Folha de S. Paulo
Documentário vencedor do Oscar expõe
autoritarismo pós-moderno de Putin
Obra é resultado da ação de um homem comum que se recusou a viver na mentira
É uma grande alegria —e uma grande tristeza–
assistir a um documentário como "Mr.
Nobody Against Putin", de David Borenstein e Pavel Talankin. Mas quem
quiser compreender o autoritarismo pós-moderno terá de passar por ele.
Chamo-lhe autoritarismo pós-moderno por uma
razão simples: longe vão os tempos em que regimes totalitários exigiam controle
absoluto ou adesão total das populações. Essa ambição jaz hoje entre ruínas. O
poder aprendeu. Tornou-se mais econômico, mais ambíguo, mais sutil.
O controle é parcial, não total. A vigilância
é difusa, não ostensiva. A autocensura é mais importante do que a censura clássica.
O novo autoritarismo não precisa de entusiasmo totalitário, nem de terror permanente, muito menos de uma ideologia sistemática. Precisa apenas de um verniz de normalidade e de adaptação social.
Também na propaganda houve uma evolução. Já
ninguém espera um nazista como Joseph Goebbels ou um fascista como Alessandro
Pavolini gritando palavras de ordem pelo rádio ou em praça pública.
A lavagem cerebral deixou de depender da
monumentalidade artística, do entusiasmo coreografado ou da repetição de
slogans fervorosos. Não se impõe uma crença total; basta dissolver lentamente a
capacidade de distinguir entre verdade e narrativa.
Neste mundo, a propaganda não cria fanáticos.
Cria conformistas. Não procura transformar radicalmente a natureza humana –a
velha ambição utópica. Basta reorganizar lentamente o cotidiano, fragmentando a
sociedade e isolando consciências.
É neste contexto que surge Karabash, o palco
do documentário. No mapa, é uma terra insignificante: 10 mil habitantes
perdidos em algum lugar nos Montes Urais. A esperança média de vida mal chega
aos 38 anos. Vou escrever novamente, por extenso, para não haver dúvida: trinta
e oito. A poluição explica esse recorde: há uma indústria pesada de fundição de
cobre na cidade que vai semeando doença e sofrimento.
Mas a vida segue. Pasha Talankin, professor
do ensino médio, gosta do seu pequeno mundo. Gosta dos alunos. Gosta de filmar
as cerimônias escolares, como quem preserva a normalidade num frasco.
Até fevereiro de 2022.
A invasão da Ucrânia muda
tudo —e muda sobretudo a escola. Como Vladimir
Putin declara na televisão, as guerras não se ganham apenas com
generais; ganham-se com professores disponíveis para educar as crianças e os
adolescentes nas virtudes da "operação militar especial".
Voluntários para o serviço não faltam —e a
guerra entra na sala de aula servida em eufemismos:
"desmilitarização", "desnazificação". Mentiras e mais
mentiras —"ordens de cima", alguém diz, encolhendo os ombros— que
Pasha filma, incrédulo, enojado.
Os menores cantam o hino nacional e desfilam
em paradas simbólicas, prestando juramento à bandeira e ao regime.
Os mais velhos têm o recrutamento ao virar da
esquina —e até o grupo de mercenários Wagner faz uma aparição para os
convencer.
Muitos dos alunos de Pasha cedem ao apelo.
Raspam o cabelo, despedem-se das famílias como sonâmbulos que marcham rumo ao
abismo. Alguns acreditam que a experiência compensa financeiramente.
Pasha sabe que não compensa. Continua
filmando: a escola que se esvazia, os alunos que não regressam, suas próprias
vigílias noturnas. A câmera se transforma num diário moral.
Um traidor, ele, por contestar o regime?
Não. Apenas o "ninguém" do título,
que, apesar da sua condição anônima, consegue distinguir o amor à Rússia do
amor a Putin. Gostar do nosso país, mesmo com todos os seus defeitos, não
significa gostar de quem fala em seu nome. Uma distinção simples, mas cada vez
mais rara, mesmo em democracias.
Que os outros sejam incapazes de vê-la, eis
um problema que se vai adensando –até Pasha, sob suspeita, optar por fugir da
Rússia levando com ele horas e horas de filmagens heréticas.
A história de Pasha poderia ser ficção —e
talvez por isso o cinema contemporâneo
tenha voltado a interessar-se tanto pelo impacto do autoritarismo sobre a vida
das pessoas comuns. No Oscar deste
ano, dois filmes foram exemplares ao tratar do tema: "O Agente
Secreto" e "Foi Só um Acidente", do iraniano Jafar Panahi.
Mas "Mr. Nobody Against Putin",
vencedor do Oscar de melhor
documentário, tem a vantagem de ser um retrato real, imediato, alguns
diriam amador, sobre um homem comum que se recusou a viver na mentira. Um
zé-ninguém? Precisamente. A liberdade sempre sobreviveu graças a eles.

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