O Estado de S. Paulo
Esta coluna prossegue o argumento de texto anterior sobre o quadro estável das eleições (“As dificuldades de Lula para se reeleger não são apenas momentâneas”, há 15 dias). No qual o viés de baixa para Lula permanece, assim como um persistente fenômeno.
As pesquisas indicam um amplo desejo por uma candidatura que fuja ao eixo Lula-Bolsonaro, mas até aqui não há nomes com pontuação expressiva. O descontentamento com “tudo o que está aí”, em tese, favoreceria uma eventual combustão espontânea via redes sociais – ou seja, o aparecimento de uma alternativa. Por ora, ela se faz esperar.
A causa estrutural desse percebido paradoxo é
o fato de que o Brasil se dedica há décadas, nas palavras do sociólogo Bolívar
Lamounier, “à aberração de uma democracia sem partidos”. Que nos colocou num
beco sem saída, o de uma “estrutura de partidos tão somente empenhada (com
raras exceções na História) em assaltar o erário”.
Em outras palavras, não há um centro
democrático organizado e conduzido por agremiações em torno de um conjunto de
ideias e valores, com efetiva representatividade. Por óbvio, prevalecem os
nomes que simbolizam “lados” na disputa entre populismos de colorações
distintas. Não apareceu (ainda?) um “populista de centro”, digamos assim.
A “calcificação”, ou como se queira chamar a
persistência da polarização, gerou em boa parte do eleitorado um perceptível
cansaço. Para o qual o barulho nas redes sociais é, ao mesmo tempo, causa e
consequência. E, em vários círculos de elite (incluindo a política), a
indagação em tom exasperado se o País está mesmo condenado a ter de optar
apenas entre esses dois polos dominantes nas pesquisas.
Há operadores políticos (e agências de risco)
trabalhando no que consideram uma “abertura” de uns 30% do eleitorado para uma
opção fora do eixo Lula-Bolsonaro – que os profissionais responsáveis por
diversos institutos de pesquisas consideram uma aposta arriscada contra o tempo
e contra o que coletam regularmente. Acham difícil, embora não impossível, que
se escape de um duelo de rejeições.
Daí o certo consenso de que as desvantagens
para Lula estão se ampliando, enquanto vê o quadro externo e contas internas diminuindo
suas opções políticas. Em boa medida, resultado da armadilha criada por ele
mesmo, a da política fiscal expansionista, crescimento baseado no consumo e
crédito que não combina com juros altos e investimento baixo.
No duelo de rejeições, Flávio Bolsonaro, o
nome do polo oposto a Lula, está em ligeira vantagem, mas também num patamar
elevadíssimo. Salvo o famoso imponderável, as eleições este ano vão repetindo
votações recentes resumidas na frase “qualquer um menos quem está no poder”. É
um tipo de estabilidade: a de um país meio que parado, à espera de um rumo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário