domingo, 29 de março de 2015

Levy diz que não criticou Dilma e que ministros agem com humildade

• Titular da Fazenda lamenta interpretação dada a frase sobre atuação da presidente

Martha Beck / Cristiane Jungblut - O Globo

BRASÍLIA e SÃO PAULO - O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, veio a público, no começo da noite deste sábado, dar explicações sobre uma palestra que ministrou para ex-alunos da Universidade de Chicago, na última terça-feira, em São Paulo, na qual afirmou que a presidente Dilma Rousseff é bem intencionada, mas nem sempre age de forma efetiva. Por meio de nota, ele lamentou a interpretação dada à frase. Trechos da fala e do áudio, em inglês, foram reproduzidos em reportagem no site do jornal “Folha de S.Paulo”. O encontro contou também com alguns professores da instituição. Por isso, na conversa gravada Levy fala em inglês.

Na nota, Levy procurou contextualizar o comentário: “O ministro sublinha que os elementos dessa fala são os seguintes: aqueles que têm a honra de encontrarem-se ministros sabem que a orientação da política do governo é genuína, reconhecem que o cumprimento de seus deveres exige ações difíceis, inclusive da Exma Sra. Presidente, Dilma Rousseff, e eles têm a humildade de reconhecer que nem todas as medidas tomadas têm a efetividade esperada”.

Conversa informal
No texto, Levy destaca que sua nota não é oficial e tem caráter pessoal, uma vez que o conteúdo de uma conversa informal com os universitários americanos foi reproduzida numa reportagem on-line. “Isto não é uma nota oficial, mas uma manifestação pessoal do ministro”. A nota acrescenta que Levy procurou transmitir os pontos principais e a importância de se executar um ajuste econômico em face à evolução da economia global e a exigência de crescimento no Brasil.

Embora tenha criticado antes atos e políticas adotados no primeiro mandato do governo Dilma Rousseff, esta foi a primeira vez que Levy se referiu diretamente à presidente.

Na conversa com ex-alunos da Universidade de Chicago, onde estudou e se graduou Ph.D., Levy diz:

“Acho que há um desejo genuíno da presidente de acertar as coisas, às vezes não da maneira mais fácil, mas... Não da mais efetiva, mas há um desejo genuíno”.

Em inglês, idioma em que fez a declaração, o ministro disse: “I think that there is a genuine desire by the president to get things right, sometimes not the easiest way, but...Not the most effective way, but there is this genuine desire”.

Planalto não comenta
Em outras ocasiões, Levy havia qualificado como “um negócio muito grosseiro” o programa de desonerações da folha de pagamentos adotado no primeiro mandato de Dilma. Ao justificar as mudanças que sua equipe propôs para o seguro-desemprego, o ministro afirmara que o modelo atual “é completamente ultrapassado”.

Dias antes de atacar o seguro-desemprego, falando a investidores em Davos, na Suíça, Levy previra “um trimestre de recessão” para o Brasil neste início de ano, completando, que “isso não quer dizer nada em relação ao crescimento”. Depois a Fazenda divulgou nota dizendo que o ministro se confundiu e quis dizer contração.

O líder do DEM no Senado, Ronaldo Caiado (GO), disse que a manifestação do ministro Levy demonstra a dificuldade da presidente Dilma de ouvir os outros.

— Essa declaração demonstra que ninguém consegue conviver com a presidente Dilma. Ela obriga as pessoas a serem subservientes. O ministro confirma aquilo que sempre pontuamos. Isso mostra o quanto ela é centralizadora e que uma de suas características é não ouvir as pessoas — disse Caiado.

A presidente Dilma Roussef foi informada das declarações do ministro da Fazenda, por volta das 18h, antes da divulgação da nota de Levy, mas o Palácio do Planalto não quis se pronunciar.

‘Descontentes’ podem turbinar bancada do PSB

Isadora Perón e Pedro Venceslau – O Estado de S. Paulo

Descolado da base do governo e da oposição no Congresso desde que perdeu as eleições presidenciais do ano passado, o PSB está procurando políticos descontentes dos dois lados e pode ver sua bancada no Senado ser turbinada. Visto como terceira via pelos parlamentares insatisfeitos com os caciques de suas siglas ou constrangidos com o pacote de ajuste fiscal do governo e os desdobramentos da Operação Lava Jato, o partido do ex-governador Eduardo Campos, morto em agosto de 2014, quando era o candidato do partido à Presidência, articula a adesão de senadores do PT, PSDB e PP.

A negociação mais avançada é com a petista Marta Suplicy (SP), que deve ir em maio para a sigla e pretende disputar a Prefeitura de São Paulo no ano que vem pela nova legenda. No campo oposto, a senadora tucana Lúcia Vânia (GO) também está próxima do PSB. Após desentendimentos com o PSDB, ela já consultou o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para saber se perderia o mandato caso optasse por mudar de legenda.

A regra do tribunal sobre a perda de mandato de senadores que pretendem trocar de partido não é clara, mas o entendimento atual é que o Parlamentar mantém o mandato por se tratar de eleição majoritária.

Aliados de Lúcia Vânia contam que o deputado Marcos Abrão, sobrinho dela, é presidente do PPS no Estado. Se ela for para o PSB, poderia unir forças das duas legendas e ganhar projeção como liderança política em Goiás. A insatisfação dela com os tucanos começou quando o senador Aécio Neves (MG), presidente nacional do PSDB, vetou o convite feito pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), para que a senadora assumisse uma vaga na Mesa da Casa.

Outros nomes também foram sondados pelo PSB: os petistas Paulo Paim (RS), Walter Pinheiro (BA) e Delcídio Amaral (MT), além da senadora do PP gaúcho Ana Amélia. Os senadores confirmam as conversas, mas dizem que, agora, não pretendem mudar de legenda.

Rede foi vítima de lei de partidos, afirma advogado

• Especialista ligado ao PSB e PSDB expõe entraves para registro de sigla de Marina Silva ao criticar legislação que, segundo ele, tem viés 'conservador'

Julia Duailibi – O Estado de S. Paulo

O advogado especialista em direito eleitoral Ricardo Penteado avalia que a Rede, partido que a ex-presidenciável pelo PSB, Marina Silva, pretende criar, foi "vítima" da nova regra que altera a Lei dos Partidos, sancionada pela presidente Dilma nesta semana.

"Como a Rede não terminou o recolhimento das assinaturas de apoiamento, vai ser assim violentamente atingida. Porque todos os nomes que ela já trouxe e mais aqueles que ela deve trazer terão de ser rechecados pela Justiça para saber se são ou não filiados a um partido político", afirmou o advogado sobre trecho da nova regra, segundo o qual só podem assinar fichas de apoiamento para a criação de novos partidos pessoas sem filiação partidária. Mas, de acordo com Penteado, a regra é inconstitucional e será questionada no Supremo Tribunal Federal (STF).

A nova lei também tenta impedir que a regra da fidelidade partidária seja burlada e determina que a fusão de partidos só pode ocorrer cinco anos depois de criados. Para Penteado, que atuou em campanhas do PSB e do PSDB nas eleições de 2014 e já advogou para o ministro Gilberto Kassab (Cidades), a regra é "conservadora". "O que se pretende aqui é: ?Não queremos perder parlamentares, não queremos uma dança de cadeiras?. Mas essa dança de cadeiras, quando é a criação de novos partidos, é legítima."

Nova lei
"Aprovou-se uma lei que mexe muito com a estrutura partidária, mas que passou meio despercebida. Foi um projeto aprovado com muita rapidez, tramitou de uma forma muito célere e, depois, foi sancionado com alguns vetos. Nem a sanção nem os vetos foram muito discutidos. Veio meio de surpresa."

Para o advogado, antes de criar a nova regra, o Congresso deveria ter discutido a alteração na Constituição para criar a cláusula de barreira, derrubada pelo Supremo em 2006. "Tem coisa mais importante, e essa lei atropela um pouco esse processo e com uma tendência muito conservadora. Ou seja, o que eles (governo) não querem é que haja alteração nos partidos políticos que hoje estão no Congresso."

Rede
"A Rede se tornou vítima. Como não terminou o recolhimento das assinaturas de apoiamento, vai ser assim violentamente atingida. Porque todos os nomes que ela já trouxe e mais aqueles que ela deve trazer terão de ser rechecados pela Justiça." A Rede teve um primeiro pedido de registro negado em 2013 por não conseguir juntar as 500 mil assinaturas necessárias para sua fundação.

Kassab. "Há uma cogitação da imprensa e do meio político de que, no futuro, o PL iria se fundir com o PSD (partido de Gilberto Kassab). Teoricamente, amanhã, sob a égide dessa lei, qualquer partido que queira se filiar a outro vai ter que se filiar de acordo com as condições dessa nova lei. Primeira condição que chama atenção: qualquer partido que não tenha cinco anos não pode se fundir. É uma coisa curiosa. Por que cinco anos? Você não analisa as conveniências políticas contando esse tipo de prazo."

