sexta-feira, 15 de maio de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

PF tem o dever de investigar a fundo elo Flávio-Vorcaro

Por O Globo

Mensagens revelam proximidade do senador e pré-candidato do PL com o pivô do escândalo Master

Depois dos fatos revelados nos últimos dias, é dever das autoridades aprofundar as investigações sobre os elos entre o senador fluminense Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência, e Daniel Vorcaro, pivô do escândalo do Banco Master. Mensagens demonstram uma proximidade incomum entre o senador da República e o banqueiro conhecido pela generosidade financeira com que promovia seus interesses em Brasília.

Em áudio, Flávio pede a Vorcaro dinheiro para financiar “Dark Horse” (Azarão), filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro. Há indícios de que as remessas tenham começado em 2025. Entre fevereiro e maio, foram transferidos US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões) de um total de US$ 24 milhões, segundo reportagem do Intercept Brasil. Nas mensagens em que discutem pagamentos, os dois se tratam por “irmão”.

Atrasos nas parcelas parecem ter sido frequentes. Cinco dias antes de o Banco Central (BC) barrar a compra do Master pelo Banco de Brasília, em setembro, Flávio diz saber que Vorcaro passa por “momento dificílimo”. Afirma estar “sem graça” de cobrar dinheiro. Conta que as finanças da produção estão em fase decisiva e conclui: “A gente precisa saber o que faz da vida, porque já tem muita conta para pagar este mês e no mês seguinte também”. Naquele dia, Vorcaro pede desculpas, e os dois conversam por telefone.

Em seguida, os contatos se intensificam. No fim de outubro, Flávio informa que a produção chegou “no limite”. Em 16 de novembro, manda a seguinte mensagem: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”. No dia seguinte, Vorcaro foi preso quando tentava embarcar para o exterior, acusado da maior fraude bancária da História do Brasil, e em seguida o Master foi liquidado pelo BC.

Flávio omitiu do eleitor a proximidade de Vorcaro, enquanto cobrava investigações sobre adversários envolvidos no caso Master. Agora, justificou-se dizendo ser apenas um filho em busca de patrocínio para um filme sobre o pai. Admitiu que o dinheiro foi para um fundo administrado pelo advogado de seu irmão Eduardo. Mas não soube explicar as contradições entre notas dos produtores do filme. Alegou que eram apenas formais. Não eram. “Conheci Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, quando o governo Bolsonaro já havia acabado e não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro”, afirmou. “Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem.”

Suas explicações são insuficientes. As dificuldades do Master eram conhecidas pelo menos desde 2024, tanto que o banco estava à venda. Em agosto daquele ano, o senador Ciro Nogueira apresentou proposta de interesse do Master aumentando a garantia do Fundo Garantidor de Créditos para R$ 1 milhão. Só o fato de ser senador e ter de votar projetos de tal natureza cria conflito de interesses para Flávio.

Também é suspeito o volume de recursos destinado por Vorcaro a “Dark Horse”, suficiente para financiar cinco produções como “O agente secreto” ou três como “Ainda estou aqui”. É preciso investigar se o dinheiro foi todo gasto no filme ou se parte tomou outros caminhos. Claro que Flávio deve ter presunção de inocência. Mas são ainda mais claros os indícios que justificam investigações aprofundadas.

Devastação menor na Mata Atlântica decorre do êxito de políticas ambientais

Por O Globo

Área desmatada recuou 28% em 2025, com destaque maior para a preservação das florestas maduras

Entre 2024 e 2025, o desmatamento da Mata Atlântica caiu 28%, de 53.303 hectares para 38.385 hectares. Foi o menor patamar em quatro anos de monitoramento, de acordo com o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), desenvolvido por Fundação SOS Mata Atlântica, MapBiomas e Arcplan. Ótima notícia para o bioma mais devastado do país, que mantém apenas 24% da vegetação natural e 12% de florestas maduras, que guardam maior biodiversidade.

Outro dado positivo é que, justamente no segmento de florestas maduras, a redução foi mais significativa. A área desmatada despencou 40%, de 14.366 para 8.668 hectares, segundo o Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, feito em parceria da Fundação SOS Mata Atlântica com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). É a primeira vez em quatro décadas que a perda de vegetação fica abaixo dos 10 mil hectares.

