O Globo
Com a palavra, o príncipe de Salinas,
aristocrata siciliano, personagem de “O Leopardo”, genial romance de Giuseppe
Tomasi di Lampedusa: "Tudo isso não deveria poder durar; mas vai durar,
sempre; o sempre humano, é claro, um século, dois séculos...; e depois será
diferente, porém pior."
Em 2026, sabe-se que seis dos dez ministros do Supremo Tribunal Federal receberam da Viúva valores superiores ao teto (o salário deles, R$ 46.366,19). São os conhecidos penduricalhos, todos legais.
O ministro Flávio Dino,
que pretende limitar essas prebendas, em dezembro de 2024, quando já estava no
STF, recebeu cerca de R$ 55 mil líquidos. Era produto de um penduricalho de
verbas retroativas referentes a direitos não usufruídos enquanto ainda era juiz
federal, como férias e folgas — além do salário. Naquele mês, o doutor recebeu
R$ 56 mil líquidos. Em dezembro de 2020, ao tempo em que era governador
do Maranhão,
em virtude de direitos retroativos, Dino ganhou R$ 106 mil líquidos.
A reportagem de Luany Galdeano, Arthur
Guimarães de Oliveira e Idiana Tomazelli mostrou que outros cinco ministros do
Supremo foram beneficiados por prebendas semelhantes e, desde 2019, essa
bancada recebeu R$ 2,8 milhões em valores correntes: Alexandre
de Moraes (mais de R$ 1 milhão), Gilmar
Mendes (R$ 880 mil), Kassio
Nunes Marques (R$ 277 mil), André
Mendonça (R$ 491 mil). Não há registro de pagamentos para os
ministros Edson
Fachin, Cármen
Lúcia e Cristiano
Zanin, advogado de banca privada.
Vale repetir, todos esses penduricalhos eram
legais, como era legal a prebenda do século XIX. Naquele século, a elite de
Pindorama aninhava-se na prebenda dos negros livres, em que estiveram pelo
menos dois magistrados do Supremo Tribunal de Justiça (o STF do Império).
Explicando: desde 1831, a lei dizia que
seriam livres todos os negros trazidos da África e capturados em Pindorama.
Eles devem ter sido uns 10 mil, enquanto o contrabando trouxe cerca de meio
milhão de escravizados. Os negros tornavam-se escravos da Coroa, e alguém teve
a ideia de privatizá-los. A Coroa os mandava para cidadãos ilustres (inclusive
jornalistas). O concessionário pagava uma taxa anual que podia ser amortizada
alugando o negro por um mês.
Um negro privatizado era vantajoso, porque,
enquanto um fazendeiro perdia seu capital quando ele morresse, com a privataria
bastava requerer outro.
A professora Beatriz Gallotti Mamigonian
listou 570 beneficiados pela prebenda. Ali há de tudo, do genro e da neta de
José Bonifácio a três ilustres Lima e Silva, um tio, o pai barão e seu filho,
então Marquês de Caxias. Há lotes de barões, viscondes e marqueses. Mais alguns
desembargadores e os ministros do STJ Francisco José Alves Carneiro e José
Paulo Figueirôa Nabuco de Araújo.
Nessa boquinha entraram uns dez jornalistas,
inclusive o maior deles, Justiniano José da Rocha. O Marquês de Paraná, um dos
maiores políticos do Império, e sua mulher receberam 21 negros.
A prebenda foi extinta, vieram a Abolição e
as Repúblicas. Tudo aquilo não deveria poder durar; mas durou o sempre humano,
um século, dois séculos.

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