O Globo
Pioraram as condições que levaram o planeta à
Covid. Esse quadro profundamente negativo precisa ser enfrentado
Há seis anos, em 11 de março de 2020, Tedros Adhanom, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), declarou que a instituição elevara a Covid-19 à categoria de pandemia. Ela foi um dos eventos mais marcantes dos primeiros 25 anos do século XXI e transformou definitivamente o mundo, não apenas no período de sua vigência, como também depois da declaração de sua extinção, em 5 de maio de 2023. O modo de viver de pessoas e comunidades inteiras se transformou completamente e para sempre.
Sabe-se que a pandemia não foi apenas a
circulação de um vírus entre bilhões de pessoas, que matou e deixou sequelas em
milhões. Sua instalação se deveu a fatores ambientais, econômicos, sociais e
políticos entrelaçados, que facilitaram sua rápida e devastadora propagação e
que, lamentavelmente, permanecem assombrando o mundo.
Informes recentes de respeitáveis instituições
globais mostram o quase apagamento ou negação da pandemia que varreu o mundo há
seis anos, e a piora dos entornos que facilitaram e sustentaram a emergência da
Covid-19.
As condições políticas pioraram pela
fragilização do multilateralismo representado pelas Nações Unidas, pela saída
dos Estados Unidos da OMS e de outras agências e acordos vitais no âmbito da
ONU, como o Acordo de Paris sobre o clima e dezenas de outros.
Desigualdades de toda ordem (sociais,
econômicas, ambientais) criam uma sociedade de castas — alguns megarricos e
bilhões de pessoas e famílias em situação de extrema pobreza, mais vulneráveis
a eventos como pandemias e outras emergências, como mostram recentes relatórios
da Oxfam Internacional e do grupo do pesquisador Thomas Piketty.
As condições ambientais também pioraram,
segundo o Perspectivas do Meio Ambiente Global, sétima edição, do Programa das
Nações Unidas para o Meio Ambiente, assim como a ampliação da sobre-exploração
dos recursos ambientais do planeta e o agravamento da “tríplice crise
planetária”: mudanças climáticas, perda da biodiversidade e poluição aérea,
terrestre e de rios, lagos e oceanos.
No âmbito da governança da saúde global, a
autoridade sanitária mundial da OMS vem sendo atacada por atores poderosos,
como os Estados Unidos, e o Acordo sobre Pandemias e o Regulamento Sanitário
Internacional (RSI) revisado patinam em sua aprovação e implementação, diante
de dissensões políticas que os dificultam desde o início.
A ajuda oficial para o desenvolvimento e a
saúde está em perigosíssimo declínio, pela eliminação ou debilitação de
agências de ajuda de países tradicionalmente doadores, caso dos Estados Unidos,
por meio da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, e
da Europa, que reduz investimentos em desenvolvimento e saúde enquanto amplia
gastos militares.
Iniciativas de preparação e resposta, como a
Missão dos 100 Dias e a Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias,
alertam sobre a ampliação das dificuldades de toda ordem para o alcance de seus
objetivos quanto à produção de diagnósticos, medicamentos e vacinas a tempo e
hora.
Em conclusão, pioraram as condições que
levaram o mundo à pandemia de Covid-19. Por isso mesmo, esse quadro
profundamente negativo precisa ser enfrentado com urgência.
Os países mais poderosos do mundo precisam
assumir suas responsabilidades com o planeta. Países e povos do Sul Global
devem ser ouvidos nas suas reivindicações por reformas nos fóruns
internacionais, mas também precisam acionar uma cooperação Sul-Sul resolutiva
para seus problemas. Os movimentos sociais devem se associar na pressão sobre o
mundo político pelas transformações necessárias.
Sem um compromisso renovado com o
multilateralismo, o desenvolvimento sustentável e a justiça social, o mundo
está, na prática, brincando com fogo. Os sinais de alerta são claros. A questão
é se estamos dispostos a agir antes que as chamas se alastrem novamente.
*Paulo M. Buss, professor emérito e coordenador
do Observatório de Saúde Global e Diplomacia da Saúde da Fiocruz, é integrante
titular da Academia Nacional de Medicina

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