Pesquisadores da SOS Mata Atlântica atribuem esses resultados à mobilização da sociedade, a políticas ambientais, a restrições de crédito a áreas desmatadas ilegalmente, à consolidação da Lei da Mata Atlântica e a ações de fiscalização, como a operação Mata Atlântica em Pé. “São dois anos de redução, e isso aponta para uma trajetória mais consistente”, diz Luís Fernando Guedes Pinto, diretor executivo da SOS Mata Atlântica. “Se permanecer, pode nos levar ao desmatamento zero até 2030, a meta brasileira.”

Há, no entanto, pontos de atenção. Embora 11 dos 17 estados que abrigam áreas do bioma tenham registrado redução no desmatamento, noutros seis — Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e São Paulo — houve aumento. Apenas quatro estados (Bahia, Minas Gerais, Piauí e Mato Grosso do Sul) concentram quase toda a área afetada (89%).

A queda no desmatamento da Mata Atlântica se soma a outros resultados positivos. Na Amazônia Legal, a devastação em 2025 caiu 11% em relação ao ano anterior e 50% na comparação com 2022, segundo o Inpe. No ano passado, a área desmatada foi de 5.796 quilômetros quadrados, a menor em 11 anos e a terceira mais baixa da série histórica. O Cerrado, que costuma enfrentar dificuldade para reduzir o desmatamento, também registrou recuo de 11% em 2025.

No mês passado, um relatório do World Resources Institute atribuiu aos bons resultados brasileiros a redução de 36% no desmatamento de florestas tropicais em todo o mundo em 2025. Segundo o documento, o trabalho no Brasil foi o principal fator a impulsionar o resultado geral. Mas fez um alerta sobre a vulnerabilidade das florestas aos incêndios.

Embora o Congresso não perca oportunidade de enfraquecer a legislação ambiental, abrindo caminho às motosserras, governos federal e locais têm dado atenção ao tema. Mas o problema está longe de resolvido. As taxas ainda são altas. E não é incomum que os índices oscilem em meio aos solavancos das mudanças climáticas. Os bons resultados indicam um caminho a seguir, mas não se pode baixar a guarda.

Intimidade entre Flávio e Vorcaro é de estarrecer

Por Folha de S. Paulo

Presidenciável do PL não se livrará da nódoa de ter chamado de irmão o pivô da roubalheira do Master

O argumento de que se tratou de ação privada cai por terra diante do padrão inescrupuloso de Vorcaro, que tentou comprar a República

São estarrecedoras as conversas em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) cobra do fraudador Daniel Vorcaro valores milionários supostamente para a produção de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Começa com essa bomba a campanha de alguém que já reunia escassas credenciais para pleitear o Planalto.

Os diálogos divulgados na quarta-feira (13) pelo site Intercept não deixam dúvida da proximidade entre o senador e o delinquente. "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente", escreveu o senador a Vorcaro, em 16 de novembro último, véspera da prisão do banqueiro por tentativa de fuga.

No afago fraterno, Flávio apelava ao então dono do Master para que saldasse os R$ 134 milhões prometidos para o filme "Dark Horse" (azarão), cinebiografia hagiográfica de Jair feita nos Estados Unidos. Com a prisão do "irmão" e a derrocada do banco, o repasse ficou em R$ 61 milhões.

O dinheiro do Master não era de Vorcaro —daí sua desenvoltura em celebrar contratos vultosos para se aproximar de agentes públicos. Era produto do maior roubo da história do sistema financeiro nacional, que custará à sociedade ao menos R$ 60 bilhões.

Policiais desconfiam de que a iniciativa artística dos Bolsonaros seja fachada para financiar o ex-deputado fujão Eduardo nos EUA. A hipótese é plausível dada a fortuna do alegado orçamento, cujo custo rivalizaria com grandes realizações de Holywood.

A reação do pré-candidato do PL foi desastrosa. Primeiro negou relação com o ex-banqueiro. Depois, diante do fato, disse não ter feito nada de errado ao pedir dinheiro para uma ação privada, sem envolver verba pública. O argumento perde o sentido quando se leva em conta a fonte pagadora. Vorcaro tentou comprar a República com o seu dinheiro sujo.

Fechou contrato de R$ 129 milhões com o escritório da mulher do ministro Alexandre de Moraes, repassou R$ 35 milhões à família Dias Toffoli por resort. Pagou R$ 6,1 milhões à banca de parentes de Ricardo Lewandowski, da qual o ex-ministro se licenciou para assumir a pasta da Justiça.

Com a consultoria do ex-ministro Guido Mantega, que levou Vorcaro a audiência com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Master gastou R$ 14 milhões. Desembolsos milionários também houve com empresas de parentes do governador pessedista Ratinho Júnior (R$ 21 milhões) e do senador petista Jaques Wagner (R$ 12 milhões). Oponente de Wagner na Bahia, o ex-prefeito ACM Neto (União Brasil) recebeu R$ 5,5 milhões em consultoria.

