O Estado de S. Paulo
O Banco Central brasileiro destoou do tom de
preocupação de outros BCs com os efeitos da guerra
Os investidores correram para refazer suas apostas para a trajetória de juros nas maiores economias do mundo depois que os bancos centrais deixaram um recado mais duro do que o esperado sobre os riscos para a inflação com a alta nos preços dos combustíveis, em razão do conflito no Oriente Médio. Mas um deles destoou desse tom de preocupação: o BC brasileiro.
É verdade que a decisão do Copom, iniciando o ciclo de corte de juros com redução mais suave da taxa Selic, de 15% para 14,75%, veio em linha com a projeção do mercado. É verdade também que o Copom admitiu que os riscos para a inflação se intensificaram após o início da guerra no Irã. E ainda reafirmou a postura de “serenidade e cautela”.
Mesmo assim, manteve o balanço de riscos para
a inflação exatamente igual ao da reunião anterior, antes da crise no Oriente
Médio e da alta no preço do petróleo, com o barril do Brent ainda próximo de
US$ 100. Para a surpresa de muitos, o Copom destacou que “os indicadores do
final de 2025 mostraram desaceleração na atividade econômica”. A visão de
consenso é outra: de evidente reaceleração da economia no primeiro trimestre de
2026. Além disso, a projeção de inflação para o horizonte relevante da política
monetária (terceiro trimestre de 2027) passou de 3,2% para 3,3%, enquanto a
expectativa era de revisão para, no mínimo, 3,4%. A ata da reunião não veio
muito diferente do comunicado.
Já o Banco Central Europeu, que manteve
inalterada a taxa básica, elevou a projeção de inflação em 2026 de 1,9% para
2,6%. Sua estimativa para o núcleo da inflação em 2027 passou de 1,9% para
2,2%, indicando o risco de a alta no custo de energia se propagar para outros
preços. Na Inglaterra, o banco central manteve a taxa parada, mas alertou que
“estava pronto para agir”. Os investidores já precificam três altas de juros na
Zona do Euro e na Inglaterra até o fim do ano.
No Japão, o BC sugeriu que pode elevar os
juros em abril. Na Austrália, aliás, o BC subiu sua taxa pelo segundo mês
consecutivo e sinalizou mais aperto adiante. Nos EUA, o Federal Reserve deu
maior ênfase aos riscos à inflação com a alta do petróleo, levando o mercado a
praticamente eliminar as apostas de corte de juros em 2026.
Mesmo que no Brasil a Selic siga em nível
restritivo, o Copom não fez qualquer menção do risco de pausa no ciclo de corte
de juros se a situação no Golfo Pérsico piorar ou o preço do petróleo ficar
elevado por muito tempo. Pelo contrário: deixou aberta a porta para acelerar o
corte para 0,50 ponto porcentual na próxima reunião.

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