do petróleo, que movem toda a economia, apesar de os EUA serem hoje o maior produtor da commodity no mundo. O índice de preços ao produtor (PPI), divulgado no mesmo dia da reunião do Fed, apontou altas de preços a caminho. O indicador subiu 0,7% em fevereiro, quase o dobro da expectativa de 0,3% dos analistas, após aumentar 0,5% em janeiro. Em um ano, o índice atingiu 3,4%, considerável avanço em relação aos 2,8% de janeiro. Seu núcleo, que exclui volatilidade de alimentos e energia, atingiu 3,9%. Há confluência de dois fatores inflacionários, ambos incertos, com diferentes horizontes de tempo de atuação. O impacto das tarifas impostas pelo presidente Donald Trump, segundo previsões do próprio Fed, se disseminaria ao longo de 2026, sustentando a inflação.

Powell tem certeza de que ele é um evento único, que produz aumento de preços provisório, não contínuo, que se dilui com o tempo. Acredita também que o mesmo deverá ocorrer com a elevação dos preços do petróleo, cuja magnitude e duração, porém, são hoje imprevisíveis. O galão (3,78 litros) de gasolina nos postos americanos subiu de US$ 2,93 para US$ 3,64, indicando maior evolução dos preços em março. O do diesel, mais usado no transporte de safras e mercadorias, atingiu US$ 5, perto do recorde.

O choque do petróleo causará maiores estragos nas economias que estão mais aquecidas e com inflação não domada. Não é bem o caso da economia americana, que teve no último trimestre do ano uma expansão bem inferior à do período anterior — 0,7% ante 4,4% ao ano, ainda que, segundo Powell, se mantenha em boa forma. A avaliação do Fed antes do choque de petróleo recomendava pausa na redução dos juros, diante da contradição entre os dois objetivos de seu mandato: o mercado do trabalho, que tendia à deterioração, e a inflação, que apontava para cima. Powell quase não falou da inflação, embora ela esteja bem acima da meta, com o núcleo da medida preferida do Fed, o PCE, em 3,1% em janeiro. O diagnóstico de Powell sugeriu que os riscos ainda podem pender para o mercado de trabalho, cuja criação de empregos aproximou-se do zero, uma situação “nada confortável” e não muito comum.

Combate à misoginia não se faz sem a regulação das redes

Por Correio Braziliense

A formação de uma cultura de respeito e proteção à mulher está intrinsecamente ligada ao controle de conteúdo nas redes sociais e na internet

O Projeto de Lei 896/23, que altera a legislação para incluir crimes motivados por misoginia (ódio ou aversão às mulheres) entre aqueles punidos por discriminação ou preconceito — e está em vias ser aprovado no Congresso —, é um passo importante no combate a violência contra a mulher, mas insuficiente. Isso porque já ficou constatado que punições severas não são capazes de atingir a raiz do problema, neste caso a falta de educação e de formação de uma cultura de respeito e proteção. Se a possibilidade de uma etapa atrás das grades fosse o bastante para desestimular os homens de cometerem atos brutais contra mães, filhas e companheiras, os casos de feminicídio teriam caído vertiginosamente.

Os números, porém, mostram o contrário. O país vai no sentido inverso, segundo levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 4 de março passado: em 2025, foram registradas 1.568 vítimas de homicídio de gênero, um aumento de 4,7% em relação a 2024.

A formação dessa cultura de respeito e proteção à mulher está intrinsecamente ligada ao controle de conteúdo nas redes sociais e na internet. Em depoimento na CPI do Crime Organizado, no dia 12 passado, a juíza Vanessa Cavalieri, titular da Vara de Infância e Juventude da Comarca da Capital do Estado do Rio de Janeiro, advertiu que a adolescência é a faixa etária com maior número de homens misóginos. Isso é explicado pelo acesso precoce à pornografia. A forma como as mulheres são retratadas nesse material dispara o gatilho do desprezo a elas.

Estudo da Common Sense Media, de 2023, constatou que 73% dos jovens entre 13 e 17 anos tiveram contato com pornografia, muitos já aos 12 anos. As páginas são de fácil acesso e as que solicitam algum registro de idade o fazem de mentirinha, pois basta a autodeclaração do usuário. O Marco Civil da Internet nesses casos é letra morta e o Comitê Gestor da Internet no Brasil não tem força suficiente para dificultar a navegação em tal conteúdo.

