quinta-feira, 19 de março de 2026

Vorcaro e os fantasmas da República, por Malu Gaspar

O Globo

O espanto causado pela extensão dos tentáculos e da ousadia de Daniel Vorcaro e sua desfaçatez com o dinheiro alheio fizeram muita gente repetir uma pergunta que vem à tona toda vez que um grande escândalo se abate sobre Brasília, mais profundo que o de antes. Não aprendemos nada com o caso anterior?

Quando o petrolão começou, a pergunta era feita olhando para o mensalão. Agora, ela se aplica ao legado da Lava-Jato. A pergunta é simples, mas a resposta é complexa como qualquer transformação histórica e não cabe num único artigo.

Mas há uma lição que já deveria ter sido assimilada há tempos e que o caso Vorcaro prova ainda não termos aprendido: toda vez que se mata uma apuração jogando a sujeira para debaixo do tapete, a podridão reaparece em forma de fantasma, ainda mais assustador.

Apesar da anulação de multas e das sentenças que sepultaram judicialmente a Lava-Jato, nenhum cidadão razoavelmente informado deixou de saber o que se deu nos meandros do poder naquele período, e ninguém nega o que ocorreu no petrolão.

O que deixamos de saber, porque a apuração foi interrompida, é até onde o Judiciário estava envolvido no rolo. Toda vez que a investigação enveredou por esse caminho, bateu no muro.

Em setembro de 2019, o grupo de trabalho que atuava no gabinete da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu demissão, em protesto contra a decisão de não investigar o então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli.

Ele havia sido citado em duas delações de empreiteiros — de Marcelo Odebrecht, que se referia a ele como “amigo do amigo do meu pai”, e de Leo Pinheiro, da OAS, que disse ter feito uma reforma na casa de Toffoli e ainda ter dado R$ 1 milhão para o irmão dele comprar a renúncia de um político de Marília (SP).

A Vaza-Jato já estava na praça com grande repercussão desde 2019, assim como um pedido de suspeição de Sergio Moro, mas o ex-juiz de Curitiba só foi considerado suspeito pelo Supremo em março de 2021, alguns meses depois de vir à tona a delação do presidente da Fecomércio, Orlando Diniz, que afirmava manter vários advogados ligados a juízes e ministros de Cortes superiores em sua folha de pagamento.

Desde então, o Judiciário, mais especificamente o STF, se envolveu cada vez mais na política, tendo como pano de fundo a festa das emendas parlamentares e o oba-oba dos eventos de lobby mundo afora, disfarçados de discussão jurídica de alto nível.

O avanço desse movimento acabou sendo ofuscado primeiro pela Covid-19, depois pelo golpismo insistente e perigoso de Jair Bolsonaro, que exigia providências firmes. Mas o fantasma não desapareceu. Ficou apenas escondido num canto, esperando a hora de ressurgir.

Eis que agora, depois de sua segunda prisão ser confirmada pela Segunda Turma do STF, Vorcaro promete uma “delação séria”. O recado enviado por seus advogados aos investigadores é que ele não pretende poupar ninguém.

Se a intenção realmente se confirmar, é certo que boa parte do Centrão virará alvo de inquérito, assim como um naco do petismo, alguns governadores e ainda figuras-chave na burocracia de instituições que deveriam fiscalizar o setor financeiro, como o Banco Central.

A esta altura, porém, isso é o mínimo, até porque muita coisa que Vorcaro poderia contar já está no material apreendido pela PF em celulares e computadores e nos relatórios de inteligência financeira produzidos pelo Coaf.

O que nenhum policial federal ou procurador da República minimamente competente poderá deixar de perguntar ao dono do Banco Master é o que, de fato, ele pretendia comprar ao desembolsar R$ 35 milhões por uma fatia do resort Tayayá, de que Toffoli era sócio, qual o verdadeiro escopo do contrato de R$ 130 milhões fechado com Viviane Barci de Moraes, ou ainda o que ele queria saber se Alexandre de Moraes conseguira bloquear, nas mensagens enviadas ao ministro horas antes de ser preso.

As respostas a essas questões definirão se essa delação será para valer, ou se de novo aceitaremos que se enfiem os esqueletos em algum esconderijo, apenas para vê-los reencarnar em novo escândalo num futuro não muito distante.

 

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