O escritório advocatício do presidente do partido de Neto, Antônio Rueda, obteve R$ 6,4 milhões do banco. Ao homólogo de Rueda no PPCiro Nogueira, a Polícia Federal afirma que Vorcaro pagava mesada de até R$ 500 mil.

Esse era o padrão rapace e inescrupuloso do "irmão" de Flávio Bolsonaro. Por isso o pré-candidato do PL deve explicações sobre a intimidade com o mafioso.

Rumo ao desmatamento zero na mata atlântica

Por Folha de S. Paulo

Bioma mais ameaçado do Brasil alcança taxa de devastação abaixo de 10 mil hectares pela 1ª vez em 40 anos

É preciso melhorar a arrecadação de multas, mas embargo de produtos e corte de crédito de infratores são ações mais eficazes

Por muitos anos a situação das matas no Brasil constituiu fonte inesgotável de más notícias. Mas, após a redução no ritmo de desmate na amazônia e no cerrado, agora a mata atlântica vem confirmar inflexão na tendência lúgubre, registrando perda abaixo de 10 mil hectares (ha) pela primeira vez desde o início da série histórica, em 1985.

Segundo o Atlas de Remanescentes Florestais, mantido há 40 anos pela ONG SOS Mata Atlântica em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foram 8.668 ha devastados em 2025, ante 14,3 mil ha em 2024 —redução de 40%. Da cobertura original de 1,3 milhão de ha, restam apenas 12,4%.

Já o Sistema de Alertas de Desmatamento —criado pela SOS, a rede MapBiomas e a empresa Arcplan em 2022— detecta áreas de corte menores que o limite inferior de três hectares do Atlas. Com tal resolução, a queda na destruição foi menor (28%), de 53,3 mil ha para 38,3 mil ha.

Tal monitoramento também capta áreas de vegetação em pé ignoradas pelo Atlas, o que resulta numa taxa de cobertura maior (24%) —mas aí se incluem áreas de mata secundária, empobrecida, com menos biodiversidade.

Melhor que nada, pode-se argumentar. Mas, ainda assim, longe de prover os serviços ambientais de uma floresta madura: produção de água, capacidade de sustentar mais espécies e captura de CO2 para mitigar o aquecimento global. Destruir é fácil e rápido; reconstituir, lento e custoso.

Tanto a devastação quanto a recuperação da mata atlântica, ou de qualquer bioma, não ocorrem por acaso, e sim por desígnio. Não é coincidência que o desmatamento ali tenha recrudescido nos governos de Dilma Rousseff (PT), Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL), quando prevaleceram um desenvolvimentismo antiquado, imbuído da ideologia antiambiental prevalente em setores do agronegócio.

Como 96% das derrubadas de mata atlântica são promovidas pela agropecuária, de acordo com o SAD, esse setor deve ser o foco das medidas dissuasórias. É preciso agilizar e modernizar a execução do pagamento de multas —o Ibama arrecada em média por ano somente 5% das penalidades que aplica.

Mais eficazes são intervenções como o embargo do produto oriundo de desmatamento ilegal e o cancelamento do crédito para agropecuaristas flagrados por satélites em delitos ambientais.

Ações de inteligência que restauraram a perspectiva de desmatamento zero na mata atlântica deveriam ser replicadas em todos os biomas brasileiros.

O filme de terror de Flávio Bolsonaro

Por O Estado de S. Paulo

O caso da relação de Flávio com Vorcaro expõe a baixa estatura moral do pré-candidato e torna ainda mais urgente que a direita democrática se mobilize para se libertar do bolsonarismo

O primeiro teste de estresse da campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência terminou mal. A revelação de que o primogênito de Jair Bolsonaro cobrou do banqueiro Daniel Vorcaro dinheiro para alegadamente bancar um filme sobre a trajetória do pai fez mais do que expor o despreparo político do indigitado: escancarou a sua baixa estatura moral, deficiência que o torna absolutamente indigno de ser presidente da República.

Esse episódio torna ainda mais urgente que a direita democrática se empenhe em construir uma alternativa conservadora séria, comprometida com a Constituição e com padrões mínimos de decência, para disputar a Presidência e impedir que o petista Luiz Inácio Lula da Silva ganhe mais quatro anos para arruinar o País. Para isso, a direita não pode seguir a reboque de um desqualificado como Jair Bolsonaro e de seu clã, cuja trajetória política é marcada desde sempre por sua vocação antidemocrática, por sucessivos escândalos, pela confusão deliberada entre público e privado e pela imoralidade.

