Esses laços contam e muito. As reminiscências e emoções nos acompanham pela vida toda. Acredito que nós, brasileiros, damos muito valor aos contatos pessoais. Essas relações pessoais, muitas vezes, se espalham para o terreno da própria economia, gerando o que denominamos por informalidade, fazendo com que o país real seja mais representado pela sociedade civil do que pelas instituições do Estado. E, geralmente, transpomos esse valor mesmo quando nos deparamos com as esferas de poder. Não é difícil observar que o cidadão brasileiro, quando estabelece uma distância em relação a um governante, por exemplo, tende a chamá-lo pelo sobrenome ou, então, pelo nome completo. Ninguém chamava Garrastazu Médici de Emílio. Inversamente, quando o cidadão brasileiro estabelece uma relação de confiança com um governante, tendo a chamá-lo pelo primeiro nome e ninguém chamava Tancredo de Neves.
O que vou narrar mais adiante espero, sinceramente, que não invalide determinadas visões que eu possa ter dos fatos históricos. A ideia é enriquecê-los, inclusive; o testemunho como parte da reflexão. A História não se limita à Memória, porém uma não existe sem a outra. A própria natureza tem memória, ou, no caso, lembrança genética. Conforme destacou Guilherme d´Oliveira Martins, ex-ministro da Educação de Portugal, na sua indispensável coluna A vida dos Livros, publicada pelo Conselho Nacional de Cultura, de Lisboa, no texto Património, os jacarandás plantados em Portugal “têm uma fugaz floração, quase impercetível no outono europeu, uma vez que prevalece a lembrança genética da primavera brasileira.” (mantemos a grafia de Portugal).
Hoje, quando a ideia de Democracia nem sempre passa pela cabeça de alguns dos nossos governantes, eu desejo começar minhas lembranças por Astrojildo Pereira, um homem que marcou, como poucos, a nossa trajetória nacional com seu comportamento humanístico. A partir dele, reflexão intelectual e participação política andam juntas. Gráfico de profissão, foi secretário-geral da Confederação Operária Brasileira (COB), em 1913, com 22 para 23 anos de idade. Em 1917 e 1918, Astrojildo liderou importantes greves no Rio de Janeiro, sendo torturado na cadeia. Fundou, em 1922, a Seção Brasileira da Internacional Comunista – Partido Comunista: este o nome original do PCB. Inteirando-se do papel crescente das camadas médias no país, buscou aproximar o movimento comunista brasileiro dos militares revoltosos – foi Astrojildo Pereira quem trouxe Luiz Carlos Prestes para o Partido Comunista, juntamente com Leôncio Basbaum – e da própria intelectualidade – Di Cavalcanti, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, participantes da Semana de Arte Moderna, os quais ingressaram no PCB ainda nos primórdios desta agremiação, na segunda parte da década de 20. Com isso, Astrojildo rompia com a chamada política de classe contra classe, então a orientação dominante no movimento comunista, revelando ser portador de uma visão nova da realidade social brasileira, mais sofisticada ou menos polarizada.
Autor de vários livros, e posso citar Machado de Assis e Formação do PCB, Astrojildo Pereira criou também inúmeras publicações teóricas, com destaque para a revista Estudos Sociais, que circulou entre 1958 e 1964. O período não deixa de ser significativo: em 1958, Juscelino Kubitschek anistiou os comunistas e, em 1964, ocorreu a intervenção militar. Nessa revista seminal, apresentaria valores como Armênio Guedes, Leandro Konder e Jorge Miglioli, para ficarmos apenas nesses três nomes.
No plano internacional, Astrojildo Pereira integrou a Executiva da Internacional Comunista, fundada por Vladimir Lenin, sendo, aos 39 anos de idade, um dos líderes da revolução mundial. Chegou a conhecer Stalin pessoalmente, tendo com o líder soviético mais de um contato. Em Moscou, dividiu um apartamento com ninguém menos do que o revolucionário e poeta vietnamita Ho Chi Minh, uma das figuras mais destacadas da luta pela emancipação dos povos no século XX.
Oriundo do anarquismo, de extração libertária, portanto, Astrojildo Pereira talvez tenha trazido para o Partido Comunista ainda um ponto de vista mais apurado do papel da sociedade civil entre nós, sempre maior do que o Estado. O PCB e o próprio Brasil só ganharam com isso, a meu ver.