Dança de cadeiras. "Existe um interesse do governo atual em enfraquecer os partidos, principalmente os que hoje constituem a sua base e que estão pressionando o governo para atender algumas de suas reivindicações. Essa lei tem a cara do PMDB. O que se pretende aqui é: 'Não queremos perder parlamentares, não queremos uma dança de cadeiras'. Mas essa dança de cadeiras, quando é a criação de novos partidos, é legítima."

Inconstitucionalidade. "A Constituição garante o pluripartidarismo. O eleitor, quando apoia a criação do partido, manifesta apenas o reconhecimento de que aquela ideologia merece estar consubstanciada naquela agremiação. Apesar de petista, o ex-senador Eduardo Suplicy, por exemplo, assinou o apoiamento da existência da Rede. Se a Constituição garante o pluralismo, essa lista de apoiamento não pode ter restrição."

Reforma política. "Essa reforma política está sendo feita de uma forma muito pouco pensada para atender a um reclame social de mudança. A sociedade quer mudar o que está aí, mas ainda não tem uma opinião do que quer por no lugar. Enquanto não tivermos certeza do que queremos por no lugar, melhor não mudar."

Financiamento público. "Será que a população já percebeu que, segundo as propostas que existem no Congresso, os partidos que têm mais voto são os que mais vão receber dinheiro? Essa coisa de você dizer 'olha, queremos o financiamento público exclusivo porque não queremos o caixa 2'. Para proibir a traição no casamento, vamos expulsar a esposa ou o marido? Então, não quero caixa 2, o que eu faço? Proíbo o caixa 1."

Mandato de 5 anos. "Ele vem a reboque de uma proposta muito nociva, que é unificar a eleição. Votar do presidente da República ao prefeito traz um difícil julgamento, e as coisas vão se atropelar. Vai haver uma discussão empobrecida em prejuízo de alguém."

Impeachment. "A discussão sobre o impeachment não é algo que a gente possa hoje proibir, qualificar ou desqualificar. Ela é acima de tudo uma discussão política. Mas tenho que reconhecer que o impeachment só é aprovado numa análise política e também sob condições jurídicas muito claras. E as condições jurídicas para um impeachment, tanto quanto eu tenho conhecimento, não existem."

Eduardo Cunha:‘A gente finge que está (no governo). E eles também’

• Presidente da Câmara admite que a relação de seu partido, o PMDB, com o PT e o governo Dilma é muito ruim

Maria Lima, Isabel Braga, Júnia Gama e Sergio Fadul – O Globo

BRASÍLIA - O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, tinha ido dormir às 3h da madrugada. Às 8h de quarta-feira, estava de pé na porta da residência oficial para receber O GLOBO. Meia hora antes, na sala decorada com porta-retratos com imagens das quatro filhas, do filho e da mulher, já havia se reunido com o deputado Hugo Motta (PMDB-PB), indicado por ele para presidir a CPI da Petrobras.

Pediu ao garçom uma vitamina, pôs no prato uma fatia de melão — que ficou praticamente intocada —, e passou a discorrer com acidez sobre erros da presidente Dilma Rousseff, mostrando-se bem à vontade na condição de “bicho-papão” do governo e do PT. Fez um resumo da relação do partido dele, o PMDB, com o governo: “Na prática, a gente finge que está lá (no governo). E eles fingem também (que o PMDB está no governo).”

Cunha afirma que seu poder vem do cargo que ocupa e da percepção de que, para chegar ali, ele derrotou o governo e a oposição. Diz achar que Dilma se cercou de pessoas fracas, mas nega que ele e o presidente do Senado, Renan Calheiros tenham tomado o comando do país.

O senhor defende a redução pela metade dos ministérios. É declaração de guerra ao Planalto?

Eu não estou fazendo crise! Os ministros (do PMDB) não têm ministério (relevante). Sempre foi assim. Na prática, a gente finge que está lá (no governo). E eles fingem também (que o PMDB está no governo).

O PMDB tem dito que não quer mais cargos no governo. É real?

Ninguém quer. Para quê? Você acaba apadrinhando, tem que ser tudo técnico, né? Só que é ladrão técnico, não é ladrão político. Eu conheço ladrões técnicos, muitos ficam buscando os políticos, e muitos (políticos) são inocentes e apoiam. Alguns, eventualmente, podem até ter motivos escusos, não vou dizer que só tem santo. Mas, com certeza, esse ladrão não diz para ele o que está fazendo. Fica um monte de pilantra circulando os políticos, pedindo apoio. Para ficar livre do cara, você diz que apoia. E os caras são ladrões, que querem ter apoio para roubar.

A oposição diz que, na prática, quem está governando é o PMDB, e não Dilma...

Quem tem a caneta? É ela. Quem edita medidas provisórias? É ela. Quem libera o Orçamento? É ela. Quem nomeia e indica a cargo? É ela. Então, é ela quem governa. A devolução da MP 669, do ajuste fiscal, pelo Renan, foi um gesto político. Tanto que o governo revogou a MP, para poder mandar o projeto de lei.

O senhor diria que governo está em colapso político e gerencial?

Não diria que ele está em colapso gerencial. Eu diria que ele está em uma inércia de comunicação. Ele pode até estar gerenciando, mas não comunica o que está fazendo. Eu acho que o governo passa a sensação de estar parado. Ou de não ter o que fazer. A Petrobras foi responsável por 1% do PIB de perda este ano. A Petrobras está parada. O Comperj mandou 19 mil embora. Tem gente na rua pedindo esmola lá (em Itaboraí, RJ). Foi embora a perspectiva de o Rio produzir 85% do petróleo do país, e hoje não refina nem 10%, de poder agregar renda, desenvolvimento. E o processo econômico do Rio é dependente do petróleo. Então, o meu estado está em situação complicadíssima. A gente vê essa paralisia em vários lugares. Ela (Dilma) tem que responder a essa paralisia com ação.

Dilma está conseguindo governar?

Não acho que ela esteja parada. Acho é que está todo mundo no meio de uma crise política que não acaba.

De onde veio a crise?

Essa eleição foi muito diferente das outras três eleições do PT. Eles não tiveram hegemonia eleitoral, mas uma vitória apertada. E não entenderam esse processo. A crise começou no dia em que a presidente ganhou a eleição. Ela não disse o que ia fazer com o país. Isso foi gerando a crise política. Ficou claro e nítido que eles estavam fazendo uma opção de enfraquecer a todos nós.

A presidente não soube manter a base política construída por Lula?

Ela tinha a estrutura e não precisava implodi-la. A leitura que foi feita quando veio aquela operação Tabajara, do Kassab (Gilberto Kassab, ministro das Cidades, que patrocina a criação do PL, visto pelo PMDB como uma tentativa de diluir seu poder), que não podia dar certo. Porque não ia achar uma turma de pessoas experientes da política que assistisse isso acontecer. Eu ouvi uma frase ótima outro dia: “Dá 60 deputados para o Kassab para ver se ele não ia ficar igual”. Kassab virou formador de partido.

Formador de partido para barganhar com o governo?

Eu não quero acusar o Kassab. Foi a opção que ele fez e, se deram corda para ele, quem deu a corda é que está errado. Cada um propõe o que quiser. Quem aceita, ou não, é o outro.

Isso influenciou a crise política?

No dia da eleição, ela (Dilma) foi erraticamente discutir reforma política com plebiscito, e optou por esse caminho de formar um partido falso, inexequível. E isso jamais ia ter sustentação política. Ele (Kassab) foi ajudado por todo mundo para fazer aquele partido.

Foi uma tentativa de a presidente ficar mais independente de Lula e do PT?

Eu acho que não foi contra o Lula. Foi contra a gente mesmo, contra o PMDB.

Mas o PMDB já estava independente na Câmara antes de começar a formação desse novo partido...

Mas a independência do PMDB na Câmara foi por outro movimento errado dela. Ali juntaram dois problemas. Do período eleitoral em que o PT queria a hegemonia e não abria mão. O resultado é que Lindbergh Farias acabou em quarto lugar no Rio. Ao mesmo tempo, aquela reforma ministerial da desincompatibilização (substituição dos ministros que deixaram os cargos para se candidatar em 2014), usar aquilo para acerto eleitoral do PT? Reagimos e ficamos independentes.

Essa ação para afastar o PMDB partiu da presidente ou do PT?

Não sei se foi estratégia do círculo dela. Quando você escolhe as pessoas para fazer parte do seu círculo de intimidade, naturalmente escolhe em qual linha atuar. Pepe Vargas e Miguel Rossetto (ministros da articulação política) não estão no padrão de um processo desse tamanho. Você deve colocar pessoas do mesmo tamanho que você ou maiores. É erro de formação de equipe.

Mercadante tem comando?

Eu não convivo naquela intimidade para saber. Ricardo Berzoini (Comunicações) tem uma doutrina ideológica forte, é patrocinador da regulamentação da mídia, da radicalização dos atos políticos e continua no núcleo do processo. Jaques Wagner (Defesa) pode não estar com poder, mas está no bojo da articulação. É mais maleável.