Graças às conversas reveladas pelo site Intercept Brasil, confirmadas pelo Estadão, essa depravação fica ainda mais explícita. Nelas, constata-se o grau de proximidade entre um senador da República, hoje com a pretensão de governar o Brasil, e um banqueiro que já naquela época era suspeito de ser o protagonista do maior crime já cometido contra o sistema financeiro nacional.

De acordo com os documentos da Polícia Federal (PF) publicados pelo site, Flávio Bolsonaro negociou diretamente com Vorcaro uma quantia equivalente a US$ 24 milhões para a produção de Dark Horse, a tal cinebiografia do ex-presidente, dos quais US$ 10 milhões já teriam sido pagos ao longo de 2025.

Primeiro, Flávio tentou negar. Questionado por jornalistas, disse que se tratava de “mentira”. Depois, quando as provas vieram à luz, o senador teve de reconhecer que pediu mesmo o dinheiro, mas enfatizou que se tratava de uma relação “privada”, sem envolver recursos públicos.

Ora, pouco importa se o dinheiro era privado ou público. O busílis é a origem dos recursos. A fortuna do sr. Vorcaro não advém do seu sucesso empresarial em atividades legais. Segundo a PF, o banqueiro construiu patrimônio por meio de fraudes bancárias, algumas das quais envolvendo fundos de previdência de servidores públicos em diversos Estados e municípios, além do Banco de Brasília (BRB). Em paralelo, Vorcaro construiu uma rede de influência nos Três Poderes, ao que parece a peso de ouro. Tudo isso já era sabido na época da conversa entre os dois.

O problema central aqui, portanto, é outro. Flávio Bolsonaro não pode ser tratado como um cidadão qualquer pedindo ajuda a um financiador qualquer. Era um senador com pretensões presidenciais esperando receber milhões de dólares de um notório escroque, cuja prisão aconteceria no dia seguinte à tal conversa.

Ademais, constrange o tratamento fraterno que Flávio Bolsonaro dispensa a Vorcaro. “Irmão, estou e estarei contigo sempre. Não tem meia conversa entre a gente”, disse o senador. A frase não deixa margem para dúvidas sobre a relação de proximidade, confiança e eventual “gratidão política”, chamemos assim, envolvidas naquela negociação.

Para piorar, a mambembe explicação do entorno bolsonarista só aprofundou as suspeitas sobre as reais intenções de Flávio Bolsonaro. O produtor do filme, o deputado Mário Frias (PL-SP), afirmou textualmente que “não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse”. Ora, se não havia dinheiro do banqueiro na produção, para onde iria a dinheirama cobrada pelo senador?

Não cabe a este jornal antecipar julgamentos. Mas tampouco se pode condenar quem acredite que a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro envolva suspeitas de lavagem de dinheiro, formação de caixa dois ou enriquecimento ilícito. Um pré-candidato à Presidência envolvido em transações desse jaez tem o dever de dar explicações convincentes ao País, o que Flávio Bolsonaro ainda não fez. Por ora, preferiu mentir, atacar a imprensa e zombar da inteligência alheia.

O vexame das blusinhas

Por O Estado de S. Paulo

Menos de dois anos após taxar a importação de bugigangas chinesas, Lula revoga a medida, enfurece indústria e comércio nacionais e confirma que não tem limites na busca pela reeleição

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva oficializou o vale-tudo na busca pela reeleição ao zerar o Imposto de Importação sobre bugigangas estrangeiras – sobretudo chinesas. Conhecida como “taxa das blusinhas”, a cobrança, que gerou tanta celeuma nos últimos três anos, foi revogada por meio de uma medida provisória assinada em cerimônia improvisada no Palácio do Planalto.

O evento em que a nova medida foi anunciada nem sequer estava na agenda presidencial, mas, segundo a ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, tudo foi pensado “com calma e cuidado” pelo governo. O ministro do Planejamento, Bruno Moretti, por sua vez, disse que a revogação contribui para “melhorar o perfil da tributação brasileira”, como se uma medida puramente eleitoreira pudesse ter o efeito de uma reforma estrutural.

Mas quem se superou mesmo foi o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron. Segundo ele, “depois de três anos em que conseguimos combater o contrabando e regularizar o setor, nós podemos dar um passo adiante”. É isso mesmo: o contrabando no País, de acordo com Ceron, teria sido praticamente “eliminado” em razão da taxa das blusinhas. É sintomático que a perda da arrecadação com a suspensão do imposto, que garantiu R$ 1,78 bilhão somente nos quatro primeiros meses do ano e R$ 5 bilhões em 2025, não tenha sido sequer mencionada.

