terça-feira, 5 de maio de 2026

À espera de Lula na volta de Washington, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Se Lula foi derrotado por dar as costas à política, só seu enfrentamento pode lhe devolver as cartas do jogo

A viagem a Washington oferece, mais uma vez, a chance de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva alargar, com a política externa, os horizontes de seu emparedamento doméstico. No mínimo, dilatará o prazo para a reapresentação de um nome para o Supremo Tribunal Federal. Ser recebido por Donald Trump na Casa Branca é, porém, uma resposta limitada à descrença do Congresso em relação à perspectiva de poder de Lula se os resultados da visita não forem bem empacotados e, principalmente, se o presidente não usar a pausa para encontrar, na política, resposta ao beco em que se meteu.

O desaparelhamento político de Lula é tamanho que o combo Messias/Dosimetria virou sua derrota. É o Supremo que continuará com dez ministros, situação que já dura seis meses e atravanca a agenda do tribunal. Os vetos presidenciais foram derrubados, mas foi sobre o Supremo que a dosimetria deixou seu carimbo. O PL foi aprovado a partir da conclusão de que os ministros do STF atribuíram penas excessivas no inquérito do golpe. Ou seja, de que os ministros erraram.

Há um dano inegável para a imagem do Supremo, que é sobreposto pela evidente derrota do governo. Ao fracassar na tentativa de emplacar seu ministro da AGU, Jorge Messias, na Corte, o presidente Lula mostra o quão baixa é, na Praça dos Três Poderes, a aposta na sua reeleição. Esta é uma constatação óbvia. O que não é tão óbvio assim são as condições para perdurar o acordo que alinhavou essas votações. O que se viu foi uma dobradinha entre Congresso e STF numa conjuntura em que se busca maioria na Corte para abafar o caso Master e a reeleição da atual mesa diretora do Senado para evitar, por exemplo, impeachment no STF.

Não precisa ir muito longe para constatar que falta combinar com muitos russos para assegurar as condições sob as quais este acordo pode ser mantido. Primeiro que o inquérito do Master ainda é um embrião. Não apenas há delações sendo negociadas, como o desbloqueio dos celulares de Daniel Vorcaro sequer foi concluído. Tudo isso coloca em questão personagens-chave do acordo STF-Congresso, como o ministro Alexandre de Moraes e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

Na seara eleitoral, as indefinições também prevalecem. As baixas expectativas de poder de Lula medidas pelo Congresso são um dado concreto e relevante, mas não antecipam o resultado eleitoral. Este, até segunda ordem, continua com sua excelência, o eleitor, que ainda não parou para ver, ouvir e dar passagem aos vaticínios parlamentares. Se vier a confirmar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que vai bem nas pesquisas, qual é a garantia de que este apoiaria Alcolumbre e não outro nome de sua confiança, como o senador e seu coordenador de campanha, Rogerio Marinho (PL-RN), ou mesmo a senadora Tereza Cristina (PP-MS), ambos com trânsito alargado ao centro?

Se tudo isso já empurrava Lula para deixar baixar a fervura antes de decidir, a viagem a Washington sacramentou a espera. É o tempo, também, em que o presidente pode mostrar, pela montagem dos palanques estaduais, que não cabe na fantasia de pato manco. Tome-se, por exemplo, Minas Gerais, o Estado que antecipa para onde o vento sopra no resto do país.

Os relatos que chegaram ao gabinete presidencial do comportamento gélido, com governistas, de Rodrigo Pacheco (PSB-MG) na sabatina de Messias na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), confirmaram os sinais de que o senador jogou no time adversário. Como a dúvida sobre a disposição do senador é antiga, o PT engatilhou plano B muito antes da sabatina.

O empresário Josué Gomes, da Coteminas, foi convencido a assinar a ficha no PSB dias antes do prazo de filiação partidária. Há muitas razões para que não ceda, algumas já apresentadas na recusa ao ministério. Às voltas com a reestruturação de sua empresa, Josué Gomes teria que enfrentar uma campanha que ainda passa pelo cafezinho no Estado que mais municípios tem no país. Além disso, se o pai fez política empresarial em Minas, onde presidiu a Fiemg, o filho há muito se estabeleceu em São Paulo, onde presidiu a Fiesp. E, finalmente, ainda há nomes importantes no PT, como a ex-prefeita de Contagem Marília Campos, favorita ao Senado, que insistem em Pacheco.

Por tudo isso, Josué Gomes, que não fala publicamente sobre o tema, estaria a resistir à candidatura, mas não se aposta que seu rol de argumentos se mantenham incólumes aos apelos do presidente, que teve em José Alencar, pai de Josué, seu leal companheiro de chapa e prosa nos dois primeiros mandatos. A chapa seria completada por uma vice como a ex-ministra dos Direitos Humanos Macaé Evaristo (PT).

Há, ainda, o peso intangível de um nome como o de Josué Gomes, que tem encabeçado todos os manifestos de defesa da democracia, como contraponto à reeleição do governador Mateus Simões (PSD), que tem como principal patrocinador seu antecessor, Romeu Zema (Novo), entusiasmado adepto do trabalho infantil. Ou ainda como contendor do senador Cleitinho (Republicanos), fazedor de “selfie” com sócios dos tigrinhos.

Um ministro a quem o presidente ouve tem dito que seu maior adversário é o povo. Foi este o combustível da oposição no rechaço a Messias. Que o STF tenha errado na “política de alianças” com o Senado, é do jogo de uma Corte que tenta, mas não é do ramo. No desembarque, Lula poderá mostrar se ainda o é.

 

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