quarta-feira, 11 de março de 2026

Trump piscou, por Zeina Latif

O Globo

País poderá sair pior do que entrou no conflito, e com o risco de abrir espaço para mais avanço chinês globalmente e de colher mais enfraquecimento do dólar no mundo.

As repercussões do conflito no Oriente Médio são tão severas, inclusive para os EUA, que causa espanto a ofensiva americana, especialmente porque havia negociações em curso com o Irã, na esteira do ataque de 2025. Enquanto isso, autoridades do país persa já externaram o objetivo de elevar o custo econômico da guerra para estimular o recuo dos agressores, até porque não ficou clara a razão para a ação dos EUA.

Uma interpretação inevitável é que fragilizar a economia chinesa fez parte do cálculo dos EUA. A mesma leitura seria possível na investida contra a Venezuela, pelo fornecimento de petróleo à China, com a diferença de que ações mais efetivas de influência dos EUA na produção e venda do petróleo, como intencionado por Trump, não seriam viáveis no Irã.

Na guerra comercial entre os países, em que a China está na dianteira na corrida da tecnologia digital e de transição energética, os EUA parecem querer deter o dinamismo da economia rival.

De fato, a China tem muito a perder no conflito: a fonte de combustível mais barato (13% da importação vem do Irã); o canal crescente de exportações, especialmente desde o expressivo encolhimento do mercado americano; o investimento no Oriente Médio, sendo a China o maior investidor em dessalinização da água na região; e o aumento do risco de crédito, como aqueles relacionados a refinarias e à produção e ao transporte de commodities.

Segundo o New York Times, as exportações chinesas ao Oriente Médio cresceram quase o dobro das exportações para o resto do mundo em 2025. O mesmo vale para o investimento chinês. Há custos imediatos para a China, contornáveis em um país sem eleições, mas há também para os EUA, e talvez bastante relevantes, não apenas no curto prazo, mas também em uma perspectiva de longo prazo.

Nos efeitos mais imediatos, há o impacto nas bombas de gasolina, que é automático nos EUA — o preço da gasolina já subiu em média quase 17%, e o do diesel, 24% —, podendo respingar em outros preços e abalar a frágil confiança do consumidor. O mau humor dos mercados adiciona riscos, inclusive pela importância da bolsa na poupança das classes médias — cerca de dois terços dos americanos de renda média têm investimento na bolsa.

Os negócios do país no Oriente Médio também são impactados, e há riscos para a agropecuária do Hemisfério Norte, com plantio em breve, por conta do aumento de custos, já que o golfo persa é fonte dominante de insumos agrícolas — a região responde por mais de um terço da ureia e quase um quarto da amônia no mundo, com escoamento por Ormuz, e a alternativa de fornecimento pela China ficou inviável por conta de restrições à exportação impostas para proteger o país de choques geopolíticos.

Quanto ao mercado de trabalho, não que o conflito possa impactá-lo severamente, mas ele não vem em bom momento, inclusive com revisões para baixo na geração de vagas.

Os custos para os cofres americanos agravam o quadro fiscal. O Departamento de Orçamento do Congresso vem alertando para a deterioração fiscal na gestão Trump, que já havia herdado números preocupantes de Joe Biden. O déficit primário para 2026 está previsto em 2,6% do PIB, e o nominal (inclui pagamento de juros), em 5,8% do PIB, isso antes da guerra.

Enquanto isso, o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington DC, estima que a guerra está custando cerca de US$ 891,4 milhões por dia e demandará a suplementação de recursos ao Congresso.

No caso de um conflito prolongado, que esgote estoques estratégicos de insumos, a própria produção de chips e outros produtos intensivos em tecnologia ficaria comprometida. Há grande dependência de Taiwan e Coreia do Sul, além da China, em insumos que passam pelo Estreito de Ormuz. E na complexa e pulverizada cadeia de produção do setor, prejudica-se também o abastecimento de empresas nos EUA, como Apple e Nvidia.

Todo esse contexto poderá pesar nas eleições do Congresso em novembro.

Em uma perspectiva de mais longo prazo, trata-se de mais um fator a enfraquecer a liderança global dos EUA. Passada a tempestade, o país poderá sair pior do que entrou no conflito, e com o risco de abrir espaço para mais avanço chinês globalmente e de colher mais enfraquecimento do dólar no mundo.

Trump, sem grande surpresa, dá sinais de recuo nessa guerra desnecessária aos interesses americanos.

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