O governo petista simplesmente não consegue ser honesto a respeito da taxa das blusinhas. Primeiro, decidiu implantá-la unicamente com o objetivo de aumentar a arrecadação – mas a desculpa na época era de que se fazia necessário “equilibrar o jogo” no varejo brasileiro, como argumentou o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Agora, edulcora a decisão de suspender a taxa com argumentos que insultam a inteligência dos cidadãos brasileiros e que mal e porcamente escondem o caráter escandalosamente eleitoreiro da medida.

A indústria têxtil e o comércio varejista, claro, ficaram furiosos, e com toda a razão. As bugigangas chinesas jamais foram isentas de Imposto de Importação, mas o governo se abstinha de cobrá-lo quando os envios eram realizados entre pessoas físicas e o valor do produto era inferior a US$ 50. Tal brecha acabou por ser fartamente explorada por plataformas estrangeiras que se passavam por pessoas físicas, fracionavam as encomendas e inundavam o País com quinquilharias sem pagar impostos.

Não é uma questão de protecionismo comercial. Os produtos asiáticos, sobretudo chineses, já chegam ao País a preços abaixo dos praticados no mercado exatamente porque são subsidiados já na origem. Com a isenção do Imposto de Importação, passam a ter uma vantagem adicional diante de setores nacionais que geram empregos, pagam tributos e enfrentam condições mais que desfavoráveis para produzir e comercializar no País, a começar pelas altas taxas de juros. Na prática, o governo optou por subsidiar empresas estrangeiras em detrimento da indústria e do comércio locais, por puro interesse eleitoral. Melhor seria reduzir a carga tributária suportada pelas empresas brasileiras, de modo a melhorar a competitividade do produto nacional ante a inundação de blusinhas chinesas. Mas isso um governo petista, perdulário por natureza, jamais faria.

Lula, a bem da verdade, sempre manteve uma atitude pusilânime em relação ao tema. A cobrança da taxa das blusinhas poderia ter sido instituída por meio de medidas infralegais, mas veio por meio de um jabuti envergonhado no projeto de lei sobre o Programa Mover, de incentivos à indústria automotiva. Coube ao então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), mobilizar os parlamentares pela aprovação da proposta, provavelmente à custa de muitas emendas ao Orçamento.

A mobilização recente da oposição para derrubar a taxa acrescenta insulto à injúria. Quando a medida que instaurou a cobrança tramitava no Congresso, ninguém trabalhou para derrubá-la, tanto que o texto passou por 380 votos a 26 na Câmara e por 67 votos a zero no Senado. E Lula, embora dissesse ser pessoalmente contra a cobrança, não vetou o texto à época.

Em resumo, nada do que está relacionado à tal taxa das blusinhas diz respeito aos interesses dos cidadãos brasileiros. Os únicos interesses atendidos são os dos políticos que só pensam em voto, e não no País.

Espírito protecionista

Por O Estado de S. Paulo

Ação da UE contra carne brasileira pegou o governo de ‘surpresa’, mas não deveria

A decisão da União Europeia de retirar o Brasil da lista de países autorizados a vender produtos de origem animal a partir de setembro foi recebida “com surpresa” pelo Planalto. A confidência chama atenção menos pelo tom diplomático do que pelo que sugere sobre a forma como Brasília ainda enxerga o comércio internacional. Não havia muito de inesperado no episódio. As exigências sobre antimicrobianos eram conhecidas há anos. O próprio setor privado já trabalhava em protocolos de adaptação. E o acordo Mercosul-União Europeia inevitavelmente ampliaria o escrutínio regulatório sobre o agro sul-americano.

A Europa pratica, há muito tempo, uma forma sofisticada de protecionismo agrícola. Tarifas explícitas foram suplantadas por barreiras sanitárias, ambientais e técnicas. Resíduos químicos, rastreabilidade, regras climáticas, bem-estar animal, certificações e auditorias passaram a funcionar como instrumentos de filtragem comercial. O componente político é evidente. Agricultores europeus continuam entre os grupos mais protegidos e subsidiados do mundo. Países como França ou Polônia transformaram interesses setoriais em força de veto em Bruxelas. Mesmo embalado em roupagem ambiental ou sanitária, o impulso protecionista é indisfarçável.

