As políticas de juros dos bancos centrais
estão no cerne dos mercados financeiros. Movem preços de todos os ativos,
provocam ganhos e perdas, transferem riqueza, estimulam ou desestimulam a
economia. Não surpreende que estejam submetidas a todo tipo de pressões
políticas.
Depois de dois anos de duras críticas à
política de juros do Banco Central, Lula indicou Gabriel Galípolo para a sua
diretoria em 2023. Houve quem achasse que poderia haver uma inflexão na
política do BC. No entanto, nada mudou. Nas primeiras reuniões do comitê de
política monetária, o Copom, a decisão foi sempre por manter ou até mesmo
elevar os juros. Galípolo era apenas uma voz entre os nove diretores membros do
comitê — nada poderia fazer para rever a política em curso, alegaram os que contavam
com ele para reduzir os juros.
Alçado à presidência do BC no início de 2025, esperava-se que Galípolo tivesse autoridade para finalmente dar início a uma queda consistente até uma taxa compatível com as internacionais. Mais uma vez, não foi o que ocorreu. Ao contrário, com Galípolo na presidência, o BC continuou a elevar os juros. A taxa real de juros é da ordem de 10% ao ano, insustentável quando a economia cresce a menos de um terço disso. Lula, e também Haddad no Ministério da Fazenda, não deixaram de demonstrar discordância em relação aos juros excessivos, mas nunca fizeram críticas abertas a Galípolo na presidência do BC.
Nos Estados Unidos, Kevin Warsh, indicado por
Trump, deve presidir o Fed a partir da segunda metade de maio. Paira sobre ele
a dúvida de que mantenha independência de política monetária. Trump tem atacado
de forma recorrente o Banco Central americano e seu atual presidente insistindo
que os juros deveriam ser mais baixos. Duramente criticado e processado sob
alegação de aprovar gastos excessivos na reforma da sede do Fed, Powell se
manteve inflexível na defesa da autonomia para conduzir a política de juros.
Numa quebra da tradição, Powell não pretende deixar a diretoria do Fed após ser
substituído por Warsh na presidência. Insiste em continuar até que o processo
contra ele seja concluído, pois seu mandato como diretor vai até janeiro de
2028.
Warsh tem sólida formação em economia e
direito, foi dos mais jovens diretores do Fed na primeira década deste século,
sob o comando de Ben Bernanke. Não lhe faltam credenciais. Também não pode ser
acusado de ser “dovish” — condescendente com políticas excessivamente
expansionistas —; ao contrário, sempre foi considerado “hawkish”, linha dura,
na condução da política monetária. Na crise de 2008, quando o Fed inovou ao
introduzir a expansão direta do crédito por meio do Quantitative Easing (QE),
Warsh foi contra o seu prolongamento além da crise. Anos depois, já fora do
Fed, criticou duramente a segunda rodada do QE durante a epidemia de Covid. O problema
é que agora, apesar de negar ter recebido qualquer instrução para baixar os
juros, Warsh, ao menos explicitamente, recusa-se a discordar do presidente. Não
respondeu à pergunta da senadora Elizabeth Warren sobre se Trump havia
realmente perdido a eleição de 2020. Saiu pela tangente e recusou-se a
confirmar a efetiva derrota do ex-presidente.
Apesar disso, por razões semelhantes às de
Galípolo, Warsh dificilmente promoverá uma guinada na política do BC americano.
O mais provável, como sugere a relativa tranquilidade dos mercados, é que o Fed
se mantenha fiel a uma condução técnica da política monetária. Aqui e lá, no
Brasil e nos EUA, assim como em toda parte, parece haver um consenso de que não
há alternativa. Por mais fortes que sejam as pressões, um banco central que se
afaste dos preceitos técnicos estabelecidos corre o risco de provocar uma crise
financeira e um surto inflacionário de consequências imprevisíveis.