A articulação precisa de alguém que tenha coragem de enfrentar a presidente e dizer onde está errando?

É preciso ter uma articulação que busque a integração de todos e não deixar prevalecer um ponto de vista. Dilma saiu da máquina. É a primeira presidente da República que não foi parlamentar. Ela não conhece o Congresso.

É hora de pôr alguém de fora do PT?

O problema não é ser ou não do PT, mas de comportamento. Briguei com o (deputado) Henrique Fontana durante a minha campanha, porque não pode o líder do governo dar uma coletiva contra mim, líder do PMDB. Eles, às vezes, misturam muito o papel de PT com governo.

O senhor já pensou em assumir a Presidência da República?

Essa pergunta você sabe que não vou responder, não vou cair nessa (risos).

Basta que duas pessoas viajem para o senhor assumir a Presidência.

Para quê? Para ficar lá cinco minutos e só? Vou usar a caneta para quê? Se o Cid (Gomes) ainda fosse ministro, eu podia demitir o Cid. Mas não vou poder nem demitir o Cid.

O senhor é oposição ou governo?

Nesse momento, sou o presidente da Câmara. Não posso me comportar nem como oposição, nem como governo. Tenho que me comportar como poder independente. Preguei na minha campanha que ia ser independente, não ia ser submisso, e que daria governabilidade. Vou cumprir o meu programa.

O senhor divide opiniões. O senhor é anjo ou demônio?

Eu sou o Eduardo Cunha (risos). Não sou nem anjo, nem demônio. Sou coerente com o que falo.

Controla a CPI e impediu a convocação de Fernando Baiano (apontado como operador do PMDB na Petrobras), como dizem seus adversários?

Não é verdade. Quem controla uma CPI? Por mim, pode convocar quem quiser. O que houve foi a conscientização de não trazer pessoas presas para cá. O caso do Renato Duque é diferente, porque ele ainda não estava preso quando o convocaram.

O senhor está tranquilo quanto às acusações dos delatores?

Absolutamente tranquilo. (Meu advogado) falou que o (doleiro) Youssef fala que não me conhece. Que não tem absolutamente nada contra mim. Forçaram a barra do Youssef perguntando de mim, aí ele fala que ouviu do Júlio Camargo. Ele não me acusa de nada. Diz que não me conhece, não sabe nada de mim.

Mas seu nome foi incluído.

A partir de agora, estou em guerra aberta com o (procurador-geral da República, Rodrigo) Janot. Tudo é possível. Vamos ver até que nível que vai. Ele me escolheu. Está muito claro.

É o maior escândalo do país?

Além de ser inacreditável, foi o maior escândalo de corrupção do mundo. O que mais me incomoda é a gente olhar que tem um escândalo desse tamanho e achar que todo mundo está igual. É a percepção que passa quando abre um inquérito para um e para o outro que não roubou.

O senhor acusou o governo de atuar para te incriminar...

Eu já disse que tinha a mão do governo. Já acusei claramente.

O Congresso atual é conservador?

Ele é! O Congresso é conservador na sua maioria porque a sociedade é conservadora em sua maioria.

Eduardo Cunha é conservador?

Sou um político de centro, que acredita no mercado. Busco essa linha. E sou conservador de costumes sim. Defendo a tese da vida e da família. Aborto, todo mundo é contra. A questão não é só evangélica. É católica. Cristãos que defendem a vida.

Nordeste perde ritmo 'chinês' e começa a sofrer com a crise

• Disparada da inflação e demissões derrubam popularidade de Dilma na região

• Embora ainda seja superior à média, atividade no Nordeste converge para o baixo ritmo do resto do país

Fernando Canzian, João Pedro Pitombo – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO, SALVADOR - O forte aumento da rejeição ao governo Dilma Rousseff no Nordeste ocorre no mesmo momento de uma perda importante do dinamismo na região, que chegou a crescer a velocidades "chinesas" ao longo da década passada.

Segundo o Datafolha, o índice de ruim/péssimo de Dilma saltou de 11% para 55% de outubro a março no Nordeste. O período coincidiu com a disparada da inflação medida regionalmente e com a primeira queda em vários anos do saldo líquido de empregos formais na região.

Embora ainda conserve desempenho superior à média nacional, a atividade no Nordeste vem convergindo para o baixo ritmo do resto do país.

A região também perde terreno em áreas intensivas em mão de obra, como a construção civil. Alguns grupos regionais já reveem abruptamente suas expectativas.

Em 2014, o Nordeste concentrou 30% das demissões na construção civil, setor que cortou 106 mil vagas no país. O recuo de 3,4% na média nacional foi menor que o de 4,6% na região nordestina.

Cortes nas verbas e nos pagamentos de obras de infraestrutura e do Minha Casa Minha Vida são alguns dos principais motivos para o aumento das demissões na região, avalia Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos da Construção da FGV/Ibre.

Diante do novo cenário, um dos principais grupos do setor de material de limpeza do Norte e Nordeste, o Raymundo da Fonte --detentor da popular marca Brilux--, readequou sua projeção de crescimento para 2015, de 12% para 5%.

"Há uma acomodação do mercado e queda no consumo. Se conseguirmos manter o ritmo de produção e não demitir, já vai ser muito bom", diz o diretor comercial do grupo, Romero Longman.

"As pessoas colocaram o pé no freio, comprando em quantidade menor e buscando marcas mais baratas", afirma Teobaldo Costa, presidente da Associação Baiana de Supermercados e dono do grupo Atakarejo, o maior do segmento na Bahia.

Segundo o Datafolha, o Nordeste concentra a maior proporção de eleitores que votaram em Dilma em outubro e que agora consideram seu governo ruim/péssimo: 24% estão "frustrados", ante a média nacional de 16%.

"A rejeição maior vem da frustração com a economia, do medo do desemprego e da percepção da inflação fora do controle. Tudo temperado pelos escândalos de corrupção", afirma Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha.

Cortes do governo afetam mais o Nordeste

• Dependência de obras estatais, que estão paradas e causam demissões, tende a atingir mais a região, dizem especialistas

• Para cientista político, assistencialismo de Lula e Dilma não criou base para crescimento sustentável nordestino

- Folha de S. Paulo 

SALVADOR, SÃO PAULO - Depois do boom de empregos, renda e dos programas sociais nos anos Lula (2003-2010), os nordestinos ainda tiveram um período relativamente próspero sob Dilma 1 (2011-2014).

Agora, neste início de segundo mandato da presidente, preparam-se para cortes nos gastos pessoais diante da redução de investimentos e oportunidades na região.

No Polo Industrial de Camaçari (BA), não há nenhum novo projeto em vista, só a conclusão de fábricas iniciadas durante o boom.

Já a fábrica da montadora chinesa JAC Motors, que teve sua pedra fundamental lançada há mais de dois anos, ficou só na terraplanagem.

Grandes obras de infraestrutura como a transposição do rio São Francisco, a ferrovia Oeste-Leste e o estaleiro Enseada do Paraguaçu, no recôncavo baiano, agora demitem. Neste último, sociedade entre Odebrecht, OAS, UTC e Kawasaki, foram mais de 5.000 cortes em seis meses.

Segundo o sindicato dos trabalhadores, restaram apenas 120 funcionários atuando na área industrial.

Um dos demitidos é Jaílton Souza Ribeiro, 48, dispen- sado em fevereiro com seus dois filhos, de 21 e 22 anos, que também trabalhavam no estaleiro. "Fica um sentimento de frustração. Não vamos encontrar vagas com o mesmo nível na região", afirma Ribeiro.

A doméstica Jaguaraci Freitas, 43, que vive na Ilha de Itaparica, na Grande Salvador, também viu a oferta de empregos na sua região diminuir. Desempregada, vive de bicos, da coleta de mariscos e de R$ 160 do Bolsa Família.

Assistencialismo
Para o cientista político Leôncio Martins Rodrigues, boa parte da popularidade de Lula e de Dilma (que venceram eleições no Nordeste) estava lastreada em políticas assistencialistas que não formaram as bases para um crescimento sustentável na região.

José Márcio Camargo, professor da PUC-Rio e economista da Opus Gestão de Recursos, acrescenta que, por ser muito dependente de obras do governo federal e de políticas assistencialistas, o Nordeste tende a sofrer mais agora com a inflação e corte de gastos estatais. O fato deve levar a uma queda forte no consumo regional.

Mas há quem mesmo na crise mantenha o ritmo de expansão. Caso da rede de farmácias Pague Menos, criada no Ceará e que já tem 755 lojas pelo país.

A empresa cresceu 17,7% no ano passado e mantém uma meta de avançar 18% em 2015, com 90 novas lojas.

Presidente do grupo, o empresário Deusmar Queiróz diz que o mercado não pode ser visto de maneira uniforme e que há espaço para crescer.

O empresário João Carlos Paes Mendonça, presidente do Grupo JCPM, com dez shoppings no Nordeste, vai na mesma linha e pretende abrir nova unidade em Fortaleza e expandir duas unidades em Salvador e Aracaju.