Ainda assim, nossos parceiros no Mercosul, assim como México ou Colômbia, permanecem habilitados a exportar para o bloco. Não houve nenhuma “surpresa” em Buenos Aires ou Montevidéu.

O agronegócio brasileiro já opera em escala global. A Europa, embora menos relevante do que China ou EUA, tornou-se um mercado particularmente valioso pela sofisticação e pelo prêmio pago por qualidade. As vendas de carne brasileira ao bloco cresceram mais de 130% no ano passado. Nada disso sugere fragilidade produtiva. O problema apareceu na camada institucional.

O comércio internacional mudou mais rapidamente do que parte do Estado brasileiro parece ter percebido. Grandes mercados passaram a exportar seus padrões regulatórios junto com seus interesses econômicos. O debate já não se restringe à qualidade do produto. Envolve documentação, rastreabilidade, protocolos sanitários e capacidade de comprovação permanente. Em cadeias superiores de alimentos, qualidade sem certificação robusta vale cada vez menos.

Por isso a reação do governo importa tanto quanto o episódio em si. Comitês de crise e reuniões emergenciais podem dissipar a turbulência imediata. O risco está em tratar cada nova exigência como evento excepcional. O acordo Mercosul-UE tende a aprofundar a dinâmica protecionista, não suavizá-la. Quanto maior a presença brasileira nos mercados ricos, maior será a pressão regulatória sobre cadeias produtivas, sistemas de inspeção e mecanismos de rastreamento.

O Brasil tem razões legítimas para criticar o protecionismo europeu. Mas indignação não substitui preparação. O agro demonstrou capacidade extraordinária de produtividade, tecnologia e adaptação. O desafio é construir um aparato estatal capaz de acompanhar esse avanço. Mercados sofisticados compram produto, processo e prova ao mesmo tempo. É nessa fronteira que a competição internacional está sendo decidida.

Em modo eleitoral, governo abre as torneiras do crédito

Por Valor Econômico

A volúpia de estímulos pode se aproximar de R$ 200 bilhões se o governo bater o martelo em R$ 30 bilhões de créditos para renovação da frota para taxistas e motoristas de aplicativos

O governo federal perdeu qualquer escrúpulo em usar dinheiro público em programas de cunho eleitoral que beneficiem a candidatura à reeleição do presidente Lula. A sequência de medidas nos últimos dias é frenética. Com os atos recém-anunciados, sabe-se que a União e os bancos públicos se incumbirão de financiar a renovação de todo tipo de transporte do país: caminhões, ônibus, máquinas e implementos agrícolas, carros para taxistas e motoristas de aplicativos. Estuda ainda crédito para motos para entregadores de aplicativo, e, em praticamente todos os casos, com taxas abaixo da Selic. Além disso, não há dívida em atraso que o governo não se proponha a auxiliar, bancando garantias na renegociação, de produtores rurais a consumidores e pequenas e médias empresas.

O milagre da multiplicação do dinheiro, em uma gestão que encerrará seu mandato em dezembro com déficit de cerca de R$ 50 bilhões, está sendo feito sem que a meta fiscal e o avanço das despesas permitidos pelo regime fiscal sejam alterados. Medidas legais técnicas, com fins não discerníveis para não especialistas, foram tomadas para preparar o terreno a aportes do Tesouro em fundos públicos e privados com participação do Estado, permitindo o uso de superávits de vários deles para financiamentos. É o que está sendo feito, a toque de caixa, para melhorar a popularidade do presidente, cujo índice de desaprovação de seu governo ainda supera o de aprovação. Há pelo menos uma dezena deles que bancou operações de R$ 164 bilhões no ano passado (Folha de S. Paulo, 30 de abril).

Grande parte desses fundos foi criada com destinações específicas que, uma vez cumpridas, deveriam devolver os saldos de recursos ao Tesouro para redução dos débitos públicos. Isso não ocorreu, e hoje são veículos para mais empréstimos a atividades. Em geral, são bilhões de reais que não transitam pelo Orçamento da União, o que levou um relatório técnico de auditoria do Tribunal de Contas da União a classificar o uso de 16 desses veículos públicos e privados como “estruturas orçamentárias e financeiras paralelas”. A recomendação dos técnicos, que ainda necessita de aprovação da cúpula do tribunal, é que a União deixe de utilizar esses expedientes e os substitua por procedimentos orçamentários, plenamente transparentes e facilmente auditáveis.