Tem um componente ainda mais cruel nessa equação: os sites de apostas. À disposição de qualquer um que tenha interesse, estão diretamente conectados ao conteúdo pornográfico. Acessando um tem-se a possibilidade de usar o outro. Ambos aproveitam-se do estímulo do próprio Congresso, que dá vários passos atrás sempre que se fala em regulamentar redes sociais e taxar bets. Os lobbies dos dois setores demonstram grande poder de persuasão para impedir que ambas matérias avancem. E seus porta-vozes são cínicos o bastante para usarem como argumentos contrários a qualquer ação limitadora o ataque à liberdade de expressão e a suposta sanha arrecadatória do governo.

Nesse pântano, multiplicam-se os influenciadores "red pill" com milhões de seguidores e os videozinhos que encenam reações bárbaras à recusa de pedidos de namoro ou casamento — cuja trend é "treinando caso ela diga não". A contaminação misógina avança sem barreiras, inclusive, com a facilitação e aplausos de figuras de pequena estatura política, mas de grande presença no ambiente digital.

O PL 896/23 é, sim, um passo importante e necessário. Mas limitado. Sem atenção às redes sociais e à internet, a cultura da brutalidade contra a mulher apenas se fortalece.

São José e a esperança de chuva

Por O Povo (CE)

O dia 19 de março sempre amanhece diferente no Ceará. Data em que se comemora o padroeiro do Estado, São José, além do feriado habitual dedicado ao santo, o momento é para pedir chuva. Os que creem no poder intercessor do pai adotivo de Jesus Cristo, segundo a fé católica, rogam a São José para um bom inverno no Ceará. Segundo a tradição popular e histórica, se chover neste 19 de março, haverá uma generosa quadra invernosa no Estado. Isso significa prosperidade para o sertanejo, fartura na mesa e generosidade na colheita. Quem vive da agricultura, direta ou indiretamente, sabe o quanto essa crença influencia fortemente a esperança de todo um povo.

É certo que a crença pode ser explicada de modo científico. Exatamente neste período, ocorre um fenômeno no movimento da Terra chamado de equinócio de outono, que pode influenciar a ocorrência de chuvas no Ceará.

A Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) explica que, neste período, os dois hemisférios terrestres estão iluminados, de forma igual, pelo sol. Assim, a noite terá a mesma duração do dia.

Além disso, a incidência direta de raios solares na linha do Equador, marca da qual o Ceará está próximo, atrai ventos úmidos para a região. Isso, em geral, é sinônimo de chuvas.

Há outra questão relacionada à quadra chuvosa cearense, que é o posicionamento da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT). Normalmente se, até março, considerado a metade da estação chuvosa, a Zona não tiver contribuído para as chuvas no Nordeste, a quadra chuvosa pode não ser generosa como se espera.

Faz-se relevante associar a ciência e a fé, sem desconsiderar a importância de ambas. Os órgãos que cuidam da parte hídrica do Estado respeitam o espírito religioso do cearense ao mesmo tempo que o povo que crê confia nos estudos científicos dos pesquisadores.

É interessante observar, neste dia de homenagens ao padroeiro do Estado, a figura de José como um personagem a quem se deve respeito. Exemplo de paciência e serenidade, São José é marcado pelo silêncio absoluto. Não há, em toda a Bíblia, uma palavra proferida pelo pai adotivo de Jesus. Isso é interpretado pelos cristãos como exemplo de um homem que escutava a Deus, guardando seu silêncio como uma oração.

Mesmo assim, agia como um guardião amoroso, com ternura ao sustentar Maria e Jesus, em atos de obediência a Deus sem se queixar das adversidades.

Que as orações dos que creem na intercessão de São José sejam atendidas com chuvas generosas, que venham animar a população, sem causar transtornos às cidades. Espera-se que o dia de hoje seja um símbolo de esperança, banhado pelas águas tão esperadas ao longo de todo o ano. 

 

 

 


 

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