Este revolucionário cordial, na feliz expressão de Martin Cézar Feijó, conviveu com homens como Lima Barreto, Oscar Niemeyer, Hélio Silva, Otto Maria Carpeaux, Graciliano Ramos, Afonso Arinos de Melo Franco, Heitor Ferreira Lima, Nelson Werneck Sodré, Armênio Guedes, Leôncio Basbaum e Luiz Carlos Prestes. Ou seja, com o que o Brasil tinha de melhor e mais plural em seu tempo.
Com apenas 17 anos, protagonizou um encontro com Machado de Assis, eternizado em uma crônica de Euclides da Cunha, intitulada A última visita. O cineasta Zelito Vianna reconstitui historicamente esse episódio, a partir de um argumento do próprio Martin Cezar. Astrojildo Pereira foi um brasileiro raro. E um democrata exemplar. Escrevendo de Moscou em 1925, reconheceu que “a democracia, ainda que burguesa, era vista como um bem pelas massas”. Era preciso ter coragem política para escrever isso naquele momento no país dos sovietes. Astrojildo sempre esteve à frente de seu tempo. Mariza Campos da Paz, que com ele conviveu, não se cansava de destacar isso. No rastro dos dirigentes históricos da luta pela emancipação do homem – e pensamos em Karl Marx, Friedrich Engels, Paul Lafargue, Vladimir Lenin, Rosa Luxemburgo, Clara Zetkin, Antônio Gramsci, Palmiro Togliatti, Georgi Dimitrov, György Lukács, Karel Kosik, Adam Schaff e José Carlos Mariátegui –, Astrojildo unira dialeticamente pensamento e ação. Era a filosofia da práxis ambulante.
Conheci-o em nossa casa, no Rio de Janeiro, logo após sua saída da prisão, em 1965. Astrojildo era companheiro de meu pai, Ivan Alves, gráfico, jornalista e comunista como ele. Eu fiquei impressionado com seu estado de saúde: o velho revolucionário, então com 75 anos, tinha sofrido um infarto na cadeia, de onde saíra ainda com os dois pulmões contaminados pela tuberculose, após os interrogatórios torturantes a que fora submetido pelos esbirros da ditadura. Eu tinha apenas 13 anos. Meu pai me confidenciou, já na década de 1980, que Carlos Lacerda, então governador da Guanabara, se empenhou em sua soltura. Não sei dizer se meu pai, amigo de Carlos Lacerda, chegou a interceder junto a ele nesse sentido. Mas sempre tive essa impressão. Coloquei isso em um livro meu, Brasil, 500 anos em documentos, em 1999. Uma de suas sobrinhas, Norma Dias, me transmitiu a mesma informação, quando lancei depois o documentário sobre Astrojildo Pereira, intitulado A casa de Astrojildo, em 2008. Seu sobrinho-neto, meu querido amigo Delcio Marinho, lembra perfeitamente disso.
A altivez de Astrojildo Pereira era tamanha e sua concepção de mundo tão profunda que, certa vez, atendendo a um pedido meu para que se pronunciasse sobre a atuação dele no terreno cultural do PCB, o saudoso Armênio Guedes deu um depoimento extraordinário em uma reunião realizada em Brasília. Em resumo, ele disse que o velho Astrojildo não admitia interferências na autonomia cultural de uma publicação que editada por ele, com o próprio Armênio. Astrojildo dizia que a revista dirigida por eles, no caso a Estudos Sociais, teria que ser forçosamente plural, como a sociedade também o era, e voltada para ela, ou seja, para fora, e não para dentro do próprio PCB. Não tínhamos que falar para nós mesmos. Ou o velho Astrojildo não estava sempre à frente de sua época?
Há pessoas tão significativas que conseguem praticamente remeter ao esquecimento boa parte das outras. São pessoas que consideramos excepcionais. É o caso de Astrojildo Pereira. Indiquei, certa vez, que Astrojildo foi o primeiro herói da minha vida.
E nem poderia ser de outra forma.
*Ivan Alves Filho, historiador.

Nenhum comentário:
Postar um comentário