domingo, 10 de maio de 2026

Esperteza que pode engolir Cláudio Castro, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao manipular sucessão, ex-governador do Rio abriu caminho para desembargador promover devassa em sua gestão

A lição costumava ser repetida por políticos mineiros da velha guarda: a esperteza, quando é muita, vira bicho e engole o dono.

Cláudio Castro se julgou esperto ao negociar a renúncia do vice-governador eleito em sua chapa em 2022. Queria abrir caminho ao presidente da Assembleia Legislativa, que disputaria a eleição de outubro na cadeira de governador.

O vice saiu da fila, mas o presidente da Alerj acabou preso sob suspeita de favorecer o Comando Vermelho. Quando Castro renunciou para fugir da cassação, o estado caiu no colo do presidente do Tribunal de Justiça. Era o único na linha sucessória que não devia nada a ele.

O desembargador Ricardo Couto assumiu em 23 de março. Avisou que não faria mudanças drásticas porque esperava sair de cena em poucos dias. Mantido no cargo por decisão do Supremo, abandonou o estilo discreto e deu início a uma devassa na administração estadual.

Em sete semanas, já demitiu mais de 1.700 ocupantes de cargos comissionados e trocou 10 dos 35 secretários. Na sexta-feira, foi a vez do Detran. Couto exonerou o presidente, ligado ao ex-deputado Márcio Canella, e nomeou um ex-comandante do Bope.

O órgão de trânsito era tido como um dos maiores focos de corrupção do Rio. O governo interino recebeu relatos de fraudes em contratos e serviços, além de cobrança de propina a motociclistas reprovados em exames de direção.

O desembargador encontrou uma máquina partida ao meio. Metade do primeiro escalão pertencia ao ex-governador, que chegou a presentear um compadre com a Secretaria do Ambiente. Outra metade estava lotada entre aliados de Bacellar, que usava o governo para atender sua clientela na Alerj.

Para multiplicar os cargos, Castro criou até uma Subsecretaria de Gastronomia, subordinada à Casa Civil. O órgão era controlado pelo deputado Eduardo Pazuello, o general da pandemia. O cabide contava com uma pitoresca Superintendência de Demandas Cotidianas. Tudo foi extinto pelo governador em exercício.

A lógica da partilha política também dominava o Segurança Presente, que não estava sujeito ao comando das polícias. As equipes de patrulhamento eram indicadas por deputados, prefeitos, vereadores e apaniguados. Em Saquarema, quem mandava era Fabrício Queiroz, o notório operador da rachadinha de Flávio Bolsonaro na Alerj.

Ao transferir o programa para a Secretaria da PM, Couto se virou alvo de protestos. Em vídeo nas redes sociais, o deputado Alexandre Knoploch ameaçou usar “instrumentos” legislativos para reverter a medida pelo governador.

O parlamentar não é o único insatisfeito com as mudanças no Rio. Em encontro recente, Castro reclamou das demissões e perguntou se o governador em exercício se considerava seu amigo. Couto respondeu que sim, mas não se fez de rogado. “Se um dia você for preso, vou à cadeia levar cigarros”, ironizou. A esperteza, como ensinavam os mineiros, ainda pode engolir o dono.

 

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