O Globo
Banco Central reduziu a Selic, mas de olho na
guerra, que é inflacionária. O Tesouro recompra papéis para tranquilizar o
mercado
O Banco Central tinha um cenário quando escreveu a ata da reunião de janeiro. Nos últimos dias, esse cenário mudou. Isso levou à decisão de corte da Selic, em apenas 0,25 ponto percentual. A turbulência internacional tem um canal de transmissão direta para a economia. As empresas já estão refazendo seus cálculos sobre os custos diante dos novos preços dos combustíveis, principalmente diesel. A guerra de Donald Trump bateu na economia de forma rápida. Diante deste ambiente, o Copom cortou os juros, porque afinal eles estão muito altos, mas a redução foi em nível menor do que faria caso nada tivesse acontecido. A nova conjuntura forçou também o Tesouro a mudar a sua atuação no mercado de títulos públicos.
No comunicado após a reunião, o Banco Central
disse que a guerra alterou o cenário, porque tem efeitos sobre “a cadeia de
suprimentos global e os preços das commodities que afetam indiretamente a inflação”.
Salientou que a incerteza aumentou e não se tem clareza “sobre a duração do
conflito e de seus efeitos”. Por este motivo, decidiu dar início a um ciclo que
chamou de “calibração da política monetária”. Admitiu que os juros têm estado
por muito tempo em patamar contracionista, o que já desacelerou a atividade
econômica. Haverá novos cortes na Selic, mas eles serão feitos “à luz de novas
informações”. A mudança drástica no cenário afetou também a dívida pública.
O Tesouro recomprou em torno de R$ 45 bilhões
em títulos públicos, para evitar a espiral de alta dos juros futuros. Muita
gente disse que é a maior compra da história. O economista Luis Felipe Vital,
estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren Investimentos, e que trabalhou
17 anos na Secretaria do Tesouro, explica que em termos nominais é a maior
recompra. Porém, na pandemia, houve o mesmo movimento em volume muito maior, se
a conta for trazida a valor presente. Ele considera que o Tesouro fez o que
devia fazer.
— O mercado vinha há algum tempo esperando a
queda dos juros, apostando que iria acontecer. Estava até demorando demais.
Agora, veio o conflito no Oriente Médio, que é inflacionário via câmbio e via
petróleo. Pressiona a inflação. Os dados que começaram a sair da atividade
neste início de ano mostraram uma economia ainda aquecida. Diante disso, na
sexta-feira, a visão de política monetária mudou. Várias casas alteraram as
projeções. Quando muda a visão da política monetária, muda também a
precificação de mercado — explica Luis Felipe.
O movimento de venda de títulos foi natural
com os fundos e bancos querendo reduzir as perdas de suas posições anteriores.
A curva DI, na parte mais curta e intermediária, subiu 60 pontos num dia, o que
é muito alto. O mercado ficou disfuncional. Havia mais vendedores do que
compradores de papéis da dívida pública, o que levou o Tesouro a realizar um
leilão de recompra, repetido nos dias seguintes. Desta forma, deu parâmetros ao
mercado, porque os preços estavam indo em espiral.
—E quanto isso preocupa o Tesouro? Vai deixar
o Tesouro sem dinheiro? Não. Hoje o colchão de liquidez é de cerca de R$ 1
trilhão. Quem ganha com esse processo todo é o Tesouro, que conseguiu entrar e
equilibrar o mercado, e na semana que vem já volta a se financiar normalmente —
diz Vital.
As turbulências atingem também as empresas,
que neste momento estão refazendo suas contas sobre o custo com a logística.
Uma empresa ouvida ontem no Rio trabalha com um cenário de que terá um custo
45% maior com o transporte do seu produto. O cálculo é que o diesel que estava
em R$ 5,31, antes da guerra, pode ficar no patamar de R$ 7,75.
O governo luta contra essa alta, que já está
ocorrendo nos postos. Lançou na sexta-feira um plano de forte subsídio ao
diesel. Zerou PIS e Cofins, e ainda criou uma subvenção para produtores e
importadores de diesel. Ontem, abriu uma negociação com os Estados para a
redução do ICMS incidente sobre o produto importado, prometendo compensar em
parte o custo da renúncia fiscal. O secretário-executivo do Ministério da Fazenda,
Dario Durigan, promete fazer tudo “respeitando a neutralidade fiscal, e com um
mínimo de intervenção”.
Em um ambiente contaminado pela disputa
política será mais difícil ter o apoio dos governos estaduais. Por enquanto, o
cenário é de incerteza e, por isso, o BC citou três vezes a palavra “cautela”
no comunicado de ontem.

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