Há um consenso institucional de que não
existe alternativa para a condução da política de juros. Este consenso
político, contudo, coexiste com uma profunda perplexidade sobre as bases
conceituais da política monetária. A teoria estabelecida na segunda metade do
século passado, segundo a qual uma restrição monetária elevava o juro, desestimulava
a demanda, provocava recessão e desemprego, moderando a alta dos salários e dos
preços, foi silenciosamente aposentada. Sem pretender retomar o tema — já o
tratei de forma exaustiva em meus livros Juros, Moeda e Ortodoxia (2017) e
Consenso e Contrassenso (2020), publicados pela Companhia das Letras —, me
restrinjo a listar dois fatos incontroversos. Primeiro: os bancos centrais não
controlam a moeda, mas sim a taxa básica de juros. Segundo: a relação inversa
entre recessão, desemprego e inflação, expressa pela Curva de Phillips,
desapareceu.
Sem o seu tradicional canal de transmissão —
da redução da demanda para o desemprego e a capacidade ociosa, e destas para os
preços —, a política monetária perdeu seu substrato conceitual. Ainda hoje,
todo trabalho acadêmico parte de um modelo matemático com relação inversa entre
capacidade utilizada e inflação para, depois de muita álgebra, chegar a uma
equação simples que relaciona essencialmente a inflação às expectativas de
inflação. O resumo da ópera é que, após extensa formulação matemática, a teoria
dominante conclui que o que provoca inflação são as próprias expectativas de
inflação.
Algumas perguntas básicas se impõem. De quem
são essas expectativas e como são formadas? No Brasil, assume-se que sejam as
do mercado financeiro, coletadas e divulgadas semanalmente pela Pesquisa Focus
do Banco Central. Por que apenas as expectativas do mercado financeiro, se os
preços que compõem o índice de inflação não são por ele fixados? Supostamente,
o mercado, onisciente, reflete as expectativas da sociedade. Quanto ao processo
de formação dessas expectativas, a teoria é vaga. Já foram retroativas,
baseadas na inflação observada; depois passaram a ser prospectivas, racionais,
baseadas no que prevê o próprio modelo conceitual. Após a refutação lógica e
empírica das inúmeras hipóteses sobre o que determina o nível de preços, restou
apenas a relativamente nova Teoria Fiscal do Nível de Preços, TFNP, uma
complexa formulação matemática que associa a inflação à trajetória futura do
déficit fiscal. Por depender de inúmeras variáveis inobserváveis, a TFNP não
pode ser empiricamente refutada.
Chega-se assim ao resumo da base técnica da
política monetária hoje: a inflação depende das expectativas do mercado
financeiro, que por sua vez dependem do modelo conceitual, que postula, sem
comprovação empírica possível, serem função da trajetória futura das contas
públicas. Ainda assim, o protocolo para a condução da política de juros —
baseado na heurística da Regra de Taylor — manda subir os juros sempre que
sobem as expectativas de inflação do mercado financeiro. O fato de que a alta
dos juros agrave a trajetória das contas públicas, o que segundo o próprio
modelo deveria aumentar as expectativas de inflação, não parece incomodar os
defensores da condução técnica. É apenas mais uma das inúmeras contradições da
macroeconomia contemporânea. A conclusão é inescapável: não há nada de técnico,
muito menos de científico, na base das políticas dos bancos centrais. Pelo
contrário, na falta de embasamento lógico e empírico, adota-se um protocolo
heurístico. Basta um pouco de reflexão para concluir que estamos muito mais
para crenças dogmáticas do que para técnicas científicas.
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Voltemos a Galípolo. Quem o conhece não tem
como acusá-lo de despreparo. Tem formação acadêmica de qualidade, conhece a
fundo a teoria econômica e monetária neoclássica. Ao contrário de muitos outros
indicados para a diretoria do Banco Central, tem experiência prática de
mercados financeiros. Além da competência técnica, domina a crítica ilustrada à
teoria econômica dominante e transita com familiaridade pela teoria do
conhecimento. Sei que Galípolo compartilha da convicção de que a taxa de juros
fixada pelo Banco Central é um grave equívoco. Só a força do consenso
institucional em relação à inexistência de alternativa pode explicar a sua
conversão à ortodoxia.
Segundo a teoria neoclássica, a taxa de juros
não é determinada pelo BC, mas pela oferta de fundos emprestáveis, ou seja,
pela poupança. Como a taxa de poupança no Brasil é baixa e o déficit público é
alto, o resultado seria uma alta taxa de juros estrutural. Tenho feito críticas
recorrentes a essa noção — disponíveis no meu Substack, em “Dívida
Pública, Riqueza Privada” — e não pretendo repeti-las aqui.
