Livro resenhado: PELICOT, Gisèle com PERRIGNON, Judith. Um hino à vida: A vergonha precisa mudar de lado. Tradução de Julia da Rosa Simões. Primeira Edição. São Paulo, Companhia das Letras: 2026. 239 págs.
Como já é tradição, as ruas do mundo em todo dia 8 de março reúnem um mar de cidadãs e cidadãos cujas vidas diversas se desenrolam em uníssono ao ritmo de uma marcha, suas vozes entoando slogans em comum. Entre elas, um rosto, infelizmente infame, se destacava nas ruas de Paris: o de Gisèle Pelicot. Depois que o acaso revelou, em 2022, que ela havia sofrido mais de 51 estupros durante uma década nas mãos de vários facínoras, orquestrados por seu marido, o rosto dessa septuagenária se tornou um ícone da luta das mulheres contra a violência.
O livro em tela reúne suas
memórias. Recentemente publicado em mais de 20 idiomas (Um hino à vida), Gisèle Guillou
(ex-Pelicot) confessa, com a colaboração de Judith Perrignon – jornalista,
ensaista e romancista que ajudou diversas figuras francesas a contarem suas
histórias, como Marceline Loridan-Ivens (1928–2018), sobrevivente de Auschwitz
– , com o mesmo tom comedido e assertivo que se testemunhou durante o
julgamento de seus agressores, que sua transformação em um símbolo da luta das
mulheres ocorreu quase à sua revelia. Na página 227 do capítulo final, de
número 18, se evoca os seus 16 anos e a percepção dos protestos em França, onde
se lê:
“Corria o ano de 1968. As mulheres lutavam
coletivamente contra uma vida programada de antemão, lutavam pelo direito ao
aborto, por suas liberdades. Eu as ouvia e as admirava, mas me sentia longe de
tudo aquilo, não entendia aquela oposição entre homens e mulheres”.
Na sequência surgira a declaração, no
entanto, de que não vai virar as costas para a luta das mulheres, embora a
abrace à sua maneira:
“Pode ser que eu decepcione algumas militantes
por não ser radical e continuar adepta de uma vida tradicional e tranquila. Mas
testemunhei como, nos degraus do tribunal, elas transformaram toda a dor de um
julgamento em gritos de liberdade, testemunhei a alegria e a raiva triunfarem
sobre o silêncio, por isso fico feliz de poder oferecer minha história como
exemplo e meu nome como bandeira.” (Pelicot, 2026, p. 227-228).
De fato, os caminhos da luta das mulheres e de Gisèle Guillou se cruzaram. Seu nome e sua história se tornaram simbólicos quando ela exigiu, contra todas as expectativas de sua família e advogados (e até mesmo de si mesma), um julgamento público para seus agressores. Por que ela fez isso? Gisèle Pelicot sofreu em sua própria história o julgamento social que a luta das mulheres denuncia, que as vítimas sofrem, independentemente de seu comportamento, idade e/ou status social. Como ela confidenciou, durante a preparação do julgamento, a frase – “A vergonha precisa mudar de lado” – não lhe saía da cabeça.
A Companhia das Letras, acreditando que Um hino à vida é uma
contribuição importante para mudar a cultura societal, convidou mulheres
influentes em suas áreas para um movimento em torno da principal frase acima
deste livro. Quem primeiro empresta sua voz a Gisèle Guillou é a atriz e
escritora Fernanda Torres, que recita trecho das páginas 185-186 do capítulo de
número 15 que diz:
“Cheguei à praia. A brisa do mar sempre é
marcante penetra mais fundo nos pulmões, nos expõe aos elementos, nos faz
sentir pequenos, mas vivos. Senti na pele o quanto precisava do resto do mundo.
Já não queria estar só. Tantos desconhecidos haviam me ajudado e me acolhido
quando eu não tinha mais nada. Havia perdido o medo dos olhares, já não temia
que as pessoas soubessem. A vergonha precisa mudar de lado. Essas
palavras, que vinham se erguendo havia mais de uma década em apoio as mulheres
vítimas de estupro e violência, eu as ouvi, e elas se instalaram como um refrão
dentro da minha cabeça, eram pequenas lâminas afiadas que de repente aguçavam
meu pensamento. Todos precisavam ver os 51 estupradores. Eles é que deveriam se
curvar. Não eu.”
Quem lê as memórias de Gisèle Guillou não
encontrará vergonha, nem raiva, muito menos sensacionalismo; encontrará, em vez
disso, introspecção, resiliência, calma, empatia e alegria. Sim, a alegria de
viver (como indica o título do livro em francês). Mesmo que o livro ainda
carregue o sobrenome do seu ex-marido, Gisèle Pelicot não é mais Madame
Pelicot. Ela é uma mulher que resgatou sua história, suas escolhas passadas e
futuras, que reconstruiu seu lugar no mundo, redefiniu seus relacionamentos
afetivos (inclusive com o seu passado), e expôs suas feridas para que outros
não as infligissem a outrem. Suas memórias não santificam a família nem
demonizam os homens. Não são um relato completamente íntimo nem um manifesto
político. São simplesmente ela. A voz de alguém que transformou sua dor em
luta. Bravo!
*Ricardo Marinho é Presidente do Conselho Deliberativo da CEDAE Saúde e professor da Faculdade Unyleya, da UniverCEDAE e da Teia de Saberes.

Nenhum comentário:
Postar um comentário