segunda-feira, 4 de maio de 2026

BC sobe o tom, mas evita dizer a dose de juro, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Projeção de inflação do BC dá recado importante ao sinalizar que não parece haver espaço para os juros caírem a 13% ao ano até o fim de 2026, como previa o mercado

O grande desafio do Banco Central na política monetária será conter a deterioração das expectativas de inflação de longo prazo. Ainda não está claro, para participantes do mercado financeiro, como o Comitê de Política Monetária (Copom) pretende fazer isso.

O comunicado da reunião da semana passada - que baixou a taxa Selic de 14,75% para 14,5% ao ano - ficou no meio do caminho. Reconheceu que o cenário piorou, deixando a inflação projetada mais longe da meta. Mas, para alguns, faltou o Copom dizer claramente qual vai ser a reação da política monetária.

Muito provavelmente, porém, a comunicação do BC não está completa. Há pontas soltas no comunicado. Alguns especialistas do mercado financeiro acham que elas podem ser mais bem esclarecidas com a divulgação, amanhã, da ata do Copom.

O BC deu um recado importante ao sinalizar, com sua projeção de inflação, que não parece haver espaço para os juros caírem a 13% ao ano até o fim de 2026, como previa o mercado. Mas faltou dizer qual é a dose de juro necessária. É pouco provável que o BC cite um percentual, mas pode intensificar a retórica na direção de fazer o que for preciso para cumprir a meta.

Ficou uma outra ponta solta no chamado balanço de riscos para a inflação. O comitê não deu nenhum sinal de que, hoje, os riscos negativos para a inflação já superam os positivos, contrariando as expectativas de setores do mercado financeiro.

Mas as coisas não estão imóveis: o Copom mudou a sua descrição de um dos principais riscos negativos, citando explicitamente a possibilidade de a pressão inflacionária originada da guerra no Oriente Médio ter efeitos mais prolongados nas expectativas.

Desde o começo do conflito, as expectativas de inflação para 2028 vêm piorando, passando de 3,5% para 3,61%. Uma parte da culpa cabe à política fiscal e creditícia - com o governo colocando o pé no acelerador, o controle da inflação pelo canal da atividade econômica ficava obstruído. Os ataques ao BC da ala política também atrapalham. Mas, no fim das contas, a deterioração das expectativas é um problema que diz respeito à credibilidade do Banco Central.

Os membros do Copom, já há algum tempo, deram sinais de que estão preocupados com isso. O presidente do BC, Gabriel Galípolo, colocou o foco nas expectativas de inflação de 2028. O diretor interino de Política Econômica do BC, Paulo Picchetti, reconheceu não apenas que elas tinham piorado, como que há uma tendência de deterioração adicional.

Em março, Galípolo disse que o BC precisava de tempo para entender a situação. No encontro do Copom da semana passada, a tendência de deterioração das expectativas já era um fato consumado.

O comunicado já escalou um pouco mais a retórica do Banco Central. Antes do conflito, as projeções de inflação diziam que era possível cortar os juros aos 12% ao ano esperados pelo mercado e, ainda assim, cumprir a meta de inflação, de 3%. De lá para cá, o mercado reviu a sua expectativa para a Selic no fim do ano para 13%, já incorporando a resposta que o BC deve dar ao surto inflacionário causado pela guerra. O Copom, no comunicado, deu um recado importante: se os juros caírem a 13% ao ano, a inflação fica em 3,5%, mais distante da meta.

O mercado entendeu que, para combater os efeitos inflacionários da guerra, a economia terá de operar com juros acima de 13% ao ano. O que todos estão tentando entender é o quanto, na visão do BC, seria essa taxa de juro necessária para fazer o serviço.

Alguns economistas estimam que a taxa tenha que ficar, na verdade, em 14% ao ano, considerando que cada ponto percentual na taxa Selic baixa a inflação em cerca de 0,3 ponto percentual. Outros, mais pessimistas, acham que, na reunião da semana passada, já não havia espaço para o Copom cortar a taxa Selic.

Com canais da política monetária entupidos pelas medidas fiscais, o Banco Central tem que sobrecarregar os demais. Um deles é o câmbio, que está respondendo bem aos juros altos. Outro canal vital são as expectativas de inflação - e elas vão atuar na direção certa apenas se a dose de juro do BC for suficientemente forte.

Mas parece pouco provável que o comitê vá sinalizar uma taxa Selic específica num horizonte tão distante como o fim do ano, em meio a todas as incertezas do seu cenário. Qualquer sinal pode ser confundido com promessa - e parece arriscado se amarrar com uma estratégia num cenário ainda mutante.

O que o Copom pode dizer, porém, é que vai fazer o necessário para cumprir a meta de inflação. Pode explicitar a sua função de reação, ou seja, reafirmar que vai reagir da forma esperada conforme o cenário evoluir.

O balanço de riscos para a inflação é um instrumento importante nessa retórica. Em março o Copom discutiu torná-lo assimétrico. Picchetti expressou sua visão pessoal na reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Washington, de que os riscos já pendiam para o lado negativo.

No comunicado da semana passada, não há nenhum sinal de que ele tenha deixado de ser simétrico. Mas o Copom colocou maior foco nas expectativas longas - num sinal de que esse pode ser um caminho que levaria a uma política monetária mais dura.

 

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