"Já vimos muitas crises. Esta é das fortes, pois envolve política, economia e corrupção. Mas vamos em frente."

Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, afirma que a desvalorização do dólar também pode ajudar indústrias que criaram ou ampliaram operações no Nordeste (para estar mais próximas dos consumidores) a se voltar neste momento de crise ao mercado exportador.

Na Bahia, a Cooperativa Agrícola de Juazeiro, produtora de frutas, pretende tomar esse rumo diante da queda de faturamento no Brasil.

"Hoje, 80% da produção é para o mercado interno. Vamos ter de focar as exportações, mas isso não acontece da noite para o dia", diz.

Segundo pesquisa do instituto Data Popular, 68% dos nordestinos esperam um 2015 pior do que o ano passado.

Congresso tenta pautar agenda do crescimento

Adriana Fernandes e Renata Veríssimo – O Estado de S. Paulo

Em confronto com o Executivo, parlamentares estão decididos a ocupar o vácuo do governo nos projetos de incentivo ao crescimento e ao desenvolvimento econômico. Sob a alegação de que não bastam medidas de ajuste fiscal para recompor a economia, senadores enfileiram um rol de projetos que começarão a ser votados a partir da próxima semana e que, em muitos casos, vão na direção oposta ao plano de austeridade do ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

A construção de uma agenda econômica própria para estimular o ambiente de negócios já começou a ser construída e tem como eixo central a garantia de regras claras para facilitar a atração dos investidores em um ano em que o Produto Interno Bruto (PIB) vai apresentar queda.

A avaliação desses parlamentares é de que a presidente Dilma Rousseff está demorando para acionar um plano de crescimento e que o ajuste fiscal não resolve todos os problemas da economia. Além dos projetos que tratam do chamado pacto federativo e da reforma do ICMS, a articulação no Congresso trabalha pela aprovação de uma espécie de "estatuto" das concessões, aprimoramento do modelo de Parceria Público Privada (PPP) e mudanças nas regras de licenciamento ambiental.

Em outra frente, os parlamentares desengavetaram projeto antigo que limita o endividamento da União em todas as modalidades. O projeto terá relatoria do senador José Serra (PSDB-SP), que já está trabalhando na proposta. O projeto se soma à regulamentação da lei que altera o indexador que corrige a dívida de Estados e municípios com a União e a legalização dos incentivos fiscais concedidos pelos governadores no passado.

Meta fiscal. Envolvido na organização dessa agenda de projetos, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) vai propor emenda para alterar a meta de superávit primário de 2015 e dos próximos dois anos. A proposta será apresentada quando o governo encaminhar ao Congresso a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2016. Por ser atribuição do Executivo, o caminho do Congresso para a mudança da meta só pode ser feito via emenda na LDO.

A proposta é reduzir a meta de superávit primário deste ano de 1,2% para 0,5% do PIB. Em 2016, a meta subiria para 1% e depois 1,5% em 2017. "A meta de 1,2% é um número ao qual não se pode chegar", disse Jucá ao Estado. Segundo o senador, o governo deveria ter proposto uma meta menor para, se o cenário permitisse, fazer um resultado fiscal mais robusto.

"Para o governo voltar atrás é ruim. Mas, se o Congresso entende que o esforço fiscal deve ser modulado, é uma opção política que vamos colocar para o governo e que vai ter um debate no Congresso", disse Jucá.

Para o senador, que foi relator do Orçamento da União, o problema de fluxo de caixa do governo federal hoje é "gravíssimo" e é preciso ter mais conforto. Ele estimou entre R$ 70 bilhões e R$ 80 bilhões o corte das despesas que o governo fará nas próximas semanas.

Para o parlamentar, o ajuste fiscal de Levy dá uma sinalização positiva no curto prazo para o mercado financeiro e para as agências internacionais de classificação de risco, mas a política econômica não pode se resumir a isso.

Apoio. Segundo Jucá, a agenda de projetos econômicos tem o apoio dos presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). "É preciso ter previsibilidade na economia. É tudo que o governo perdeu. O que resolve o problema é o pilar que o governo ainda não adotou, o da animação econômica."

As propostas econômicas que estão sendo reunidas pelos parlamentares procuram criar as condições para que o recurso privado gere a retomada que o País precisa, já que não há verbas do Orçamento da União. O "estatuto" das concessões, por exemplo, visa dar garantias de que não haverá intervenção do governo depois do estabelecimento das regras, como o que ocorreu no setor elétrico e, mais recentemente, nas rodovias, com as medidas concedidas pela presidente aos caminhoneiros em greve, mas que afetaram os concessionários.

Sem espaço de negociação com a equipe econômica, lideranças do setor empresarial têm procurado os parlamentares para encaminhar propostas. Levy, por outro lado, vem nos últimos dias reforçado nos seus discursos que o crescimento só virá com a confiança e esta com o ajuste fiscal.

Pressionado, o ministro, no entanto, já orientou a equipe a amarrar uma agenda de crescimento, mas sem margem de manobra fiscal pouco pode ser feito, reconhecem técnicos da área econômica. O que Levy tem tentado é ganhar tempo. A falta de apoio parlamentar agrava a confiança dos investidores e provoca volatilidade do mercado financeiro. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Merval Pereira - A inação do governo

- O Globo

A escolha do filósofo Renato Janine Ribeiro para o Ministério da Educação jogou um pouco de luz no cenário político que havia muito tempo estava dominado pela incapacidade da presidente Dilma de colocar foco em questões fundamentais para o funcionamento do governo.

Escolher Cid Gomes para um governo que pretende ter como lema "Pátria Educadora" foi um sinal desse descompasso entre a teoria marqueteira e a prática medíocre de um governo sem rumo.

Renato Janine, um intelectual com proximidades ideológicas com o PT, mas independência suficiente para uma atuação técnica de qualidade, sem aparelhamento partidário do Estado, é exemplo de como deveria ter sido montado o governo em seu início, para tentar superar pela qualidade dos escolhidos os problemas previsíveis que encontraria pela frente.

Janine já tem experiência na burocracia de Estado, tendo trabalhado na direção da Capes e no CNPQ. Ao contrário, o baixo nível médio do primeiro ministério mostrou a incapacidade política da presidente de montar uma equipe pela meritocracia, cedendo à lógica do distorcido presidencialismo de coalizão iniciado no segundo mandato do ex-presidente Lula: quanto maior o número de partidos dentro da base aliada, melhor para a formação de uma maioria defensiva, montada não para executar um programa de governo, mas para evitar CPIs e, no limite, o impeachment que quase atingiu Lula em 2005.

Vê-se na prática que essa tese não funciona, pois a presidente Dilma já perdeu a maioria no Congresso, que só existe quando o PMDB deixa. Dependente desse apoio, o governo não governa, isto é, abandona suas funções de fazer a máquina pública andar pela incerteza de ter apoio para medidas que deseja tomar.

A indicação do substituto de Joaquim Barbosa no Supremo Tribunal Federal é exemplar dessa inação governamental. Noves fora a saudável precaução de não nomear ninguém antes de confirmar sua reeleição, e algum atraso normal devido aos festejos de fim de ano e carnaval, a presidente Dilma foi ampliando a cada nova nomeação a defasagem entre a saída de um ministro e a nomeação do novo, chegando a inacreditáveis oito meses desta vez.

Com receio de seu indicado não ser aprovado pelo Senado, simplesmente não decide. Assim também as agências reguladoras, das quais a ANTT e a Anac são exemplos gritantes, trabalham sem os diretores regularmente indicados, pois também têm que ser aprovados pelo Senado.

No Conselho Administrativo da Petrobras, os nomes são indicados e desindicados com ligeireza, a tal ponto que Luciano Coutinho foi nomeado presidente interino do Conselho para dar à Petrobras tempo para conseguir divulgar um balanço auditado, sem o qual o verdadeiro presidente, Maurílio Ferreira, da Vale, não aceita assumir o cargo.

São muitos os exemplos de decisões postergadas devido a esse parlamentarismo branco instalado em Brasília. A presidente não faz mais nada sem detectar antes o humor do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, ou do Senado, Renan Calheiros, e chega-se a situações irônicas como a nomeação de Henrique Alves para o ministério do Turismo, para agradar Cunha, ser suspensa para não desagradar Calheiros, que protege o atual ministro do Turismo.

Para que todos fiquem satisfeitos, é capaz de Vinicius Lages ir para outro ministério, não se sabe qual mesmo, e acabar irritando o PT, ou o PP, ou outro aliado de ocasião qualquer. Enquanto perscruta o humor de Calheiros como os antigos tentavam entender os sinais dos oráculos, a presidente vai limitando sua capacidade de governar, já afetada pelos baixíssimos índices de aceitação popular, que deslegitimam suas decisões.

Como resultado desta inação governamental, cada setor exerce seu pequeno poder sem olhar para o lado, e o Estado vai se desmilinguindo.