Uma outra vertente teórica, com apelo tanto
para a ortodoxia quanto para alguns de seus críticos, sustenta que a taxa de
juros de uma economia periférica é determinada pelos fluxos de capitais
financeiros. A taxa de equilíbrio seria função dos juros nos EUA — ainda hoje a
economia da moeda de referência internacional — mais o prêmio de risco do país.
O capital financeiro se deslocaria para “arbitrar” qualquer desvio em relação a
essa taxa, composta pelos juros americanos, somados ao prêmio de risco e à expectativa
de desvalorização cambial.
O tema tem longa tradição na literatura
técnica sobre economias financeiramente integradas. A versão contemporânea pode
ser resumida assim: o câmbio é importante determinante da inflação; logo, para
controlar a inflação é preciso controlar o câmbio; e para controlar o câmbio é
preciso abrir mão do controle dos juros. O BC ditaria efetivamente a taxa de
juros, mas, para não perder o controle cambial e inflacionário, não poderia
fugir da taxa determinada pelo fluxo de capitais de curto prazo. Anunciaria,
portanto, apenas a taxa exigida pelo mercado. O Banco Central só teria
autonomia para implementar o que exige o mercado. Não é o BC que pauta o
mercado, mas o mercado quem pauta o Banco Central.
Este é o raciocínio que sou obrigado a ouvir
e contestar de forma recorrente. A redução da taxa de juros provocaria fuga de
capitais e forte desvalorização cambial. A inflação sairia de controle, as
expectativas seriam “desancoradas”, o que reforçaria o surto inflacionário numa
espiral incontrolável. Para recuperar a credibilidade, o BC seria forçado a
reverter a redução e elevar a taxa a níveis ainda mais altos, sob risco de
mergulhar o país no caos.
Não concordo, e explico por quê. É fato que o
diferencial de juros é um importante fator na atração de capitais especulativos
de curto prazo, que influenciam a taxa de câmbio. Ocorre que a taxa de juros
brasileira é muito superior à necessária para equilibrar o câmbio num patamar
competitivo. Um país com superávit comercial sustentado há mais de duas
décadas, autossuficiente em energia, exportador de petróleo e com quase 20% do
PIB em reservas internacionais não precisa de uma taxa de juros mais de três
vezes superior às internacionais para evitar uma corrida cambial. A redução dos
juros, se implementada não como ato de voluntarismo político, mas de forma
inteligente e fundamentada, deixaria claro que todos têm a ganhar. Os capitais
de curto prazo continuariam atraídos por um diferencial ainda muito positivo.
Uma eventual desvalorização cambial inicial seria rapidamente revertida pela
melhora das perspectivas de crescimento e do custo da dívida pública. Ninguém
pode argumentar contra o fato de que a redução da taxa de juros estimularia o
investimento, a produtividade e o crescimento — reduzindo ao mesmo tempo o
numerador e aumentando o denominador da relação dívida/PIB, o principal
indicador de risco de crédito do país.
Galípolo conhece os equívocos conceituais do
consenso dominante. Jovem, com uma carreira profissional pela frente, fez uma
opção em relação a suas alianças.Trata-se de um exemplo prático da analogia das
ideias com as roupas, que tratei em “A Teimosa
Persistência das Crenças”. Assim como as roupas, as ideias podem ter
dupla função: a prática e a simbólica. Quando as circunstâncias não impõem sua
função prática, adota-se a simbólica — aquela que nos identifica com um
determinado grupo. Galípolo optou por privilegiar a função simbólica das crenças
e estabelecer as alianças que lhe parecem mais convenientes. Assim fazemos
quase todos e quase sempre, na maioria das vezes de forma inconsciente.
Existe sim alternativa para rever os juros
absurdos impostos pelo Banco Central, mas é preciso quebrar a barreira
ideológica que, sob pretensa fundamentação técnica, transformou a política de
juros num poderoso canal de transferência de renda e riqueza. Enquanto isso não
ocorrer, pouco importa que os bancos centrais sejam presididos por pessoas
competentes como Galípolo e Kevin Warsh. Os dogmas institucionalizados garantem
que o protocolo continuará a ser cumprido.

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