segunda-feira, 4 de maio de 2026

Dez vezes sem juros: o custo invisível do empréstimo, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O problema do endividamento excessivo é uma consequência do aumento da oferta de crédito no país

Muitos pais já ouviram dos filhos, quando diziam que aquele brinquedo, aquele tênis era muito caro:

— Mas aceita cartão.

No tempo em que se usava dinheiro vivo, ouvi de uma senhora rica que não gostava de cheque, nem de cartão. Dizia:

—A gente compra, compra e parece que não gastou nada.

Pois é, a gente sabe que não é assim, mas o cartão de crédito dá aquela sensação de que depois se arranja o dinheiro. Ou se joga a dívida mais para a frente.

Tem mais: a maravilhosa invenção do pagamento em dez vezes sem juros, no cartão. Ou mais. Outro dia, comprei um celular pagando em 24 vezes. Parece que tudo fica acessível. Sabemos que não é sem juros, nem de graça, mas com frequência a tentação fala mais alto.

Nos programas e cursos de educação financeira, uma das demandas mais frequentes é justamente sobre a administração dos cartões. Há casos de pessoas que, não conseguindo fugir da tentação, simplesmente picotam seus cartões e prometem nunca mais usar. Ou, ok, vá lá, não usar por seis meses ou até que todos os cartões estejam zerados.

O problema do endividamento excessivo é uma consequência do aumento da oferta de crédito no país. Mas talvez fosse melhor dizer que aumentou muito a oferta de cartão de crédito, fato paralelo à bancarização — a inclusão de faixas de renda mais baixas no sistema bancário. Preste atenção: em aplicativos, nos meios de comunicação são oferecidos diversos tipos de cartão e de crédito. Hoje, são nada menos que seis cartões por pessoa — incluindo crédito e débito. O leitor faça sua conta. A maioria se surpreenderá. Ainda mais agora, quando não se usa mais dinheiro.

Mesmo pessoas com boa educação financeira se atrapalham e acabam caindo no desastre de usar cheque especial para pagar o saldo do cartão. E pessoas sem educação financeira, novatas no uso de cartões, com frequência não percebem que o pagamento mínimo as joga no crédito rotativo, com aqueles juros exorbitantes.

Os dados de hoje, depois do Desenrola 1, são um bom demonstrativo: a maior inadimplência aparece no cartão rotativo. Também é a que mais cresce. Depois vem o cheque especial. Em terceiro, longe, o crédito pessoal não consignado. De outro lado, a inadimplência se concentra na faixa de um a três salários mínimos. E grande parte dos devedores fica inadimplente na dívida renegociada.

Esse deve ser o público do Desenrola 2 e, provavelmente, do Desenrola 3. Isso mesmo. Há um estímulo à tomada de crédito na medida em que se coloca no horizonte a possibilidade de renegociação. Como acontece com a longa série de Refis — programas de refinanciamento para empresas. Há também um estímulo ao aumento de juros por parte dos bancos e financeiras. Até porque não há estímulo ao bom pagador. Estes deveriam pagar taxas de juros menores em todo tipo de crédito.

Em resumo: o Desenrola 2 alivia a vida dos devedores, mas não resolve o problema da inadimplência. Para isso, seria preciso adotar medidas de tal modo que o devedor só pudesse voltar a tomar crédito depois de ter zerado sua dívida negociada. Não é isso que tem acontecido. A renegociação parece ser um caminho para a pessoa voltar ao mercado. Que é, como dissemos, uma feira de ofertas de cartões.

Vai pelo mesmo caminho a anistia parcial que o Conselho Nacional de Trânsito concedeu a motoristas que não pagaram o pedágio no novo sistema free flow. Nada menos que 3,4 milhões de multas foram suspensas. E serão depois canceladas se o motorista pagar os pedágios atrasados. O governo alega que não se trata de bondade eleitoral, mas de reparação. Diz que o sistema é novo, com falhas no funcionamento e mal comunicado. Mas e os milhões que pagaram certinho? A anistia parcial sugere que outras poderão ser aplicadas. É, pois, estímulo negativo.

Em anos eleitorais, os governos costumam abusar das bondades. O governo federal está aumentando gastos, colocando dinheiro na economia, na expectativa de que se transforme em votos. O saldo devedor? Depois se vê.

 

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