Eliane Cantanhêde - Um tesoureiro no Planalto

- O Estado de S. Paulo

A ida de um ex-tesoureiro do PT para a Secretaria de Comunicação da Presidência é um exemplo estridente do isolamento de Dilma Rousseff, enclausurada no PT, sem saída. É duplamente dramático, porque Dilma está fraca, o PT está fraco e um puxa o outro ainda mais para baixo. Típico abraço de afogados, com uma amarga ironia: a única boia à vista é a receita Joaquim Levy - que significa o oposto do que Dilma e o PT pregavam.

Essa nomeação significa que Dilma não está entendendo nada e/ou não dá a menor bola para a opinião pública, cada vez mais irritada com escândalos sem fim. Nada contra a pessoa do afável Edinho Silva, mas a expressão "tesoureiro do PT" remete a Delúbio Soares, preso no mensalão, e a João Vaccari Neto, ainda no cargo e réu na Lava Jato.

E o que se projeta para a Secom? O temor é de manipulação das verbas oficiais de publicidade, que deveriam ser de governo, mas tendem a ser cada vez mais de um partido. Lula, Dilma e o PT sempre culpam a mídia pelas próprias desgraças e, tomara que não, mas podem querer dar uma de Nicolás Maduro na Venezuela e de Cristina Kirchner na Argentina, usando dinheiro público para chantagear empresas de comunicação.

Com estagnação em 2014 (PIB de 0,1%), previsão de recessão em 2015, indústria encolhendo, demissões começando, inflação disparando e falta de perspectiva asfixiando investimentos, cortar publicidade tem ares de vingança cruel. Parece, porém, encontrar simpatia na cúpula petista.

Em recente reunião da bancada do PT na Câmara, presenciada pelo repórter Pedro Venceslau, do Estado, o líder José Guimarães disse que o governo "vive uma sangria" e é preciso "radicalizar, ir para a ofensiva". Para o presidente do partido, Rui Falcão - que é jornalista - o governo tem de restringir a publicidade aos meios de comunicação mais aliados. Ou seja: aos amigos (como os blogueiros sujos, ops!, "independentes"), tudo; à mídia livre, pão e água.

Aliás, que jornalista realmente independente assumiria o cargo neste "caos político", como admitiu a própria Secom? Só um jornalista engajado ou um militante, um soldado, assumiria a comunicação de governo neste momento. É uma missão, é ir para o sacrifício, porque a realidade desmente, dia após dia, a versão de que o derretimento da imagem de Dilma e do partido é "culpa da imprensa".

Milhões de pessoas foram às ruas em 15 de março, e prometem voltar em 12 de abril, não por causa da chamada grande mídia, mas por impulso das redes sociais e pela irritação generalizada com os escândalos bilionários e institucionalizados no governo Lula, com a incompetência do governo Dilma na economia, na política e na gestão e com as mentiras de campanha sobre vacas tossindo.

"Não adianta falar que a inflação está sob controle quando o eleitor vê o preço da gasolina subir 20% ou a sua conta de luz saltar em 33%. Assim como um senador tucano na lista da Lava Jato não altera o fato de que o grosso do escândalo ocorreu na gestão do PT." Quem disse isso não foi a imprensa malvada, foi aquele documento da própria Secom publicado com exclusividade pelo portal Estadão.com.br.

Logo... trocar um jornalista por um tesoureiro do PT e chantagear com verbas publicitárias não vai resolver nada. Não há marketing que faça o PIB crescer, o emprego aparecer, a inflação cair, a conta de luz baixar. Nem que apague o mensalão, o petrolão, os títulos que o Postalis comprou da Venezuela e os bilhões de reais sonegados à Receita a golpes de propina.
Além de paciência, como diria o ministro Jacques Wagner, o ex-tesoureiro Edinho Silva vai precisar muito de... Ah, sei lá.

Educação. Depois de tantos erros crassos, Dilma acertou com Janine Ribeiro no MEC. Um salto e tanto depois de Cid Gomes na tal "pátria educadora"

Bernardo Mello Franco - A madrasta da crise

- Folha de S. Paulo

Alguém se lembra do PAC? Somadas, essas três letrinhas formavam o Programa de Aceleração do Crescimento. Turbinaram o segundo mandato de Lula e o ajudaram a vestir a faixa presidencial na pupila Dilma Rousseff.

Há sete anos, em março de 2008, Lula chamou sua então ministra de "mãe do PAC". "É ela que cuida, acompanha, que vai cobrar junto com o Márcio Fortes [então ministro das Cidades] se as obras estão andando ou não estão", disse, em visita a uma favela do Rio.

Dilma seguiu o script à risca. Para aparecer nas ruas, viajou o país e tirou fotos com chapéu de operário. Para aparecer nos jornais, apagou as luzes do palácio e pilotou sonolentas apresentações de PowerPoint, cheias de tabelas com números e cronogramas de obras.

A oposição dizia que o PAC era um slogan eleitoreiro e que a ministra fazia campanha antes da hora. A imprensa mostrava que as obras estouravam prazos e orçamentos. Não tinha importância. A economia estava crescendo. Os empreiteiros estavam felizes ""naquele tempo, lava jato era só o lugar onde alguém lavava seus carros. A mãe do PAC, que nunca havia disputado uma eleição, virou presidente da República.

Desde que Dilma assumiu, a economia patina. Os números divulgados na sexta-feira mostram que o PIB médio de seu primeiro mandato foi o menor desde a catástrofe do governo Collor. O ano passado, com crescimento de 0,1%, foi o pior de todos. O ministro Joaquim Levy avisou que 2015 será ainda pior. Nas palavras dele, o país deu uma "desacelerada forte". Se o trem estava parado, isso significa que começou a andar de marcha a ré.

O arrocho não poupa nem o programa-símbolo de Dilma, que teve suas verbas cortadas em fevereiro. A mãe do PAC virou madrasta da crise. A sorte dela é saber que não será mais candidata em 2018. O azar pode ter passado para Lula, que contava os dias até a próxima eleição.

João Bosco Rabello - A política da crise

- O Estado de S. Paulo

O deputado Miro Teixeira (PROS-RJ) criou em palestra recente uma síntese que contrapõe à crise política, que chama de a política da crise. Refere-se ao comportamento dos atores nela envolvidos que passaram a cumprir roteiros próprios em que a pirotecnia prevalece sobre a busca de soluções que apontem um rumo ao país.

A política da crise, assim, retroalimenta a crise, graduando a intensidade das dificuldades impostas ao governo, dependente do êxito de um ajuste fiscal sob a responsabilidade do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, para encontrar uma porta de saída que lhe devolva o oxigênio perdido desde que tocou fogo no modelo que estabilizara a economia.

O foco dessa guerrilha de facções está na base chamada (impropriamente) aliada, mais que na oposição formal, empenhada em construir agenda paralela, dissociada do esforço de reconstrução da economia, e cujo êxito parcial se deve exatamente à colaboração que o governo empresta com uma soma impressionante de erros em série.

Agora mesmo, ao dar início a uma reforma ministerial negada na véspera, a presidente Dilma Rousseff dá sinais contraditórios com a nomeação de um professor, Renato Janine, para a Educação, e o tesoureiro de sua campanha para gerir as verbas publicitárias, partidarizando o cofre e realimentando a desconfiança quanto ao equilíbrio do processo decisório de governo.

Janine é valor intangível, enquanto Edinho é imposição partidária com o objetivo de dar unicidade ao combate à liberdade de imprensa, associando asfixia econômica com controle de conteúdos, uma dobradinha entre o tesoureiro-ministro e o ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini.

Nesse cenário tem-se a base aliada na oposição, PMDB contra PT, PT contra PT e ministros contra ministros, ex-presidente contra presidente, sem que exista perspectiva de romper o ciclo de paralisia política, tornando o futuro incerto.

Ferreira Gullar - Se ficar o bicho come

• A situação é tão grave que Dilma chegou a admitir que errou, mas apenas na dose, pois o remédio estava certo

- Folha de S. Paulo / Ilustrada

Ou eu muito me engano ou as manifestações do dia 15 contra a corrupção e os desacertos de Dilma põem o seu governo numa situação de difícil solução. Embora naquele mesmo dia, logo após as manifestações, dois ministros de seu governo tenham tentado minimizar o significado político do que ocorrera, tanto eles quanto ela --como os dirigentes do PT e seus aliados-- sabem muito bem que aqueles protestos, ocorridos em 26 Estados, puseram o governo contra a parede: ou ela admite que errou e passa a reparar os erros ou, se insistir em negá-los, se arriscará a levar o povo a uma exasperação de imprevisíveis consequências.

Não me lembro de uma mobilização popular de tais dimensões no Brasil, desde que acompanho nossa vida política. Os protestos contra a ditadura, como a passeata dos cem mil, por exemplo, eram manifestações limitadas a uma cidade. Outras mobilizações contra o regime militar, pelo próprio caráter repressor do regime, não tinham o desdobramento necessário. Já estas manifestações de agora, não apenas ocorreram no país inteiro, como nasceram de um inconformismo da opinião pública com o governo petista, caracterizado pela demagogia e a corrupção.

