Folha de Pernambuco
Diante da leitura das últimas pesquisas, no
contexto dos escândalos do INSS e do Banco Master, a eleição presidencial de
2026 já admite uma hipótese antes remota: desfecho no primeiro turno. Todas
indicam erosão do favoritismo de Lula e mostram que a direita passou a ter
incentivos claros para trocar dispersão por coordenação. Nelas, o centro volta
a dar sinais de inclinação à direita, enquanto Flávio Bolsonaro busca ampliar
sua aceitação com gestos nessa direção.
A cautela histórica continua necessária. Desde a redemocratização, apenas Fernando Henrique Cardoso venceu a Presidência no primeiro turno, em 1994 e 1998. Basta esse registro como advertência: trata-se de desfecho raro, que exige condições políticas muito específicas.
O primeiro ponto exige precisão. Não é
correto afirmar que os candidatos da direita superam Lula em todos os cenários
testados. Mas é correto dizer que, quando se agregam Flávio Bolsonaro, Ratinho
Junior, Romeu Zema e Ronaldo Caiado, aparece uma maioria potencial anti-Lula.
Na Paraná Pesquisas de fevereiro, Lula tem
39,6% no cenário 1, enquanto Flávio, Ratinho e Zema somam 46,7%; no cenário 2,
Lula marca 40,5%, e Flávio, Zema e Caiado chegam a 44,6%. Na RealTime Big Data
de março, o mesmo padrão reaparece: 43% a 39% no cenário com Ratinho e 41% a
40% no cenário com Caiado. O ponto decisivo, portanto, não é a soma mecânica,
mas o sinal político: existe um campo oposicionista que pode deixar de ser
apenas aritmético para se tornar força eleitoral efetiva.
Isso muda a natureza da corrida. O problema
de Lula hoje não é apenas estar abaixo de 50%. É ver o principal adversário
crescer num ambiente em que candidaturas vizinhas podem deixar de funcionar
como dispersão e passar a operar como reserva de voto útil. A série da Paraná
ilustra esse movimento: Flávio sobe de 19,2% em outubro de 2025 para 35,3% em
fevereiro de 2026, enquanto Lula vai de 37,6% para 39,6%. No eventual segundo
turno, Flávio já aparece numericamente à frente, com 44,4%, contra 43,8% de
Lula.
Existem ainda elementos qualitativos novos
que reforçam a hipótese de competitividade de Flávio: na Quaest de março, 43%
dizem ter mais medo de Lula continuar, enquanto 42% afirmam temer mais a volta
da família Bolsonaro. Na mesma rodada, a desaprovação geral de Lula chega a
51%, contra 44% de aprovação; e, entre as mulheres, 48% desaprovam o governo e
46% aprovam.
Isso não significa que Flávio tenha
atravessado ileso o teste eleitoral. Significa que ele entra na disputa com um
passivo emocional menor do que o esperado. A própria Quaest mostra um quadro
mais ambivalente do que caricatural: 38% o veem como mais moderado do que sua
família, 48% discordam, e 14% não sabem; além disso, 47% dizem que Jair
Bolsonaro acertou ao indicá-lo candidato, contra 39% que consideram ter sido um
erro. Não é cenário de hegemonia, mas tampouco de rejeição incapacitante. É
justamente esse tipo de configuração que pode levar o centro a pender novamente
para a direita, sobretudo quando percebe moderação relativa de um lado e
desgaste crescente do outro.
É aqui que entra o voto útil antipetista. Em
eleições polarizadas, quando um campo passa a enxergar chance real de vitória,
o eleitor deixa de perguntar apenas quem melhor o representa e passa a
perguntar quem pode ganhar. Foi o que ocorreu em 2018, quando a ascensão de
Jair Bolsonaro reduziu o espaço de candidaturas que pareciam mais sólidas no
papel, como Geraldo Alckmin, e esvaziou apostas de perfil liberal, como João
Amoêdo. O mecanismo pode voltar a operar em 2026, caso a direita consolide a
percepção de que dispõe de um polo viável e siga emitindo sinais de acomodação
ao centro.
A desaprovação de Lula reforça esse
incentivo. Na Quaest de março, além dos 51% de desaprovação, 43% avaliam o
governo negativamente e apenas 31% o avaliam positivamente. No mesmo
levantamento, 48% dizem que a economia piorou nos últimos 12 meses.
Se esse quadro persistir, o efeito sobre Ratinho,
Caiado e Zema tende a ser direto. Todos passam a enfrentar o dilema clássico
dos sistemas polarizados: insistir até o fim, correndo o risco de serem vistos
como auxiliares involuntários da sobrevivência do adversário, ou negociar lugar
num arranjo mais amplo. Nesse contexto, uma composição já no primeiro turno,
inclusive com vice oriundo do PSD ou do Novo, deixa de parecer extravagante e
passa a ser inferência racional.
A própria engenharia partidária empurra nessa
direção. Pela regra de transição da Emenda Constitucional 97, nas eleições de
2026 o partido ou federação precisará, para acessar fundo partidário e
propaganda, alcançar 2,5% dos votos válidos para a Câmara, distribuídos em pelo
menos um terço das unidades da Federação, com mínimo de 1,5% em cada uma, ou
eleger 13 deputados federais, também distribuídos em pelo menos um terço das
unidades da Federação. A cláusula de desempenho, somada à formação de
federações partidárias, elevou o custo das aventuras presidenciais e empurrou
mais partidos para uma lógica de sobrevivência institucional.
Isso ajuda a compreender o comportamento
provável das siglas médias. O PSB parece ter mais incentivos para permanecer
novamente na vice de Lula do que para ensaiar protagonismo próprio. Já PSDB,
MDB e PDT buscam sobretudo sobreviver e, na prática, já abandonaram pretensões
presidenciais mais elevadas. No centro do tabuleiro, o chamado centrão continua
estruturado para entrar em qualquer governo vencedor, desde que preserve poder
orçamentário, musculatura parlamentar e capacidade de negociação. Essa lógica
reduz ainda mais o espaço para candidaturas intermediárias competitivas.
Há, porém, um fator relevante a ser
considerado: Flávio ainda não foi submetido ao principal esforço de
desconstrução petista. Se, mais adiante, sua candidatura sofrer queda relevante
sob ataque concentrado, a hipótese de primeiro turno não desaparece; ela pode
apenas mudar de lado, desde que haja recuperação da imagem de Lula.
A conclusão, por isso, precisa ser calibrada.
O peso ainda relevante dos indecisos e dos eleitores não consolidados impede
tratar o primeiro turno como desfecho em marcha. Se houver decisão no primeiro
turno, ela dificilmente decorrerá de uma consagração automática de Lula. Fará
mais sentido, no quadro atual, como produto da consolidação de uma candidatura
da direita capaz de converter maioria potencial em concentração efetiva, voto
difuso em voto útil e convergência partidária em coordenação estratégica. A
tendência que hoje ganha plausibilidade é essa: a de uma oposição
suficientemente coordenada para encurtar a disputa.
Mas a hipótese contrária também precisa
permanecer aberta. Se Flávio for alvejado mortalmente mais adiante, os demais
pré-candidatos da direita provavelmente já estarão fora da disputa pela
dinâmica hoje em curso. Nesse caso, um novo arranjo poderá, sim, abrir caminho
para uma vitória de Lula no primeiro turno. Previsões eleitorais, porém, sempre
convivem com o imponderável. E, neste momento, o imponderável atende pelo
sobrenome Vorcaro.
*André Régis, Ph.D. em Ciência Política pela
NSSR – New York. Professor da UFPE.

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