Folha de S. Paulo
Enterro da nomeação de Messias também anima
forças da direita que querem dominar o STF
Imprevidência e conversa velha na política e
na economia prejudicam projeto Lula 4
O atropelamento
do governo no Senado foi tamanho e tão cheio de significados que o
destino cinzento das taxas de juros no
Brasil ficou parecendo um assunto acadêmico ou menor. Se alguém ainda se
lembra, nesta quarta (29) o Banco Central diminuiu a Selic de
14,75% para 14,5%, mas
deu indícios de que o gato dos cortes de juros está subindo no telhado.
Taxa de juros não é assunto acadêmico ou menor, claro, embora seja conversa muito mais tediosa. Os dois assuntos, porém, são derrotas sérias do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sinais de mais riscos, político-institucionais e econômicos.
O
presidente do Senado, Davi Alcolumbre (UB-AP), mostrou quem manda no cercado
político-politiqueiro. Mostrou de modo terminal, sob Lula 3, quão
pequeno era o poder de articulação e compreensão políticas do governismo.
Difícil saber que coisa o presidente vai poder aprovar no Congresso se não
estender o tapete da humilhação para Alcolumbre. Se tentar retaliação, como
prometiam petistas na noite de quarta, talvez não consigam aprovar nem presente
eleitoral de agrado dos senadores ou ouro para o Amapá.
Além dos problemas políticos lulianos, a
derrota enorme da nomeação de Jorge Messias para
o Supremo é sinal de que turbulências maiores virão. Está certo que a rejeição
de Messias é, em primeiro lugar, uma rasteira no governo Lula; é vingança de
Alcolumbre; é reação de quem tem medo de investigação da PF, de inquérito de
Flávio Dino; de quem quer emendas. Mas não apenas.
Trata-se de demonstração de que é possível
reunir força política suficiente para bulir com nomes do Supremo. No momento, é
força bastante para fazer o adversário eleitoral passar o vexame histórico de
não conseguir nomear um ministro. Mais adiante, pode ser força para conter
o STF ou
decapitar ministros, por bons e maus motivos, com boas ou más intenções (a maioria
má).
Bolsonaristas
e a direita dura ou extrema em geral fazem campanha para eleger bancada
dominante no Senado. O objetivo sabido é o de ter números para votar o
impeachment de ministros do STF ou de formar uma barreira contra qualquer
indicação que não seja do agrado dessa turma. O sacrifício de Messias vai
animar esse projeto. O senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ),
candidato a Bolsonaro Segundo, dizia exatamente isso na noite de quarta, depois
da votação que enterrou Jorge Messias.
Tal
situação deve-se em parte à imprevidência e à inabilidade políticas de Lula 3. Além
da desarticulação no Congresso, o governo esqueceu que havia voltado ao poder
com apoio de centristas minoritários, mas com certa relevância social e
política. Dar uns ministérios e cargos para gente desgarrada do centrão não
resolveu tais problemas. Agora, centristas mais vocais e influentes ou esse
bloco minoritário de eleitores está entre muito decepcionado e fulo com Lula.
Para piorar, o governo não teve nada dizer de novo ao eleitorado.
A desconexão com a realidade, soberba, resultou
em outra imprevidência. A má administração da política macroeconômica,
responsabilidade de Lula, acabou
por resultar em taxas de juros mais altas. A guerra vai impedir que mesmo a
baixa antes prevista da Selic venha a ocorrer. Era pouca, mas se quebrou. O
comunicado do Banco Central desta quarta indica que o caldo azeda. As projeções
e negócios do mercado indicam taxas altas a perder de vista. Foi uma noite de
derrotas para o lulismo.
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