O mensalão já tinha chocado a opinião pública; agora, o escândalo do petrolão, envolvendo propinas que chegam a centenas de milhões de reais, ultrapassou a capacidade de tolerância da opinião pública. Isso somado ao fracasso da política econômica, que obriga agora o governo a tomar medidas impopulares, explica a mobilização de setores da sociedade, que saíram às ruas para manifestar seu descontentamento. Uma parte deles chegou a exigir o impeachment da presidente Dilma; a maioria, porém, exigia a correção de seus erros e o fim da corrupção. Sucede, no entanto, que não é próprio de seu caráter admitir que errou.

Tanto isso é verdade que, naquele mesmo domingo, assim que acabaram as manifestações, ela ordenou que dois ministros fossem à televisão negar a importância daqueles protestos. Embora eles mal pudessem apagar do rosto a preocupação que os dominava, Miguel Rossetto deu o recado que sua chefa mandou, isto é, só participaram daquelas manifestações quem havia votado contra ela, ou seja, repetiu a mesma tese de que se tratam de golpistas, inconformados com a derrota nas urnas. Com isso, ela pretendia convencer, particularmente seus eleitores, de que aqueles protestos não deviam ser levados a sério. Mas uma nova surpresa os esperava: a parte da população,
que por algum motivo não foi às ruas protestar, ao vê-los aparecer na televisão, começou a bater panelas para abafar o que diziam. Dilma deveria refletir sobre esses panelaços, pois significam que, para a opinião pública, tudo o que o governo diz não vale a pena ouvir.

Desconhecer o que ocorreu no dia 15 é querer tapar o sol com a peneira. Só na Avenida Paulista, havia 1 milhão de manifestantes, segundo a PM. Em Brasília, no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, multidões enchiam praças e avenidas, pedindo o fim da política populista e da corrupção. Enquanto isso, no Congresso, a base de apoio ao governo começa a rachar, com visíveis discordâncias de seu principal aliado, o PMDB. A situação é tão grave que a presidente Dilma chegou a admitir que errou, mas apenas na dose, porque o remédio --sua política econômica desastrada-- estava certo.

Mas, como se não bastasse, ao falar ao país naquela semana, deu a entender que as manifestações contra ela só ocorreram graças a ela, Dilma. Sabem por quê? Porque tendo participado da luta contra a ditadura militar, foi ela quem devolveu ao país o regime democrático e, assim, tornou possível tais manifestações. Pode?

Pode ser, porém, que esteja perturbada com os resultados da pesquisa Datafolha que a deve ter deixado perplexa ao revelar que 62% do povo brasileiro considera seu governo ruim ou péssimo e só 20% a aprova. Ainda mais significativa foi a revelação de que o nível de desaprovação das classes A e B (a "elite branca") é menor do que o da classe pobre, que era até aqui seu principal apoio.

E ainda faltam três anos e nove meses de governo. Mas impeachment não é a solução.

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O PSOL não apoiou o deputado Eduardo Cunha durante seu depoimento na CPI da Lava Jato, conforme afirmei, em crônica anterior, erradamente.

Fernando Gabeira - Onde está a saída?

• Levei a pergunta para uma dezena de políticos experimentados

- O Globo / Segundo Caderno

Tirei terno e gravata do armário e fui a Brasília. Onde está a saída para a crise? Levei a pergunta para uma dezena de políticos experimentados. Nenhum deles apontou a saída imediata. É um cuidado razoável. O máximo que se consegue é apontar variáveis que possam definir os rumo da crise. Comportamento do governo, ajuste econômico, curso da Operação Lava-Jato são as mais citadas.

Asensação predominante é a de que algo vai acontecer, e ninguém sabe precisamente o que é. A hipótese de um governo sangrando até 2018 é a mais improvável, embora seja esse o desejo de uma parcela de observadores, dentro e fora do Congresso. Marchamos para o desconhecido. É uma fase delicada. Os conservadores tendem a achar que o diabo desconhecido é sempre pior do que o existente. Querem mudança, mas dentro de um quadro planejado, com resultados previsíveis. Mas, nesses casos, sempre existe o argumento de que, muitas vezes, é preciso caminhar, mesmo sem saber o que nos espera, com uma abertura para a novidade. Quanto ao ajuste econômico, deve ser objeto de muita discussão, basicamente sobre quem paga a conta. A tendência é de dias mais duros, com possibilidade de racionamento de energia. É o que os técnicos propõem. Não porque faltará energia para o consumo em 2015. Mas porque é preciso poupar, pois, sem oferta adequada de energia, não existe retomada em 2016.

De qualquer forma, o ajuste econômico passou a ser de interesse nacional, não só por causa da realidade interna, mas também da percepção externa. Graças à expectativa do ajuste, o Brasil não foi rebaixado à condição de país especulativo, com inevitável fuga do capital. Sou pessimista quanto aos passos do governo. O documento que vazou da Secretaria de Comunicação mostra como estão perdidos. Falam de tudo, de robôs, redes sociais, blogueiros, propaganda, mas não falam da mensagem. Dilma tem os microfones à disposição. Mas não sabe usá-los. Em alguns casos é possível aprender. Pessoas tímidas, executivos de grandes empresas fazem um treinamento, chamado media training. Mas não há treino que possa criar um líder para conduzir o país numa tempestade.

Não há mensagem nem presidente capaz de comunicá-la. O panelaço segue como a batida da temporada. A saída de Dilma é usar a tática de guerrilha: falar quando o adversário está desprevenido e recuar quando ele está atento. A outra variável é a Operação Lava-Jato, outro dado positivo que teve peso para que o Brasil não fosse rebaixado pelas agências internacionais. No momento, o foco é o PT.

Os políticos deram azar em ter o juiz Sérgio Moro pela frente. Especialista em lavagem de dinheiro, sabe que rastrear o curso da grana é o caminho real nas investigações. Com base na informação dos delatores e em recibos de empresas, as investigações demonstram o golpe do PT: transformar propinas em doações legais. Leio que o Planalto quer que o PT demita o tesoureiro. O PT hesita. É difícil passar a ideia de que foi tudo culpa de um só homem. É gente muito calejada para fingir que João Vaccari era uma fada de barba que produzia fortunas apenas com o toque de sua vara de condão. Isso irá parecer um pouco aquela lenda urbana da filha de família que trabalha fora e volta sempre com presentes caros para casa. E aí os parentes descobrem, um dia, que a menina faz programas.

A variável mais importante é pouco discutida em Brasília. Dois milhões de pessoas foram às ruas, sem nenhum incidente. A sociedade brasileira ganhou maturidade nas demonstrações e mantém-se vigilante porque sua sorte está em jogo. O agravamento da crise, a dureza do ajuste econômico e a mobilização social podem nos levar a um novo momento. Não ouso descrevê-lo. Sinto apenas que o dilema brasileiro poderá ser esse: fazer um omelete sem quebrar os ovos. Essa tarefa que parece impossível para os estrangeiros não é tão distante assim das soluções históricas no Brasil. Se os culpados pela corrupção na Petrobras forem punidos e chegarmos a um consenso mínimo sobre o ajuste econômico, abre-se a possibilidade de um governo de unidade nacional. O PMDB tem ocupado o lugar do PT. Mas está encalacrado na Operação Lava-Jato. Teria, em caso de sobrevida, a possibilidade de um aceno nacional. O PT, que sempre dividiu o país entre pobres e ricos, brancos e negros, reacionários e progressistas, não tem chance de tentar esse caminho.

O momento é verde-amarelo. Sem nenhum juízo de valor sobre símbolos históricos, quem o confundiu com o vermelho cometeu um erro decisivo. O Estado não é um partido, uma política externa não pode refletir a cabeça da minoria, os direitos humanos não englobam apenas os escolhidos. Quando desenharam uma estrela no jardim do Palácio e tiveram que removê-la, deveriam ter compreendido que é insuportável viver num país que tem dono, seja ele um partido ou um demagogo.

Não se conhecem os protagonistas do futuro. Mas já se sabe quem será atropelado por ele.

Luiz Carlos Azedo - Dançarinos de gafieira

• A crise política que estamos vivendo é consequência de uma incrível sucessão de erros da presidente Dilma Rousseff. Não há possibilidade de saída sem grandes acertos

Correio Braziliense

Filósofo de verdade, Francisco Bosco costuma tirar lições de vida das coisas banais. É um interprete do cotidiano —, das “banalogias”, uma palavra que inventou para intitular um de seus livros de ensaios. Escreve, por exemplo, sobre a gafieira, cujo repertório de passos não é brincadeira: facão, puladinho, gancho, cruzado, peão, balanço, chapéu, pica-pau, raspada, tesoura, bêbado, bicicleta, enceradeira, cadeirinha, tirada, picadinho, floreado, roleta, cavalcante, pescaria, elástico, chicote, parafuso, desmaiada.