Até o início da semana, havia aumento de crédito e gastos com benesses no ano eleitoral de R$ 145 bilhões. A volúpia de anúncios de novas providências elevou esta conta em mais alguns bilhões e ela se aproximará mais dos R$ 200 bilhões se o governo bater o martelo em R$ 30 bilhões de créditos para renovação da frota para taxistas e motoristas de aplicativos.

Ministros e equipe econômica negam que as medidas visem a estimular o consumo, e sim o investimento, um argumento torto. O investimento em primeiro momento eleva a demanda para só depois ampliar a capacidade de oferta. Por outro lado, a taxa de investimento do país, a que aparece na contabilidade nacional, está em queda e não em expansão.

As ações mais recentes do Planalto foram o subsídio à gasolina, item de maior peso individual no IPCA, a renovação do subsídio ao diesel, que expiraria no fim de maio, e a revogação da “taxa das blusinhas”, imposto federal de 20% a bens importados de até US$ 50, instituída sob intensa polêmica em junho de 2024. O governo argumentou que o imposto inibia o consumo dos mais pobres, e o ministro Bruno Moretti, do Planejamento, que seu fim melhoraria o “perfil de nossa tributação”.

Ninguém explicou por que o imposto foi criado, mas a mensagem eleitoral é clara.

Como o Congresso não votou com a presteza esperada pelo Planalto o projeto de lei que permite usar o aumento de arrecadação com o petróleo para compensar os subsídios à gasolina, diesel, gás e biocombustíveis, o governo anunciou em MP que haverá subvenção de até R$ 0,89 por litro na gasolina e R$ 0,35 no litro de diesel. A intenção oficial, por enquanto, é bancar o subsídio do litro da gasolina, a um custo de R$ 1,2 bilhão por mês. A Warren Investimentos estima gastos de R$ 35,4 bilhões do programa, com compensação de R$ 19,28 bilhões com aumento de tributação, especialmente o imposto de exportação, e custo líquido de R$ 15,86 bilhões.

A Petrobras deve aumentar em breve o preço da gasolina, que, segundo a associação dos importadores, está defasada em R$ 1,60 por litro em relação à cotação internacional. A subvenção proposta permitiria à Petrobras reduzir de um quarto à metade essa diferença com reajustes, sem que o preço em tese se alterasse para o consumidor.

Ao usar pesada artilharia eleitoral, em crédito com taxas de juros abaixo da Selic, a conta do subsídio implícito — diferença entre taxas que o Tesouro paga para se financiar e aquela pelo qual será remunerado — será cobrada do Tesouro, isto é, dos contribuintes. Às voltas com o choque do petróleo, de um lado, e medidas expansionistas ininterruptas, o Banco Central poderá ter de interromper corte dos juros em breve. Depois de herdar R$ 150 bilhões para gastar do governo Bolsonaro, com a PEC da transição, o governo Lula amplia estímulos à economia acima disso, via créditos, para se eleger. Eleito, herdará mais rombos fiscais do que os que não quis resolver em quatro anos.

China, EUA e o alerta de Tucídides

Por Correio Braziliense

A falência do diálogo entre as duas potências não é uma hipótese distante, mas um processo de ruptura em curso que ameaça qualquer vestígio de estabilidade global.

Há 2.500 anos, o historiador grego Tucídides observou que a Guerra do Peloponeso, na Grécia Antiga, não foi causada por um incidente específico, mas simplesmente pela ascensão inevitável de uma potência que ameaçava a hegemonia da outra. "A ascensão de Atenas e o medo que isso provocou em Esparta tornaram a guerra inevitável", disse. A lição atravessou os séculos e ganhou nome contemporâneo: a "Armadilha de Tucídides" descreve o risco estrutural de conflito quando uma força emergente desafia a estabelecida.

Na cúpula realizada nesta quinta-feira em Pequim, o líder chinês Xi Jinping colocou essa armadilha explicitamente na mesa ao questionar o presidente Donald Trump se China e Estados Unidos conseguirão escapar dela. Não foi digressão acadêmica. Foi o reconhecimento de que a falência do diálogo entre as duas potências não é uma hipótese distante, mas um processo de ruptura em curso que ameaça qualquer vestígio de estabilidade global.

O paralelo entre Atenas e Esparta é evidente no atrito entre China e EUA. O conflito já se materializa diariamente na inflação persistente, no custo dos combustíveis e na volatilidade cambial que penaliza o poder de compra das populações. A guerra tarifária permanente, o bloqueio cruzado no mercado de semicondutores e a reconfiguração forçada das cadeias de suprimentos transferem uma fatura altíssima, impiedosamente, aos países em desenvolvimento. Enquanto Washington e Pequim jogam xadrez pela supremacia tecnológica e militar, as nações do Sul Global enfrentam pressões severas para escolher um lado, sacrificando segurança alimentar e energética em nome de um alinhamento que não lhes oferece garantia alguma.

