terça-feira, 12 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Crime intimida população — e o governo faz pouco

Por O Globo

Ação tardia reflete maior preocupação com indicadores de popularidade que de segurança

A proximidade com a violência faz parte do dia a dia da população. Para 41% dos brasileiros, grupos criminosos envolvidos com o tráfico de drogas ou milícias atuam no bairro onde moram, de acordo com pesquisa Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Pelas projeções demográficas, isso corresponde a 68,7 milhões de cidadãos. Destes, um quarto afirma que tal presença é “muito visível”.

A situação é percebida principalmente nas capitais (56%) e regiões metropolitanas (46%). Para 35%, criminosos “influenciam muito” as decisões e regras de convivência no bairro. Os receios mais citados são “ficar no meio de um confronto armado” (81%), “ter familiar envolvido com o tráfico” (71,1%) e “sofrer represálias e punições por denunciar crimes” (64,4%). Nesse clima de medo, 74,9% evitam circular em determinados lugares e horários (65,2%) ou falar sobre política (59,5%). O domínio perverso das quadrilhas fica patente quando 12,5% dizem se sentir obrigados a contratar serviços indicados pelo crime e 9,4% a comprar marcas e produtos impostos pelos bandidos.

A pesquisa espelha a dramática realidade das ruas. Numa área de Jacarepaguá, Zona Sudoeste do Rio, traficantes do Comando Vermelho (CV) têm aterrorizado moradores depois de tomar dos milicianos o controle da região, como mostrou reportagem do GLOBO. Eles têm achacado comerciantes com a cobrança de taxas ilegais, sempre apontando fuzis. Sem a garantia do Estado, muitos preferem abandonar o lugar onde viveram por décadas.

A cerca de 2.500 quilômetros dali, a situação não é muito diferente. A mesma facção criminosa tem infernizado a vida de Cabedelo, destino turístico na Paraíba, como noticiou o Fantástico. O controle é feito a partir do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, bunker do CV. Traficantes espalharam câmeras clandestinas, chamadas “besouros”, para monitorar a cidade à distância. Homens armados costumam percorrer as ruas disparando para o alto como forma de intimidação. Autoridades de segurança dizem que o crime organizado está infiltrado nas instituições locais.

A escalada de poder das organizações criminosas tem se tornado desafiadora. Diante de problemas tão graves, era de esperar que o Planalto estivesse minimamente empenhado em combater essas quadrilhas. Mas as respostas de Brasília têm sido lentas e insuficientes. É verdade que, em março, o governo sancionou a Lei Antifacção, que aumenta as penas para crimes praticados por traficantes e milicianos. Foi um avanço, mas a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, que dá ao Estado instrumentos robustos para combater esses grupos, permanece esquecida no Congresso, sem qualquer sinal, mesmo por parte da base governista, de que andará.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está prestes a anunciar um pacote de investimentos de R$ 11 bilhões na segurança, ponto frágil nas avaliações de sua gestão. Recursos sempre são bem-vindos, mas o fato de a medida ser tomada a menos de cinco meses das eleições sugere que o governo está mais preocupado com os índices de popularidade que com os de violência.

IA será um dos maiores desafios de Nunes Marques no comando do TSE

Por O Globo

Ministro prefere postura ‘minimalista’ no combate à desinformação — mas não pode descambar para a omissão

O ministro Kassio Nunes Marques assume hoje a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em substituição à ministra Cármen Lúcia. Sua missão é garantir que a campanha eleitoral cumpra a lei. Comparado ao último pleito presidencial, o de outubro promete ser menos conturbado. Pelo menos não há trama golpista em curso. Mas outros fatores desafiarão a presidência de Nunes Marques. Persistem os ataques descabidos à urna eletrônica e, nos últimos anos, as ferramentas de inteligência artificial (IA) se tornaram melhores, mais populares e mais poderosas para disseminar desinformação. A polarização continua acirrada, e o risco de manipulação é maior.