Para ele, a ética da gafieira é uma espécie de marco civilizatório, sem a qual todo baile degeneraria em grande confusão, pois as mulheres desacompanhadas são respeitadas e na malandragem reinam a elegância e a picardia. Por isso mesmo, quando a ética é desrespeitada, a coisa fica feia. A grande sutileza da gafieira é a dança que acontece entre eles, não são os passos. O segredo do grande dançarino é aproveitar o erro, criar algo novo a partir dele, como uma espécie de Thelonious Monk: “diz no pé” o que o grande pianista negro fazia com as mãos.

Autor dos standards Epistrophy, Round midnight, Blue monk, Straight no chaser e Well, you needn't, Monk era dono de um estilo único e se destacava pelo improviso. Certa vez uma repórter lhe indagou: “E quando você erra a nota?”A resposta foi antológica: “Não existe nota errada, tudo depende da nota que vem depois”. Assim é o craque da dança de salão. Na gafieira, filosofa Bosco, o erro é a origem do verdadeiro acerto, sua condição.

Se a gafieira é espaço do erro, o lugar onde ele perde o sentido negativo e ganha positividade, na grande política a dialética não é muito diferente. Também é feita de erros, jamais do medo de errar. Mas ele precisa ser sucedido por grandes acertos. O medo de errar paralisa o dançarino, inibe seus passos. Só é superado pela capacidade de aproveitar o imprevisto para acertar. Bosco chama isso de “conquista do erro”, a liberdade de desestruturar os passos, desorganizar suas sequências rígidas; a liberdade de saber que há varias possibilidades de dança, que qualquer movimento abre-se para diversos caminhos.

A dama solitária
A crise política que estamos vivendo é consequência de uma incrível sucessão de erros da presidente Dilma Rousseff. Não há possibilidade de saída sem grandes acertos — em dois sentidos: no estrito, é fazer o que se deve com eficiência e firmeza; no amplo, figurado, a construção de grandes acordos e consensos. Ocorre que o Palácio do Planalto optou pelo dissenso. Quando se espera uma saída pela via da ampliação política, o que acontece é o contrário. Frustram-se a sociedade e a própria base do governo. Como houve uma mudança de correlação de forças, na qual a maioria da população deriva à oposição, trata-se de uma rota batida para o impasse.

Na gafeira, a circulação dos dançarinos segue o sentido anti-horário, como se quisessem que o tempo andasse mais devagar do que o relógio. Para não atrapalhar, os inexperientes vão para o meio do salão. Quando o baile enche, as coisas ficam mais confusas. Lembra o nosso filósofo, aparecem os que “andam pelo acostamento, avançam o sinal, não gostam de ser ultrapassados.” É mais ou menos o que está acontecendo na política brasileira.

Como futebol, compara Bosco, a dança de gafieira é uma arte do engano. Cabe ao cavalheiro enganar a dama, ao mesmo tempo em que ele cria condições — pela condução, que é um fundamento importantíssimo — de a dama não se deixar enganar, antes acompanhar o cavalheiro nessa arte de criar um corpo sobre o terreno movediço do engano. “Dama e cavalheiro andam, ou melhor, dançam na corda bamba do engano: os dois à altura do engano — é essa a exigência ética fundamental da gafieira.”

Eclética, a música de gafieira vai do samba-canção ao tango, do xote ao jazz. Dança-se de tudo, mas cada dançarino tem sua predileção. Nesta crise, a presidente Dilma Rousseff está como uma dama solitária, que toda hora é convidada para dançar. O vice-presidente Michel Temer e os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), são os donos do salão. Há duas possibilidades: ou Dilma aceita o desafio e faz o puladinho e o cruzado, o picadinho e a roleta, a cadeirinha e o floreado, e dá um couro nos dançarinos, ou pega a bolsa e vai para casa.

Vinicius Torres Freire - O acordão das empreiteiras

• PT, PMDB, governo, empresários e Petrobras tentam dar um fim às crises criadas pela roubança

- Folha de S. Paulo

Nem só de tiro, pancada e bomba vive a elite política e econômica. PMDB e PT, por exemplo, estão de mãos dadas para dar uma mãozona ao "acordão das empreiteiras" da roubança da Petrobras e para passar a mão em parte do ajuste fiscal de Joaquim Levy.

O "acordão" pode evitar que as empreiteiras da Lava Jato percam o direito de fazer contratos com o governo, desde que colaborem com investigações, confessem pecados, paguem indenizações e tomem jeito quanto à corrupção, apresentando um programa a ser monitorado pelo poder público (isso é o "acordo de leniência").

Sem "acordão" pode haver colapso ainda maior das obras pesadas no país, afora o risco de que o prometido programa de concessões de infraestrutura do governo vá para o vinagre antes mesmo de ser uva.

Pretende-se que abril seja um mês para dar um jeito na ruína das empreiteiras e no balanço ruinoso da Petrobras. A boa vontade será menor com o plano fiscal que o ministro da Fazenda mandou ao Congresso: os cortes no seguro-desemprego estão na mira do PT; o aumento da contribuição patronal para o INSS e o aumento do custo do auxílio-doença para as empresas estão na mira do PMDB. Faz-se um ajuste aqui, um desajuste ali.

O "acordão" das empreiteiras tem o apoio muito ativo de empresários de espécie variada, mesmo sem relações diretas com o mundo da construção, de entidades como a Firjan, do PMDB da Câmara, da bancada do PT e, como se sabe, do advogado-geral da União, Luís Inácio Adams.

A conversa e o lobby do acordão das empreiteiras voltaram a ferver com a regulamentação da Lei Anticorrupção, que dita as normas dos "acordos de leniência", na semana retrasada. A Controladoria-Geral da União em tese celebra os acordos, detonados pelo pessoal do Ministério Público, para quem tudo isso vai minar as investigações da roubança e pode dar em pizza, afora polêmicas jurídicas.

O "acordão" vai andar de par com a solução para o vexame ruinoso do balanço da Petrobras. Entre outros requisitos legais do acordo de leniência, as empreiteiras vão ter de indenizar governo e, pelo andar da carruagem, a petroleira (que até cogitou de ir à Justiça contra as empresas da Lava Jato). É preciso, pois, acertar o valor da indenização.

Uma pista ou dimensão dos valores possíveis apareceria no balanço da Petrobras de 2014, que não pode ser publicado antes de haver uma conta da rapina sofrida pela empresa. O balanço sairia por volta do final do mês, mais ou menos quando deve assumir o novo presidente do Conselho de Administração da petroleira, Murilo Ferreira, também presidente da Vale.

As empreiteiras estão ou dizem estar na pindaíba. De onde virá então o dinheiro da indenização? A indenização é muito importante porque a Petrobras também está na miséria, ainda mais com o dólar nas alturas, sem saber como fechar as suas contas deste ano. Esse é um problemão do "acordão". O governo se mexe para convencer bancos, BNDES em particular, de que em breve não haveria tanto risco de conceder crédito para as empreiteiras e empresas meio falidas nessa crise criada pela roubança e pelo desmoronamento da política de Dilma 1 para a Petrobras. Mas não é daí que virá, claro, dinheiro para as indenizações.

Míriam Leitão - Quase glacial

- O Globo

Será longo o inverno. Nós o atravessaremos com nossa alma tropical duvidando do sol. Mas ele voltará. Durante a travessia, vamos conviver com inflação alta, notícia de desemprego, recessão e todos os efeitos em cadeia da maior operação de combate à corrupção já vista no Brasil. O governo se desfaz rápido demais para início de mandato, e sua base política foge da fraqueza exposta.

Na economia, o inverno será o segundo ano de estagnação, no qual a atividade descerá um degrau a mais. O crescimento zero este ano seria o melhor cenário, mas nem o Banco Central acredita mais nele. O magro 0,1% de 2014 não configura crescimento, mas livrou o governo da feia palavra recessão estampada nos jornais. Dela, entretanto, não escapará de novo. O país tolera não crescer, mas detesta inflação alta. Quando os dois incômodos aparecem juntos, o desconforto econômico cresce. Ninguém gosta. A certa altura, procurarão um culpado, e o remédio será acusado de provocar a doença. Será um erro de análise, mas ele já está sendo incentivado pelo partido do governo, onde o conhecimento de teoria econômica é, em geral, raso. Os dedos apontarão cada vez mais para a equipe econômica, como sendo ela a causadora dos males que foram contratados no mandato passado.

Ainda estamos no outono, mas não parece. As empresas já começaram a fechar algumas janelas. Investimentos são suspensos, cancelados, empréstimos não são concedidos, as taxas cobradas pelos credores sobem, empresas preferem não correr riscos. Um ambiente assim é quase glacial. Exceto pela temperatura literal que permanece lembrando, em certos momentos do dia, o verão escaldante e seco que tivemos no Sudeste e Nordeste.

Mesmo em momentos invernais, é preciso pensar na volta do sol, porque quem corta demais não se prepara para aproveitar as oportunidades quando elas aparecem. Mas este é o tempo mais difícil de tomar decisões. Cortar parece sensato. A partir de um determinado ponto, no entanto, é contrassenso.