O histórico recente da relação bilateral não autoriza qualquer entusiasmo. A política externa norte-americana, marcada pela imprevisibilidade e pela ameaça constante de rupturas tarifárias unilaterais, encontra sua contrapartida no expansionismo assertivo de Pequim, na intimidação sobre Taiwan, no controle agressivo das rotas do Mar do Sul da China. Na última década, ambos os governos notabilizaram-se por esvaziar fóruns multilaterais e instrumentalizar as regras de comércio como arma de coerção. Falar em "coexistência" num cenário em que  a confiança mútua foi deliberadamente destroçada soa como estratégia retórica para ganhar fôlego, não como inflexão genuína.

O que o impasse atual — entre uma potência estabelecida que resiste em ceder espaço e uma nação ascendente que reivindica protagonismo imediato — exige não é um armistício calibrado pelas conveniências do calendário político de cada capital, mas salvaguardas concretas: regras de comércio previsíveis, canais de comunicação que funcionem fora das cúpulas e mecanismos de contenção de crises que independem da disposição pessoal de dois líderes.

A invocação de Tucídides serve como lembrete de que a história não costuma perdoar a arrogância de grandes impérios. Se os Estados Unidos insistirem na contenção de Pequim pela força comercial bruta, recusando-se a acomodar o novo peso geopolítico chinês, e se a China confundir ascensão econômica com salvo-conduto para atropelar a soberania alheia, o confronto deixará de ser uma analogia política com a Grécia Antiga para se tornar um trágico fato consumado. A história reserva encargos pesados para quem subestima o custo de um erro de cálculo nessa escala.

A insuficiência das explicações de Flávio Bolsonaro

Por O Povo

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que é pré-candidato à Presidência da República pelo seu partido, está obrigado a apresentar explicações mais convincentes sobre suas relações com o notório ex-banqueiro Daniel Vorcaro, consideradas as revelações apresentadas nas últimas horas em reportagem do site The Intercept. Demonstra-se imperativo que tudo seja esclarecido, numa primeira instância em respeito aos seus eleitores, aliados e simpatizantes.

O material jornalístico que caiu como uma bomba nos meios políticos nas últimas horas revela uma proximidade pessoal entre Flávio e Vorcaro com a publicação de mensagens que os dois trocavam, inclusive enquanto as investigações contra o ex-banqueiro avançavam. Uma delas foi captada um dia antes de sua prisão quando tentava embarcar para Dubai, viagem - que a Polícia Federal entendeu como tentativa de fuga - objeto de tratativa na conversa entre os dois.

Abstraída a questão eleitoral, é importante que um representante escolhido pelo voto popular, hoje no Senado da República, dê as expplicações acerca do que tem sido publicado. De início, àqueles que nele depositaram confiança para exercer um mandato. Até porque, até então, ele procurava mostrar distanciamento do personagem apontado como responsável pelo maior escândalo do sistema financeiro do Brasil, preso desde novembro de 2025.

Ideia que o material do The Intercept, ao qual Flávio Bolsonaro não fez reparo quanto à legitimidade, contraria de maneira frontal, ao expor um intenso fluxo de conversas e contatos entre os dois, parte deles indicando haver uma relação pessoal para além do protocolar. Além disso, um acerto para que Vorcaro financiasse um filme que, na linha cinebiográfica, conta a história do ex-presidente Jair Bolsonaro, pai do senador.

É natural que o episódio esteja tendo ampla repercussão nos meios políticos e seja discutido sob a perspectiva eleitoral, mas, de início, cobre-se de Flávio Bolsonaro, a partir da função pública que exerce, explicação sobre a extensão do seu relacionamento com Daniel Vorcaro. Ontem houve a sexta operação da Polícia Federal como desdobramento da investigação em torno da fraude que levou à quebra do Banco Master, para diálogos no nível dos que apareceram nas últimas horas, parte deles envolvendo um pedido explícito de (muito) dinheiro não merecer uma resposta que esclareça ponto a ponto as dúvidas levantadas pelo material jornalístico.

Quanto ao projeto de candidatura presidencial do senador, neste momento é algo secundário na perspectiva da sociedade. Menos para seu grupo político e a militância mais arraigada, que pode definir suas prioridades e trabalhar em torno delas. Flávio Bolsonaro é que não pode, nesta hora crucial, fazer uma escolha equivocada. 

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