O Estado de S. Paulo
Mesmo vindo a redução de juros, é preciso resolver a falta de educação financeira, que é estrutural e de difícil solução no curto prazo
Nos últimos dias, os jornais publicaram
notícias sobre esses temas. E notícias fortes, como a de que o endividamento
das famílias bateu recorde em fevereiro, conforme levantamento da Confederação
Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).
Em números, 80,2% das famílias entrevistadas declararam possuir alguma dívida, e esse é o maior nível de endividamento da série histórica mensal, que começou em 2010. A pesquisa revelou também que a inadimplência é alta, com 29,6% das famílias declarando ter dívidas em atraso e 12,6% delas dizendo não ter condições de pagar as dívidas vencidas. Por que, então, as tomaram?
Ao site IstoÉDinheiro, o presidente da CNC,
José Roberto Tadros, declarou que a piora é resultado dos juros em níveis
elevados, mas quanto aos altos níveis que vêm do passado ele não comentou as
razões. Eu estou dizendo que são altos por minha própria opinião, mas, para ser
mais preciso, seria necessário dispor de comparações internacionais, o que não
é o caso.
As principais modalidades de dívida são
interessantes, e o cartão de crédito é citado por 85% das famílias. Em seguida
vêm carnês de lojas ( 1 6 %) , crédito pessoal (12,3%), financiamento de casa (9,8%)
e financiamento de carro (9,8%).
Há dívidas boas e dívidas más. O
financiamento de casa é claramente bom; o de carro é um pouco menos, pois
depende de sua necessidade e do preço. Nos demais casos, a pesquisa não indica
o uso do dinheiro e futuras pesquisas sobre o tema poderiam elucidar o assunto.
O que se sabe é que os brasileiros em geral
têm baixa educação financeira, em particular com relação aos juros que pagam e
que não conseguem avaliar, como nos carnês de lojas. Eles refletem mais sobre
os seus desejos, influenciados pelo que veem na TV, que quase todo mundo tem.
Falar em poupança é algo largamente ignorado. Prevalece o desejo, sem ponderar
outras considerações quanto à dívida, como a efetiva necessidade da compra, a
taxa de juros, a necessidade de poupar, e por aí vai.
Calculadoras portáteis que calculam juros, em
geral, são caras e de difícil manuseio. Por isso tenho recomendado as
calculadoras do cidadão, do Banco Central. Geralmente, cada uma envolve quatro
variáveis e, entrando com três, sai o resultado da quarta. Por exemplo: valor
do financiamento, prazo em meses, valor da prestação e taxa de juros. Elas
estão disponíveis em https://www.bcb.gov.br/meu bc/calculadoradocidadao.
Um caso em que a alta dos juros teve
claramente um maior impacto foi nos pedidos de recuperação judicial de
empresas, que aumentaram muito com a Selic em 15% ao ano desde junho do ano
passado, após sucessivos aumentos. No noticiário, ganharam destaque os pedidos
da empresa Raízen e do Grupo Pão de Açúcar, que ocorreram no início de março.
No caso da Raízen, vi que a recuperação extrajudicial visa a reorganizar cerca
de R$ 65,1 bilhões (!) em dívidas financeiras quirografárias (obrigações sem
garantia real). Matéria deste jornal no domingo passado veio com o título Juros,
gestão e governança ruins levam mais empresas à recuperação, mas dando maior
destaque aos juros, conforme este trecho da reportagem: “Empresas brasileiras
que hoje têm uma dívida equivalente a três vezes sua geração de caixa
operacional anual gastam 50% de sua geração de caixa pagando juros de dívida”.
Há, também, o caso do Banco Master, que atraiu muita atenção – e tudo indica
que está ligado a um problema de gestão. O Banco Central suspendeu o seu
funcionamento, seu presidente foi preso e muita coisa deve rolar pela frente
antes de esclarecer o que realmente aconteceu.
E, no que se refere à Justiça do Trabalho,
veio este título em matéria deste jornal de 16/3: Empresas gastam recorde de
mais de R$ 50 bi em ações trabalhistas em 2025, mostrando que essas ações
ressurgiram depois de uma reforma que houve no passado, quando caíram muito.
“Foram 2,3 milhões de novos processos nas varas do trabalho em 2025 – um
aumento de 8,7% em relação ao ano anterior (2,1 milhões)” e “o pico de
processos ocorreu em 2016, quando 2,76 milhões de novas ações foram
apresentadas. Após a reforma trabalhista – aprovada em 2017, no governo Temer
–, a judicialização caiu”, esclareceu o jornal.
Olhando à frente, as perspectivas não são
boas, porque a redução de juros virá devagar e depende de fatores
imponderáveis, como a política fiscal do governo Lula em ano eleitoral. Mas,
mesmo vindo a redução de juros, nos casos do endividamento e da inadimplência
das famílias há a questão da falta de educação financeira, que é estrutural e
de difícil solução no curto prazo. O Ministério da Educação poderia difundi-la
no sistema de ensino, mas há a necessidade de levá-la à população em geral,
inclusive a idosos – e confesso não saber como fazer isso. O Banco Central
também poderia atuar neste esforço, contando com a colaboração do sistema
bancário.
Também é difícil despertar o poder político
para desenvolver políticas desse tipo, porque não é um tema pelo qual a
Presidência da República e o Congresso Nacional demonstrem maior interesse.

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