Na política, o ambiente é de fuga em massa, como se o centro do poder fosse não o que é, mas um meteorito que caiu ameaçando arrastar quem se aproxima dele. Isso sempre acontece nas crises. O poder atrai; a perda do poder afugenta. O inesperado é a fraqueza visitar o governo em início de mandato. A situação pode ser superada, mas é preciso que a crise diminua ao entrar no palácio. Não tem ocorrido isso. Hoje, quando a crise entra no centro do governo, ela encontra um vazio de pessoas e ideias e sai de lá ainda mais forte.

Nesse clima, não se pode escalar o técnico da economia para enfrentar os desencontros do campo político. Esse corpo a corpo tem que ser entregue aos articuladores políticos. Eles desapareceram. Foram incompetentes, erraram muito ou foram neutralizados pela briga intestina no núcleo do poder sobre quem é o melhor para o papel. O poder emagreceu a olhos vistos.

Os tremores do combate à corrupção continuarão atraindo todos os olhos. Eles provocarão um efeito dominó na economia. A Petrobras permanece perdida em seu labirinto contábil. Com medo de errar, suspende contratos, que atinge empresas, que não recebem empréstimos, os bancos têm que fazer provisão e vão reclamar seu quinhão às seguradoras. Algumas empresas aproveitarão para se dizer vítimas do tratamento contra a doença da corrupção, quando na verdade elas eram insustentáveis sem os vícios que dominaram a economia. Qualquer generalização é perigosa. Há empresas saudáveis e outras dependentes crônicas das formas escusas de se fazer negócios que se propagou pelo país. Talvez o ano separe os grupos. Mas todos sofrerão com os tremores. O importante para se guiar no meio da confusão é não perder o norte: o combate à corrupção é o tratamento indispensável para haver uma economia mais forte no futuro.

Os ventos frios virão dos quatro cantos. A inflação reduzirá renda, as crises nas empresas aumentarão o desemprego, a correção dos erros passados reduzirá o gasto público, a fragmentação da base de sustentação do governo alimentará a incerteza em todos os cantos. Por isso tudo comecei dizendo aqui que será longo o inverno. Mas nossa alma tropical precisa ser informada de que o sol voltará.

Não são só ministérios – Editorial / Folha de S. Paulo

• Proposta sobre redução do número de pastas, para ter sentido prático, precisa comportar debate sobre ampla reforma gerencial

Diminuir o número de ministérios no Brasil tornou-se símbolo e sintoma da exasperação com a ineficiência e o excesso de gastos do governo. Pauta de protestos contra Dilma Rousseff (PT), o tema se transformou em arma no conflito entre o Legislativo e a presidente. O PMDB ameaça aprovar emenda constitucional que reduz o total de pastas das atuais 39 para 20.

Pôr em questão o disfuncional Estado brasileiro jamais é inoportuno. Restringir o debate ao enxugamento de cargos ministeriais tem pouco sentido prático, mas muito de demagogia e oportunismo.

A ampliação dos ministérios serviu em geral à acomodação de indicados por partidos da coalizão de governo. Em menor medida, foi instrumento para aumentar o peso de determinadas políticas públicas --Igualdade Racial, Mulheres, Direitos Humanos ou Micro e Pequena Empresa, por exemplo.

Em quase todos os casos, a expansão deu-se por meio do desmembramento de pastas. Caso se reagrupem gabinetes sob seus antigos guarda-chuvas, a economia de despesas será mínima.

Se a intenção for extinguir os projetos conduzidos pelos ministérios, é preciso explicitar qual parte do governo será amputada. Isso afetará serviços e, como se vê no debate do ajuste das contas públicas, não passará sem a reação de quem tiver interesses contrariados.

Mesmo economistas que criticam o tamanho do Estado consideram razoável a despesa estrita com o funcionamento da máquina. Em um país de hospitais que muitas vezes carecem de lençóis, qualquer desperdício é relevante, mas cabe lembrar ordens de grandeza.

Cerca de 75% das despesas federais, que chegam a R$ 1,5 trilhão, vão para INSS e benefícios sociais, servidores e juros. O rombo das contas gira em torno de R$ 275 bilhões. O ministério mais controverso, o da Pesca, gasta R$ 255 milhões --e, mesmo que fosse extinto, seria necessário manter muito de seus serviços e pessoal.

Quanto à eficiência, à inovação e à qualidade do serviço público, dificilmente se pode dizer que o inchaço ministerial trouxe progressos, se é que não aumentou a descoordenação do governo.

Melhorias administrativas, contudo, não dependem apenas da configuração e da quantidade de pastas, mas também de medidas de eficácia e promoção do mérito, além da orquestração de programas que dizem respeito a vários ministérios. Encolher o gabinete pode fazer sentido, mas no âmbito de uma ampla reforma gerencial.

A crise ressuscitou o debate sobre a qualidade do governo, mas o encaminha por vias tortas. Vale aproveitar a ocasião para pôr de vez tal assunto na agenda nacional.

Os perigos da guerra fiscal – Editorial / O Estado de S. Paulo

O Congresso Nacional está a um passo de sacramentar e prorrogar por muitos anos a guerra fiscal entre Estados, dando caráter oficial a uma das mais graves perversões da ordem tributária. Se for aprovado o projeto de convalidação, manutenção e ampliação de incentivos - até agora ilegais - concedidos a empresas, será dado sinal verde para novos leilões de investimentos em troca de isenções ou reduções de impostos. Com isso, será prejudicado qualquer projeto de maior alcance, mais sério e mais consequente de reforma do sistema tributário. Governadores continuarão dispondo de um amplo e perigoso arbítrio para administrar o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Com isso, a colcha de retalhos da tributação estadual será mantida. O novo sinal de alerta soou na quarta-feira passada, quando senadores aprovaram, em plenário, regime de urgência para votação do Projeto de Lei Complementar do Senado n.º 130/2014.

Na versão original, da senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO), o projeto permitia a convalidação dos benefícios fiscais e financeiros vinculados ao ICMS e, além disso, dispensava as empresas de restituir os créditos acumulados por meio desses incentivos. Pela Lei Complementar n.º 24, de 1975, um Estado só poderia conceder vantagens desse tipo com aprovação unânime dos membros do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), formado por todos os secretários de Fazenda. Os incentivos foram concedidos sem esse requisito. Foram mantidos porque só o Supremo Tribunal Federal (STF) poderia determinar, de forma conclusiva, sua ilegalidade. Além disso, um governador, mesmo depois de uma condenação, poderia recorrer a subterfúgios para manter os benefícios.

A devolução dos créditos - de centenas de bilhões de reais - seria inviável. A solução razoável seria encerrar a guerra, simplesmente, e começar vida nova. Mas o relator do projeto, senador Luiz Henrique (PMDB-SC), tomou direção muito diferente. Além de propor a remissão dos créditos, sua emenda abre caminho para a reinstituição e a prorrogação de isenções, incentivos e benefícios, além de sua extensão a outros contribuintes estabelecidos no Estado. Por essa versão, cada unidade federada pode aderir aos benefícios concedidos ou prorrogados por outra unidade da mesma região.
Os prazos de prorrogação variam: 15 anos para os programas de fomento industrial e de infraestrutura, 8 para os de manutenção ou expansão de atividade portuária e aeroportuária, 3 para as operações interestaduais com produtos agropecuários de extração vegetal in natura e 1 para os demais.

Além de propor o prolongamento e a expansão da guerra fiscal, o projeto altera as condições de aprovação dos benefícios, eliminando a exigência de unanimidade. Bastarão os votos de dois terços das unidades federadas (os 26 Estados e o Distrito Federal) e um terço das unidades integrantes de cada uma das cinco regiões do País. Será fácil, portanto, reunir os votos dos governos interessados em manter a guerra fiscal. Essa proposta desmoraliza definitivamente o Confaz.

Aprovado esse projeto, o sistema do ICMS continuará sendo uma colcha de retalhos, com 27 legislações. Essa desordem foi facilitada por um erro de origem: o ICM, antecessor do ICMS, surgiu em 1967 como tributo estadual. Na Europa, a competência para cobrar o imposto sobre o valor agregado havia sido atribuída aos governos centrais. Os brasileiros copiaram o modelo sem esse detalhe. O Confaz, criado para garantir a harmonia do sistema, foi desmoralizado em pouco tempo.
Desde os anos 1980 se discutem os defeitos do sistema tributário nacional e propostas de reforma. A necessidade de uma ampla mudança ficou mais evidente nas décadas seguintes, quando se tornou inadiável uma integração maior do País no mercado global. Os tributos brasileiros, a começar pelo ICMS, prejudicam seriamente a competitividade do País. A presidente Dilma Rousseff deveria incluir uma ambiciosa reforma nas prioridades do novo mandato. Mas será difícil de mobilizar os Estados para a reforma, se a convalidação dos incentivos da guerra fiscal for aprovada antes do debate mais amplo.

Carminho - Saia Rodada

Fernando Pessoa - Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.