segunda-feira, 11 de maio de 2026

Brasília está com medo, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Se bateu no Ciro, quem estará a salvo? Do temor se passa à ação: como estancar essa sangria, como se estancou a Lava-Jato?

O caso Vorcaro será um marco no país. Se levado adiante, revelando quem são os corruptos e como agem, será dado um passo crucial para eliminar uma das principais causas do atraso brasileiro, a roubalheira que junta os setores público e privado. Se for abafado por um acordão, como aconteceu com a Operação Lava-Jato, o país estará condenado a mais alguns anos, talvez muitos, de atraso político e econômico.

O pretexto alegado para a derrubada de toda a Lava-Jato foi, oficialmente, o comportamento impróprio do promotor Deltan Dallagnol e do juiz Sergio Moro na condução dos processos. Mesmo considerando que houve de fato tal comportamento, ficou provado, escandalosamente provado, que havia grossa corrupção. Mas toda essa corrupção e seus agentes foram apagados. É como não tivesse ocorrido nada, a não ser uma conspiração do “tribunal de Curitiba” — como se chamava então a 13ª Vara da Justiça Federal, onde corriam os casos da Lava-Jato.

A rapidez com que tribunais cancelaram as investigações e anularam condenações revela que havia um grande acordo político para acabar com o combate à corrupção. O “Direito de Curitiba”, como dizia Gilmar Mendes, foi extirpado. Pegava gente demais.

O caso Vorcaro está no Supremo Tribunal Federal (STF), relatado pelo ministro André Mendonça. E, pelo que se viu até aqui, ele não parece disposto a abafá-lo. Ao contrário, sua última decisão — a busca e apreensão na casa e no gabinete do senador Ciro Nogueira — atingiu o coração do sistema político. Ciro, acusado de receber mesada de Vorcaro, entre outras impropriedades, é considerado um operador exemplar desse sistema. Conseguiu participar de todos os governos recentes, à esquerda e à direita. Mesmo agora, sendo oposição declarada a Lula, tem um correligionário no ministério.

O que se teme em Brasília: se bateu no Ciro, quem estará a salvo? Do temor se passa à ação: como estancar essa sangria, como se estancou a Lava-Jato? Ocorre que o caso Vorcaro está no STF, última instância do Poder Judiciário. Quem pode armar o acordão para barrar o “tribunal” de Mendonça? Somente seus pares no STF. É muito mais difícil.

O STF acabou com a “República de Curitiba”. Pode acabar com o processo conduzido por um de seus integrantes? Em tese, pode. Basta formar uma maioria de ministros para derrubar a investigação, com base em alguma alquimia jurídica que o pessoal lá sabe inventar muito bem. Mas uma coisa é afastar um promotor e um juiz de primeira instância. Outra, bem diferente, seria anular a relatoria de Mendonça.

Há, portanto, boa chance de o caso Vorcaro seguir adiante. Mais que um episódio, isso representaria a volta do combate à corrupção. Como roubalheira puxa roubalheira — o dinheiro de uma emenda parlamentar desviada precisa ser lavado por alguém, em alguma empresa —, a apuração de um único caso apanhará gente pelo país afora.

O então banqueiro Vorcaro voou alto e foi longe. Além do contrato com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, seu investimento mais caro pelo que se sabe até agora, ele distribuiu mesadas, “convenceu” fundos previdenciários de estados e municípios a comprar suas letras financeiras podres, criou fundos de fachada, colocando em risco o sistema financeiro. Além de oferecer viagens, presentes e festas quentes a figuras ilustres do sistema de Brasília. Essas farras podem vir a dar um bom colorido a uma série a ser filmada quando tudo estiver encerrado.

As operações com bancos e empresas públicas e privadas mostram como a corrupção afeta a economia. Para fazer um bom negócio com qualquer nível de administração, o empresário não precisa ser eficiente, basta comprar as pessoas certas dentro dos governos. Isso desmoraliza tanto o setor público quanto as empresas privadas. Passa a impressão de que ao menos parte do sistema só funciona à base de propina. Além de tudo, é concorrência desleal com quem faz as coisas direito. Sim, muita gente faz a coisa certa e espera isso do país.

Se bateu no Ciro, quem estará a salvo? Do temor se passa à ação: como estancar essa sangria, como se estancou a Lava-Jato?

 

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