A celeuma em torno do perfil Dona Maria, um avatar criado pelo motorista de aplicativo Daniel dos Santos, dá a dimensão do que vem pela frente. Desde o ano passado, Dona Maria ganhou popularidade com vídeos em tom emocional e mensagens agressivas contra o governo. Incomodada, a federação formada por PT, PV e PCdoB pediu à Justiça Eleitoral a suspensão do perfil. A alegação é que se trata de uso irregular de IA, desinformação e propaganda eleitoral antecipada. Santos diz apenas expressar o que pensa. Mas, antes de qualquer decisão do TSE, perfis de esquerda passaram a publicar uma versão de Dona Maria simpática ao governo. É ilegal ou está dentro das regras que garantem a liberdade de expressão? Questões dessa natureza serão cada vez mais comuns até outubro.

A aposta de Nunes Marques é aprofundar a parceria com universidades para identificar conteúdos gerados por IA, retirando parte da carga de trabalho da Polícia Federal. Outra frente é aumentar a agilidade das plataformas digitais na remoção de conteúdos irregulares. As que deixarem de retirar do ar de forma imediata serão responsabilizadas nas esferas civil e administrativa.

Antes de assumir o TSE, Nunes Marques foi o relator das novas regras eleitorais aprovadas por unanimidade em março. Quando preparava o texto, ouviu seus pares no Supremo Tribunal Federal e incorporou várias sugestões. Publicação, republicação e o impulsionamento de conteúdos produzidos ou alterados por IA serão proibidos nas 72 horas que antecedem o pleito e nas 24 horas posteriores. O uso da tecnologia deverá ser sempre informado de modo transparente.

A preocupação maior das autoridades eleitorais é o uso da tecnologia para gerar vídeos e imagens fraudulentos. Calúnias orquestradas contra as urnas são outro ponto de atenção. A remoção de perfis ficará restrita a casos de usuários comprovadamente falsos, apócrifos ou automatizados que pratiquem crime eleitoral ou divulguem desinformação de forma reiterada, capaz de afetar a integridade da eleição. Nunes Marques pretende exercer uma presidência “minimalista”, em contraste com a do ministro Alexandre de Moraes entre 2022 e 2024. Dadas as circunstâncias atuais, tal disposição pode ser positiva, mas não pode descambar para a omissão diante das irregularidades.

Autonomia ou Dependência? Por André Lara Resende

Um Cético Esperançoso

As políticas de juros dos bancos centrais estão no cerne dos mercados financeiros. Movem preços de todos os ativos, provocam ganhos e perdas, transferem riqueza, estimulam ou desestimulam a economia. Não surpreende que estejam submetidas a todo tipo de pressões políticas.

Depois de dois anos de duras críticas à política de juros do Banco Central, Lula indicou Gabriel Galípolo para a sua diretoria em 2023. Houve quem achasse que poderia haver uma inflexão na política do BC. No entanto, nada mudou. Nas primeiras reuniões do comitê de política monetária, o Copom, a decisão foi sempre por manter ou até mesmo elevar os juros. Galípolo era apenas uma voz entre os nove diretores membros do comitê — nada poderia fazer para rever a política em curso, alegaram os que contavam com ele para reduzir os juros.

Alçado à presidência do BC no início de 2025, esperava-se que Galípolo tivesse autoridade para finalmente dar início a uma queda consistente até uma taxa compatível com as internacionais. Mais uma vez, não foi o que ocorreu. Ao contrário, com Galípolo na presidência, o BC continuou a elevar os juros. A taxa real de juros é da ordem de 10% ao ano, insustentável quando a economia cresce a menos de um terço disso. Lula, e também Haddad no Ministério da Fazenda, não deixaram de demonstrar discordância em relação aos juros excessivos, mas nunca fizeram críticas abertas a Galípolo na presidência do BC.

Poesia | Convite triste, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Mônica Salmaso | O velho Francisco (Chico Buarque)